áudio: trifônico

18/02/10

Home
áudio: audiófilos
áudio: audiofilia
áudio: matchpoint
áudio: edifier x200
áudio: merda
áudio: sonoridades
áudio: sociologia do fasano
áudio: insegurança
áudio: webht
áudio: prexis 216
áudio: imprensa de áudio
áudio: cabo ultra xt
áudio: máximas
áudio: cabo aw 500s
áudio: chuva
áudio: manual da crítica
áudio: contos morais
áudio: pré de phono
áudio: psicanálise
áudio: diálogos
áudio: luxúria
áudio: aviação
áudio: trifônico
áudio: sistemas digitais
áudio: entomologia
áudio: literatura

 

 


A Pólvora, a enceradeira e a
invenção do sistema trifônico

©Ricardo Labuto Gondim
(Nova versão do texto publicado na CAVI)


Comecei a me interessar seriamente por áudio aos 12 anos. Fui morar no Méier, um subúrbio do Rio e meus novos vizinhos eram crianças excepcionais, com um interesse invulgar pela ciência.

É sério. Quando entrei para a turma eles estavam construindo um foguete com combustível sólido: um quilo de pólvora negra – comprada na loja de artigos religiosos de um louco irresponsável – misturado com cola plástica. O foguete não decolou, mas o clarão, o rugido e a pressão da chama que jorrou durante quase um minuto foram suficientes para que desistíssemos da indústria aeroespacial.

Graças a uma série de pequenos livros chamada “Experiências e Brincadeiras com Eletrônica”, de Newton C. Braga, nos debruçamos sobre transistores e circuitos integrados. Braga entendia tudo de eletrônica. E mais ainda de crianças. Sabia, por exemplo, estimular a montagem de um transmissor de AM para ensinar os princípios da radiotransmissão. E esse foi o nosso primeiro projeto.

A turma tinha três “cientistas”. O mais velho era o Carlinhos, com 14 anos. Habilidoso, Carlinhos enrolou as bobinas dos transmissores, e derreteu lápis de cera numa lata de salsichas para fixar o cabinho ao ferrite (me diga, qual é a graça de passar verniz?). Ele adorava música e eu também. Éder tinha 11 anos e não se interessava por música, só por eletrônica.

O segundo projeto foi a “Super Sirene” de Braga, uma mesa de efeitos sonoros com cerca de nove potenciômetros e cinco ou seis chaves que multiplicavam seus recursos infinitamente – para desespero dos vizinhos e cães. Estávamos montando uma “equipe” para animar festas. A mixagem estava em moda, e nós desenhamos um mixer passivo com potenciômetros de fio de 50 Ohms instalado num estojo de madeira com knobs gigantescos e um VU. Mais tarde, quando Newton escreveu sobre leds, o VU foi substituído por uma fileira de luzes vermelhas - cada uma roubando 0,6 Volts do sinal de áudio.

Repare que mencionei VU no singular.

O sonho dos jovens na época era o Quasar quadrafônico de “295 Watts Hi-Fi”. Não sei se era realmente quadrafônico, pois nunca o ouvi. Aquele era um brinquedo caro demais para garotos do subúrbio que tinham a mania de aperfeiçoar qualquer coisa que acendesse, tocasse ou mexesse, incluindo gatos, tartarugas e rãs. Me recuso a contar a história da rã sem a presença dos meus advogados. Mas vale mencionar que o Carlinhos removeu o que “pareciam” ser resistores de fio da enceradeira da Tia Nadir para torná-la “mais eficiente”. Não quero entrar em detalhes, mas ainda acho que a Força Aérea não tinha o direito de apreender o que sobrou.

O espírito científico irrefreável e nossa tenra idade nos condenaram: Quasar, amigão, só no céu; aqui em baixo tivemos que nos contentar com uma eletrola portátil a válvula com cápsula de cristal, duas caixas amplificadas Modlise ou coisa parecida, caixa amplificada Yang com um tweeter automotivo “Pagoda” com “a” parafusado no tampo superior (isso mesmo, décadas antes da Nautilus), dois gravadores-cassete Philips e o nosso mixer passivo.

