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áudio: sonoridades |
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18/02/10 |
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©Ricardo Labuto Gondim Eugene Ormandy foi celebrizado pela sonoridade peculiar que supostamente impôs e extraiu da Orquestra de Filadélfia. É curioso, pois o chamado “Som Ormandy” já existia antes dele: foi criado por Leopold Stokowski. A originalidade do estilo de regência de Stokowski está eternizada em dezenas de registros de concertos e quatro longas-metragens, inclusive Fantasia (1940) dos estúdios Disney. O maestro marcava sem batuta, fazendo as mãos dançarem numa coreografia tão independente e ao mesmo tempo tão articulada que parecia ter ensaiado seu balet contido e elegante. Como intérprete Stokowski era irregular, podendo despencar do sublime ao abominável numa distância de dois compassos. Ele gostava de arranjar para grande orquestra obras-primas que não prescindiam de nada além de si mesmas, e de vez em quando dava uma “ajudazinha” injustificável a partituras de gigantes como Richard Wagner. Com uma incontida atração pelas câmeras, flashes e holofotes, foi batizado pelo saudoso crítico Mário Henrique Simonsen de “maestro de Hollywood”.
Ao que consta, Walt Disney recorreu ao maestro porque não entendia e particularmente não se interessava por música clássica. Como os homens que detinham a chave do cofre entendiam um pouco mais, queriam a dissonante e polêmica obra de Stravinsky fora do filme. Graças à Stokowski o público ganhou uma seqüência espetacular, que transformou os ritmos de uma Rússia primitiva na trilha sonora da criação da Terra. Uma visão evolucionista no país que exporta, divulga, estimula e financia a tragédia do fundamentalismo cristão em todo o mundo, inclusive no Brasil. Considere os aspectos históricos, sociais e os 70 anos de Fantasia e você terá uma nova dimensão do valor e da contribuição cultural de Leopold Stokowski. O maestro era obcecado pelo quesito “sonoridade”, e essa paixão projetou-se com naturalidade dos instrumentos da orquestra para os microfones. A vida inteira Stokowski acompanhou ativamente o desenvolvimento das tecnologias de gravação, tornando-se membro ativo da Audio Engineering Society. Ainda em 1931 participou de experiências pioneiras que levaram à criação do estéreo. Décadas mais tarde, contando quase 90 anos, deu sua contribuição à invenção do sistema quadrafônico. Era tão enamorado da engenharia que um dos seus fascínios em Fantasia – além de contracenar com Mickey Mouse, um dos maiores ícones da cultura pop de todos os tempos – era a experimentação do “Fantasound”, um modestamente complexo sistema de “multicanal” instalado em diversos cinemas americanos especialmente para o filme. Walter Legge, que estabeleceu o conceito de excelência das gravações que perseguimos até hoje , foi sem dúvida alguma um dos herdeiros do precoce interesse de Stokowski pela qualidade dos registros sonoros. Mas existe uma diferença fundamental entre ambos: para o maestro, “qualidade” era uma questão de “beleza”, e ele não se furtava a alterar os registros para obter certos “efeitos”; para Legge, “qualidade” era sinônimo de “fidelidade”. Stokowski veio aos meus pensamentos pela leitura de um dos livros de Holbein Menezes publicados em edições privadas. Na novela “Allegro ma non troppo”, o Velho Leão narra o encontro de alguns cavalheiros numa sala de áudio requintada, descrevendo processos mentais desencadeados pela audição do fantasmagórico Quarteto n.º 15 de Shostakovich (que aparentemente não teria subtraído a atenção dos convivas). Dissecados numa sala de som, os personagens são freudianamente investigados, revelando-se enquanto discutem música e derivados. Em dado momento, o Velho Leão escreve:
Quando li a declaração sofri um pequeno choque – a ponto de publicar uma variante deste artigo no velho Audiodicas sem verbalizar a questão essencial: o autor da sentença é um dos expoentes na história da alta-fidelidade; experimentador e precursor da indústria das gravações... que não se furta a compor a elegia de um sofá com uma vitrola tocando baixinho.
Minha negação voluntária da liturgia audiófila tem me proporcionado prazeres dos quais eu havia esquecido. Quando era jovem, ouvia música e entrava em comunhão com ela. Hoje, ouço música, texturas, transientes, espaços acústicos imaginários... Chega. Agora, pelo menos uma vez por semana, volto à música e à uma antiga pureza. *
UMA NOTA: a página web do
famigerado movimento CANSEI foi removida (leia
mais aqui). Agora só nos resta esperar que a Philips do Brasil
remova também sua atual liderança e peça desculpas ao povo brasileiro. |
Este site foi atualizado em 06/09/09