áudio: prexis 216

09/09/10

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Transparências
Bookshelf Lando APX Prexis 216

©Ricardo Labuto Gondim
 

Oscar Wilde escreveu que “toda arte é superfície e símbolo; os que buscam sob a superfície, fazem-no sob o seu próprio risco”. Extraindo os ideais metafísicos da palavra “arte”, podemos obter uma nova sentença: “toda expressão humana é superfície e símbolo; os que buscam sob a superfície...”.

Como visto em O Papel da imprensa de áudio, os leitores conscientes do comprometimento das revistas em geral têm se empenhado na decifração das “entrelinhas” dos reviews. Para te poupar dessa prática incerta e arriscada - e estimular o exercício da moderação, da ponderação e da sensatez - o logos eletrônico tem por princípio uma política de transparência.

A afirmação é delicada e exige explicações. Primeiro, não estou pedindo para você suspender a saudável e prudente desconfiança que deve permear o que se ouve e o que se lê, pois a dúvida é mesmo o princípio da sabedoria. Segundo, não estou arvorando a “elevação moral” do logos eletrônico sobre os demais veículos. A condição humana é o erro, erramos todos os dias e – de novo com Wilde – “matamos aquilo que amamos”.

Aliás, acabo de cometer um erro grave: já estamos no quarto parágrafo e ainda não te contei que este artigo não é sobre a idílica pretensão de transparência do logos, mas sobre a transparência da bookshelf Lando APX Prexis 216.

Em nome da coerência, devo adverti-lo que o projetista da caixa em questão é meu amigo. Não, companheiro, não somos sócios, acredite, a questão é muito pior: o Eduardo de Lima reside no meu ventrículo direito. Dediquei a ele Chuva, um dos meus contos favoritos. Se estivesse dormindo com a mocinha da capa da Playboy, não ia contar pra ninguém - exceto ao Eduardo e ao meu irmão Rynaldo, que só ouve U2 e coisas ainda piores.

Se você acha que essa questão demasiado humana poderia comprimir ou dilatar meu senso crítico, você tem toda razão. Até os 12 anos eu queria ser o Batman. Dos 12 aos 17 tentei ser o Sr. Spock, um pensador analítico e glacial. Fracassei inteiramente, pois não era suficientemente inteligente e tampouco desapaixonado. Daí que tive de me resignar a ser o Gondim, e o resultado não foi dos melhores.

Contudo, uma soberba injustificável me diz que, para salvaguardar a fragilidade incipiente da minha reputação de crítico, meu domínio razoável do idioma permitiria abusar das “sutilezas” em moda com algum sucesso. Prefiro cometer outro abuso – o da confiança – afirmando que isso seria desnecessário: vou te mostrar uma caixa de pequenas dimensões, de sublime transparência, que merece a sua avaliação pessoal.

O PRODUTO

A Lando APX Prexis 216 é uma bookshelf bass reflex de duas vias, com 39 cm de altura, 21 de largura, 29 de profundidade,  8,8Kg de peso, blindagem magnética, tela removível e robustos terminais banhados a ouro. A caixa é linda, a construção é primorosa, e os cantos receberam um acabamento curvo em ipê. O woofer tem 15 cm e o tweeter de domo de seda, 2,5cm. A impedância nominal é de 8Ω, a potência, 120W, e a sensibilidade, 90dB. Guardei o melhor para o final: a menina desce de 23KHz a 46Hz, com freqüência de corte em 3KHz.

Como não tinha um pedestal Lando Stand APX disponível, utilizei um pedestal artesanal metálico. Contatei dois fabricantes de pedestais solicitando um empréstimo, mas não obtive resposta - o que demonstra o imeeeeeeeeeeeenso prestígio do logos eletrônico junto à indústria, a despeito dos nossos oito leitores permanentes e dos 1.200 desavisados que caem aqui toda semana por mera casualidade (a propósito, rapazes, a pronuncia correta é lógos).  