As caixas amplificadas representavam três fontes de áudio mono. Se alguém tivesse explicado que a reprodução mono seria mais conveniente para a festa no quintal da casa do Gordo, não sei se teríamos aceitado passivamente o postulado: sonhávamos com efeitos estereofônicos. Queríamos que o público experimentasse as emoções dos “discos de teste” que ouvíamos em casa de amigos mais velhos e mais abastados: aviões decolando no canal A e aterrissando no canal B; ou um grupo de sujeitos praticando roleta russa, o revólver deslizando de uma caixa para a outra até o fim inevitável (Ah-ha! You loose!). Éramos crianças. Sem saber, queríamos realizar aquilo que o os engenheiros de gravação de hoje fazem com o multicanal: misturar atrocidades com banalidades. No fundo, tentávamos transformar o know-how adquirido com pasta de pólvora, cera derretida, leds piscando e eletrodomésticos numa experiência musical.

Foi por isso que o Carlinhos, num momento de transcendente iluminação teve a inspirada idéia de montar (ai de nós!) um “distribuidor trifônico de áudio”: uma lata quadrada de biscoito Piraquê com três potenciômetros deslizantes. Enquanto um gênio criaria efeitos sonoros na Super Sirene, outro gênio faria a mixagem com a música, e um terceiro cuidaria de distribuir o som entre as três caixas no quintal. Ao invés de efeitos estereofônicos, teríamos efeitos trifônicos, o início de uma ascensão meteórica para a estratosfera do mundo dos negócios.

Desculpa te dar a notícia assim, mas foi tudo um grande erro.

O lançamento de nossa miraculosa equipe aconteceu na festa da casa do Gordo. Os problemas começaram porque, para nós, homens de ciência, aterramento era superstição. A superstição se somou a uma série de soldas frias, malhas expostas e a um traumático descasamento de impedâncias gerado no ventre obscuro do mixer, um pesadelo aperfeiçoado no distribuidor trifônico do Carlinhos.

Estávamos no cume da arrogância e do sonho – o Éder já calculando o tamanho do iate que ia comprar com todo aquele dinheirão fadado aos nossos bolsos – quando a imensa silhueta do tio do Gordo se interpôs entre os três jovens milionários e a pista de dança. Com paternal e graciosa pedagogia - surpreendente num homem que parecia estar espumando -, o coroa rogou para que desligássemos “essa merda toda!” e fizéssemos algo realmente útil: transportar uma pesada Telefunken Dominante da sala para o quintal “e sem arranhar esta porra, hein?”.

Rapaz, a humanidade é contraditória: o transporte da Dominante nos transformou em heróis, chegaram a nos felicitar! Até aquele momento a festa estava tão chata, mas tão chata, que quando a mãe do Gordo derrubou os talheres saiu todo mundo dançando. Mas depois que a vitrola foi para o quintal e o primo mais velho do Gordo assumiu a programação...

A festa representou o fim dos negócios, mas tivemos muitas outras aventuras. Desculpe, amigão, se te arrasto até aqui para contar lembranças pessoais. Mas é que a imaturidade das gravações de música em multicanal me levou de volta à infância. Seus efeitos me lembraram as primeiras gravações em estéreo, com uma separação tão radical entre canais que parecia que os membros da orquestra tinham brigado. Agora, a título de promover uma ambiência “realista”, os engenheiros cometem as mesmas ingenuidades do passado. Especialmente com música orquestral.

Outro dia experimentei O Ouro do Reno do Boulez em 5.1 canais. Na primeira cena, quando as Filhas do Reno celebram o fulgor do despertar do ouro, o engenheiro aproveitou o colorido da instrumentação para colocar as meninas cantando também nos canais surround. Resultado: modelo de rigor, clareza e respeito à partitura do Anel, o pobre Boulez tocou com seis ninfas ao invés de três. O trio virou canto coral.

