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09/09/10

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Em abril de 2005 publiquei um artigo na CAVI sobre o celebrizado integrado APX 03H. O produto não é mais produzido pela Audiopax, mas num certo sentido o texto continua atual: fabricado pela Lando, o duplo-híbrido Argus 246 é a evolução do circuito. Guarda rigorosamente a mesma assinatura sônica – mas é ainda mais refinado e robusto. Mesmo assim, o que justifica a reedição do artigo com leves modificações são questões evocadas pelo leitor Shauss numa mensagem que me enviou via HT Forum em 01/11/2006. O tema, que começa a ser discutido já no primeiro parágrafo, é de interesse permanente.
 


 

Os Chocolates do Sr. Wonka, o sabor do
duplo híbrido e o Ponto G da Salomé

©Ricardo Labuto Gondim


Os glorificados equipamentos de Michael Creek são fabricados na China. Tocam maravilhosamente bem, obrigado. Mas que ninguém diga que os resistores e capacitores chineses são melhores que os nossos. Não são. Aliás, muitos componentes brasileiros avivam secretamente o brilho de algumas das marcas mais desejadas do mundo.

Qualidade não tem bandeira. Já não faz sentido falar de “sonoridades” japonesa, européia ou americana. As grandes marcas têm mais ou menos a mesma sonoridade – que não é japonesa, européia ou americana: é Hi-Fi ou High-End. Não ignoro que griffes consagradas tenham uma assinatura sônica característica – muito pelo contrário. Mas quero sublinhar que tais assinaturas se revelam a partir de um patamar mais democrático, que já não é tão exclusivo quanto antes. É o caso dos incríveis Etalon: são produtos da velha Hungria, terra de extraordinária herança cultural, mas nenhuma tradição tecnológica. O segredo? O mesmo das outras marcas de excelência: você cria um produto excepcional, compra os componentes de um fornecedor confiável, testa um por um, e descarta o que estiver fora dos padrões.

O Sabor do chocolate

Enquanto SACD x DVDA travam o Waterloo das mídias digitais, o consumidor redescobre o vinil. Antes, só quem conhecia integralmente o poder dos bolachões eram os ricos e os endividados. Hoje, eu e você podemos ouvir um LP de 60 dB tocar mais bonito que um CD de 100 dB - embora sem a mesma riqueza de detalhes - num toca-discos de US$ 500,00. Moral da história: no mundo onde a classe média pode extrair sonoridades surpreendentes do vinil, qualidade já não é linha de chegada, é ponto de partida.

Quando um projetista de alta fidelidade desenha um equipamento para determinado nicho – ou seja, quando delimita o custo máximo do produto – pouco importa se a operação fica na Suíça, em Shangrilá ou na Fantástica Fábrica de Chocolates do Sr. Wonka. Dentro da faixa de mercado escolhida, o sujeito e seus concorrentes trabalharão com componentes de qualidade relativamente compatível. A vantagem, é claro, será do Sr. Wonka, pois o que importa é o sabor do chocolate – o caráter, a personalidade que está no projeto, não nos capacitores. Personalidade e não qualidade é o que distingue Etalon, Quad e a brasileira Audiopax.  

Réu Confesso

A meditação que te arrastou até aqui é o resultado de uma experiência com o APX Series Richard Strauss, compositor de "Salomé".Model 03H da Audiopax, de quem me tornei íntimo a ponto de chamá-lo de 03H. O produto foi eleito pelo público o melhor amplificador integrado do Hi-Fi Show 2004, com 48% dos 1.018 votos válidos. Na ocasião a beleza plana e tridimensional das Autis foi alimentada por ele. A graça das Lando 703 também.

Se tanta gente quis ouvir o integrado, não é lógico supor que a turma que ainda não ouviu queira ler sobre ele?” Com essa mentira deslavada consegui que o Fernando Andrette autorizasse generosamente este artigo, embora ele mesmo tenha escrito o ensaio do 03H na edição de dezembro de 2003 da Áudio & Vídeo. No fundo, queria ouvir o aparelho na minha sala, acoplado ao meu sistema de entrada, tocando minhas gravações mais críticas e também as mais espetaculares.