Bookshelfs conhecem limites e virtudes inerentes às suas dimensões, e muita gente tem preconceito contra elas. Eu também tinha. Já em minha juventude elas eram famosas por tocarem imprevisivelmente alto e minuciosamente mal. Como o preconceito afasta, as bookshelfs evoluíram longe de mim.

Há alguns anos, um par de antigas Mirage casadas com um integrado Denon de 30 Watts foram morar lá em casa. O conjunto pertencia ao meu irmão e nunca havia me impressionado. Troquei os cabos, preenchi os pedestais com chumbo boleado, instalei as Mirage sobre spikes Lando e durante uns dois ou três anos fui feliz com elas. A experiência revogou preconceitos, e despertou amor e interesse pelas bookshelfs: descobri a Nautilus 805 original e a Ultima Gem, para citar apenas duas proezas da indústria.

Como um par de Prexis 216 custa menos de R$2.000,00 – sim, companheiro, menos de dois mil reais – suponho que não pretenda competir com as baixinhas da B&W ou da Revel, lendárias e caras. Para massagear o ego audiófilo brasileiro, gostaria que constasse dos altos que, das três, a Lando APX é a que desce mais.

DESEMPENHO

Nas primeiras audições com a Prexis 216 o soundstage típico das melhores bookshelfs foi esticado para todos os lados. A caixa estabeleceu uma ambiência impressionante, a música me cercou de Norte a Sul.

Não sei se você já reparou, mas a característica que definimos como “som envolvente” não é incomum em sistemas onde os graves prevalecem. Freqüências abaixo de 400Hz não têm direção, espalham-se como água e geram um conforto auditivo tremendo - às vezes, comprometendo a clareza da região média.

Curiosamente, a despeito da ambiência das 216 senti falta de graves.

O problema era esperado. Em casa, mesmo utilizando uma torre de três vias numa sala em L de proporções apenas medianas - o que numa concepção “clássica” é muito pouco recomendável - consegui obter graves articulados, mas não tão secos quanto nos meus sonhos, que beiram o analítico. Se aumentar o volume acima de certo nível, ressonâncias inaceitáveis começam a aparecer. Fui salvo pela irregularidade do espaço, pelo afastamento lateral amplo, e por ouvir música bem abaixo do limite que a sala impõe: não gosto de escutar orquestras em volume acima dos conjuntos de verdade, que raramente ultrapassam 10W.

Nessas condições, ao iniciar a queima da Prexis senti uma falta previsível de graves - ainda assim incômoda, e decidi radicalizar.

Ao testar um produto, crio para ele todos os problemas de que sou capaz com base numa discoteca opulenta. Para elevar o que poderia ser uma deficiência de graves ao paroxismo, optei pelo órgão de catedral.

O órgão foi uma escolha voluntária e lógica: nenhum instrumento tem a extensão e a densidade harmônica do “grande órgão romântico”, cujos recursos foram praticamente esgotados por César Franck e Widor. Ambos recorriam a pedais que tocam os alicerces da Fossa das Marianas, com freqüências tão baixas que às vezes não são exatamente ouvidas, mas sentidas: in loco, na reverberação das naves das catedrais; via gravação, numa galáxia inteira de harmônicos.

Para a impiedade do teste selecionei um álbum duplo que você deveria conhecer se gosta do instrumento: “César Franck – Complete Organ Works”, com Jean Guillou ao órgão da Catedral de Santo Eustáquio, Paris, gravado em 1989 pela Brilliant Classics. O álbum tem como concorrente uma edição da TELARC produzida no ano seguinte, com Michael Murray e o órgão da Basílica de Saint Sernin, Toulouse, que empalidece em som e performance diante da edição da Brilliant.

Eu sabia de antemão que seria impossível uma bookshelf reproduzir metade daqueles baixos, mas o que eu queria mesmo era sentir a falta que eles fariam: ainda que a fundamental não comparecesse, alguns harmônicos seriam bem-vindos.