Disse e repito: se você se sentar na estante de uma orquestra só vai ouvir o que está perto. O resto vai soar estranhamente distante. Ou simplesmente não vai soar. O único músico em posição de ouvir o resultado harmônico é o regente. Mesmo assim, se é bom, não ignora que o som projetado além dele vai soar muito diferente também.

No tempo em que regia a Orquestra Sinfônica Jovem, o saudoso maestro David Machado deixava a turma tocando sozinha, descia do pódio, passeava pela platéia e sentava-se aqui e ali, gritando uma ou outra instrução para os músicos. Além de aumentar a autoconfiança da meninada, Machado fazia um “reconhecimento” dos resultados harmônico e acústico da execução.

Assisti a todos os ensaios da Segunda de Mahler com Gilbert Kaplan no Brasil. O último, no Teatro Municipal do Rio foi tenso. O milionário-dublê-de-regente não conseguia fazer com que as violas soassem mais alto. O preparador do coro, maestro Henrique Morelenbaum explicou que quando certas partes da galeria e do balcão simples estivessem cheias, o público ouviria as violas muito bem, mesmo que no palco elas soassem um pouco mais baixo. E foi exatamente o que aconteceu. 

Se quiserem ser “realistas” e transportar o ouvinte para o “interior” da orquestra os engenheiros do multicanal terão de agir contra a música. Mas se quiserem assumir os efeitos pelo prazer da confeitaria, aí a história é outra e eu gostaria de abrir um parêntese: aplicados à música ligeira, glacê e jujuba podem ser excelentes alternativas para atrair os jovens ao universo da música erudita. Aliás, defendendo essa tese engordei minha discoteca num concurso internacional promovido pela gravadora Naxos (leia aqui). Mas se a proeza consiste em levar cereja e chocolate para sinfonias de Beethoven, os confeiteiros deveriam no mínimo observar os limites técnicos dos receivers, que processam os canais de modo diferenciado. Por quê? Porque a extensão dos instrumentos da orquestra costuma ir do Everest à Fossa das Marianas. Você sabia que o contra-baixo alcança os graves do violino? Claro, os compositores raramente escrevem nesse registro. Mas o que vamos fazer com o instrumento? Deixar que as freqüências mais altas saltem do subwoofer para os falantes frontais num escândalo de transiência? E as vozes? Vamos ouvir ninfas pelas costas com diferenciação de timbre?

Tenho um equipamento multicanal exclusivamente para assistir filmes. Na minha modesta opinião, é para isso que eles servem. Acho uma bobagem, por exemplo, usar canais traseiros para reproduzir o rebatimento de uma grande sala de concertos, coisa que os falantes frontais revelam nas boas gravações. Não quero ouvir ecos, quero ouvir música. Na terça-feira que vem pode ser que algum espírito penetrante tenha um estalo e descubra uma utilidade lógica, natural e provavelmente muito óbvia para a reprodução em multicanal que ninguém ainda imaginou. Por que não? Mas hoje, francamente, olhar para a orquestra e ouvir um instrumento extenso como a clarineta pelos canais surround não tem sentido musical nenhum. 

Queria aproveitar a fleumática irritação deste artigo para dizer que a inglesa B&W deve algo aos garotos do Méier pelo seu pioneirismo. E que a Força Aérea bem que podia devolver a enceradeira já que o piloto saiu ileso.

 

Home áudio: audiófilos áudio: audiofilia áudio: matchpoint áudio: edifier x200 áudio: merda áudio: sonoridades áudio: sociologia do fasano áudio: insegurança áudio: webht áudio: prexis 216 áudio: imprensa de áudio áudio: cabo ultra xt áudio: máximas áudio: cabo aw 500s áudio: chuva áudio: manual da crítica áudio: contos morais áudio: pré de phono áudio: psicanálise áudio: diálogos áudio: luxúria áudio: aviação áudio: trifônico áudio: sistemas digitais áudio: entomologia áudio: literatura

Este site foi atualizado em 12/08/09