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áudio: trifônico |
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09/09/10 |
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©Ricardo Labuto Gondim
Graças a uma série de pequenos livros chamada “Experiências e Brincadeiras com Eletrônica”, de Newton C. Braga, nos debruçamos sobre transistores e circuitos integrados. Braga entendia tudo de eletrônica. E mais ainda de crianças. Sabia, por exemplo, estimular a montagem de um transmissor de AM para ensinar os princípios da radiotransmissão. E esse foi o nosso primeiro projeto. A turma tinha três “cientistas”. O mais velho era o Carlinhos, com 14 anos. Habilidoso, Carlinhos enrolou as bobinas dos transmissores, e derreteu lápis de cera numa lata de salsichas para fixar o cabinho ao ferrite (me diga, qual é a graça de passar verniz?). Ele adorava música e eu também. Éder tinha 11 anos e não se interessava por música, só por eletrônica.
Repare que mencionei VU no singular. O sonho dos jovens na época era o Quasar quadrafônico de “295 Watts Hi-Fi”. Não sei se era realmente quadrafônico, pois nunca o ouvi. Aquele era um brinquedo caro demais para garotos do subúrbio que tinham a mania de aperfeiçoar qualquer coisa que acendesse, tocasse ou mexesse, incluindo gatos, tartarugas e rãs. Me recuso a contar a história da rã sem a presença dos meus advogados. Mas vale mencionar que o Carlinhos removeu o que “pareciam” ser resistores de fio da enceradeira da Tia Nadir para torná-la “mais eficiente”. Não quero entrar em detalhes, mas ainda acho que a Força Aérea não tinha o direito de apreender o que sobrou.
As caixas amplificadas representavam três fontes de áudio mono. Se alguém tivesse explicado que a reprodução mono seria mais conveniente para a festa no quintal da casa do Gordo, não sei se teríamos aceitado passivamente o postulado: sonhávamos com efeitos estereofônicos. Queríamos que o público experimentasse as emoções dos “discos de teste” que ouvíamos em casa de amigos mais velhos e mais abastados: aviões decolando no canal A e aterrissando no canal B; ou um grupo de sujeitos praticando roleta russa, o revólver deslizando de uma caixa para a outra até o fim inevitável (Ah-ha! You loose!). Éramos crianças. Sem saber, queríamos realizar aquilo que o os engenheiros de gravação de hoje fazem com o multicanal: misturar atrocidades com banalidades. No fundo, tentávamos transformar o know-how adquirido com pasta de pólvora, cera derretida, leds piscando e eletrodomésticos numa experiência musical.
Desculpa te dar a notícia assim, mas foi tudo um grande erro. O lançamento de nossa miraculosa equipe aconteceu na festa da casa do Gordo. Os problemas começaram porque, para nós, homens de ciência, aterramento era superstição. A superstição se somou a uma série de soldas frias, malhas expostas e a um traumático descasamento de impedâncias gerado no ventre obscuro do mixer, um pesadelo aperfeiçoado no distribuidor trifônico do Carlinhos.
Rapaz, a humanidade é contraditória: o transporte da Dominante nos transformou em heróis, chegaram a nos felicitar! Até aquele momento a festa estava tão chata, mas tão chata, que quando a mãe do Gordo derrubou os talheres saiu todo mundo dançando. Mas depois que a vitrola foi para o quintal e o primo mais velho do Gordo assumiu a programação... A festa representou o fim dos negócios, mas tivemos muitas outras aventuras. Desculpe, amigão, se te arrasto até aqui para contar lembranças pessoais. Mas é que a imaturidade das gravações de música em multicanal me levou de volta à infância. Seus efeitos me lembraram as primeiras gravações em estéreo, com uma separação tão radical entre canais que parecia que os membros da orquestra tinham brigado. Agora, a título de promover uma ambiência “realista”, os engenheiros cometem as mesmas ingenuidades do passado. Especialmente com música orquestral.
Disse e repito: se você se sentar na estante de uma orquestra só vai ouvir o que está perto. O resto vai soar estranhamente distante. Ou simplesmente não vai soar. O único músico em posição de ouvir o resultado harmônico é o regente. Mesmo assim, se é bom, não ignora que o som projetado além dele vai soar muito diferente também. No tempo em que regia a Orquestra Sinfônica Jovem, o saudoso maestro David Machado deixava a turma tocando sozinha, descia do pódio, passeava pela platéia e sentava-se aqui e ali, gritando uma ou outra instrução para os músicos. Além de aumentar a autoconfiança da meninada, Machado fazia um “reconhecimento” dos resultados harmônico e acústico da execução. Assisti a todos os ensaios da Segunda de Mahler com Gilbert Kaplan no Brasil. O último, no Teatro Municipal do Rio foi tenso. O milionário-dublê-de-regente não conseguia fazer com que as violas soassem mais alto. O preparador do coro, maestro Henrique Morelenbaum explicou que quando certas partes da galeria e do balcão simples estivessem cheias, o público ouviria as violas muito bem, mesmo que no palco elas soassem um pouco mais baixo. E foi exatamente o que aconteceu.
Tenho um equipamento multicanal exclusivamente para assistir filmes. Na minha modesta opinião, é para isso que eles servem. Acho uma bobagem, por exemplo, usar canais traseiros para reproduzir o rebatimento de uma grande sala de concertos, coisa que os falantes frontais revelam nas boas gravações. Não quero ouvir ecos, quero ouvir música. Na terça-feira que vem pode ser que algum espírito penetrante tenha um estalo e descubra uma utilidade lógica, natural e provavelmente muito óbvia para a reprodução em multicanal que ninguém ainda imaginou. Por que não? Mas hoje, francamente, olhar para a orquestra e ouvir um instrumento extenso como a clarineta pelos canais surround não tem sentido musical nenhum. Queria aproveitar a fleumática irritação deste artigo para dizer que a inglesa B&W deve algo aos garotos do Méier pelo seu pioneirismo. E que a Força Aérea bem que podia devolver a enceradeira já que o piloto saiu ileso.
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Este site foi atualizado em 12/08/09