Ouvi uma pálida sombra dos baixos profundos e achei o resultado decepcionante. Foi quando percebi que estava fazendo as coisas do modo errado.

Por força do hábito havia instalado as meninas no exato lugar onde ficavam as torres, afastadas da parede de fundo e inclinadas para uma solitária poltrona. O que fiz? Tratei as bookshelfs como bookshelfs, aproximando-as da parede em ângulo reto, sem qualquer inclinação. As Prexis adoraram, e mostraram-se muito mais adequadas às proporções da sala do que as torres. O soundstage e a ambiência tornaram-se ainda mais amplos. Os graves foram emergindo cada vez mais firmes, articulados e velozes na proporção em que as mocinhas queimavam: os 46Hz que estão nos anúncios da Prexis também estão nas caixas.

Estabelecido o conforto auditivo do seu Tio Ricardo, passei a admirar – esta é a palavra – a transparência ilimitada das regiões média e alta. A Prexis guarda caracteres que compõem a assinatura particular da Audiopax, como médios transparentes e cristalinos, agudos muito extensos, doces e puros, e fundo negro imaculadamente asséptico.

Quando voltei ao órgão de Santo Eustáquio, ouvi as sutis vibrações dos metais nos tubos sopranissimos em meio a uma muralha de harmônicos - agora, com baixos nítidos e honestos. Prossegui experimentando um número imenso CDs e LPs com gravações sublimes, medianas e indecorosas. 

No CD “Careless love” de Madeleine Peyroux, na primeira faixa “Dance me to the end of love” ouvi o ar da respiração da cantora arremeter contra o microfone ou o filtro anti-puff, e o estalar molhado e sutil dos lábios na articulação de certas palavras - tudo sobre a base de um contrabaixo imenso, dinâmico e firmemente articulado. A moça parecia estar cantando no meu colo, mas a campainha tocou e a ilusão foi desfeita.

Na trágica gravação DG da Sexta de Mahler com Kubelik, escutei pizzicatos em meio ao inferno incandescente dos metais do IV movimento, onde eu nem sabia que eles existiam. Apesar do incêndio, para um volume tão pequeno a Prexis 216 se saiu muito, muito bem - o que vale um comentário que pode nos levar à conclusão.

SÍNTESE

Certos espíritos penetrantes rejeitam as bookshelfs para a reprodução de música sinfônica. Em minha opinião isso é passado.

Se você não tem cobre ou não tem espaço - mas tem amor à música - não vai deixar de ouvir uma massa orquestral empolgante com clareza, dinâmica, impacto e beleza se escolher com cuidado uma bookshelf adequada à sua eletrônica e ao seu ambiente.

Hoje é possível sim ouvir prazerosamente música orquestral pesada em bookshelfs de alto-nível, seja na Prexis 216 ou em qualquer outra marca que te empolgue e emocione, pois isso é tudo o que importa.

No caso da Prexis, de Haydn à Mahler ouvi muito mais do que buscava. Como no artigo do cabo Ultra XT, vaguei de Chet Baker à Diana Krall, de The Doors à Madeleine Peyroux, passando rapidamente por um tal de Eagle-Eye Cherry (tão descartável quanto um Prestobarba, mas muito estimado pela Sra. Gondim).

Em tudo deliciei-me com texturas e sutilezas. Achei notáveis:

a vasta sensação de ambiência;
os graves firmes, articulados e velozes;
médios transparentes e cristalinos;
agudos extensos e doces;
fundo negro imaculadamente asséptico.

O conceito fundamental da Prexis 216 é a transparência. Se você gosta particularmente de bookshelfs - ou se por questões de espaço não tem outra escolha – procure ouvir a caixa com atenção, sem considerar o preço do par inferior a R$ 2.000,00. Este é um daqueles produtos cujo valor está muito além da etiqueta.

E que cabe na sala e no bolso.

 

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Este site foi atualizado em 12/08/09