Foi um trabalho sujo, mas alguém tinha que fazê-lo. Como resultado, ainda que tardiamente postulei o conceito de “personalidade” audiófila, que já esboçamos, tirei algumas conclusões sobre o nobre caráter da audiofilia, e finalmente consegui verbalizar o que há de monstruoso na Salomé de Richard Strauss.

Se me der o prazer de continuar, divido tudo isso com você.

A Personalidade insofismável do integrado

Em seu ensaio sobre o APX Series Model 03H, Fernando Andrette verteu as complexas inovações do projeto para a língua portuguesa. Recordemos algumas:

a. O circuito do APX 03H possui (...) um primeiro estágio amplificador com ½ válvula 6SN7 (não se assuste leitor, pois o ½ está correto), seguido por um estágio de excitação (driver) usando a outra metade da  6SN7. O estágio de saída é ele mesmo um híbrido de diferentes tipos de estado sólido”; b.Através de um acoplamento inovador, ½ válvula 6SN7 excita um estágio final constituído por um par complementar em que cada elemento é composto por um transistor bipolar e um Mosfet de potência.”; c. Fernando explicou que o conjunto transistor bipolar-Mosfet foi o recurso que o Eduardo de Lima desenvolveu para “deixar passar a naturalidade das válvulas até chegar às caixas acústicas”.

Mahler por Kubelik: erupção transparente.Lembrando que não sou Revisor Crítico de Equipamento de Áudio, esclareço que fiz questão de ouvir o 03H como elemento de um sistema de entrada, não empregando nada astronomicamente caro.  As caixas foram o modelo mais robusto das primeiras bookshelfs Mirage e Scorpion Labirint 3; cabos de caixa Lando e Triangle Silver Ghost; interlink Monster 400 MKII. As fontes digitais foram – acredite se quiser – o DVD Sony DVP S530B e o Laserdisc Panasonic LX200: meu reprodutor de CD morreu na mesa de cirurgia vítima de negligência médica. Se os milagres que presenciei aconteceram a partir dessas duas fontes, imagine o que eu ouviria se tivesse usado o seu cd player?

Com resposta de freqüência entre 10Hz e 55KHz, o 03H extraiu o supra-sumo dos dois modelos de caixa, impondo graves imensos, rápidos e firmes, agudos extremos e uma região média superlativa. Casou muito bem com o sempre versátil e amigável cabo da Lando. Mas a Lua de Mel foi com o Triangle Silver Ghost: estável, preciso, aberto, o Silver Ghost induziu uma clarificação sinérgica e emocionante de timbres e harmonias, estabelecendo uma imagem ampla e focada. O 03H se infundiu sem esforço ao velho e bom interlink Monster 400 MKII .

O 03H tem 30 Watts por canal. Um dado risível na civilização em que rádios de pilha têm 400.000.000W PQP. Só que a potência do APX não é obra de ficção. Embora a Mirage seja uma caixa de baixa eficiência, raramente o botão de volume passou do meio-dia. De meio dia às duas notei um ligeiro endurecimento, mas perfeitamente aceitável. De duas horas em diante – nesta configuração pesada – ele virou abóbora.

Duplo-híbrido

Na vida humana existem coisas voláteis e perigosas como sorrisos, lágrimas e curvas – especialmente curvas, não importa onde elas estejam. Além destes riscos cotidianos, o redator profissional enfrenta as traiçoeiras seduções dos trocadilhos e das frases feitas. Com o uso sistemático, a frase feita incorpora um pouquinho de cada autor que a utilizou, conquistando amplitude e riqueza enquanto perde seu significado preciso. Como o APX Series Model 03H mistura românticos tubos de vácuo com sólidas pastilhas de silício e óxido metálico, seria fácil dizer que este híbrido “traz o melhor de dois mundos”. O fato é que nunca vi um híbrido que fosse adequado, com exceção do turbo-hélice Electra (a Roberta Close é linda, mas é muito alta). Em matéria de áudio, tudo que traz o melhor de dois mundos traz o pior também, a começar por uma transiência escandalosa.

Não detectei nada parecido no 03H, nem mesmo a alardeada falta de velocidade que pode comprometer um circuito valvulado. Suponho que a explicação para a performance superior do integrado esteja, antes de tudo, na personalidade do projeto; numa fonte excelente; e na tríplice interação entre transistor bipolar, Mosfet de potência e válvulas. Possivelmente o caráter “duplo-híbrido” do 03H livrou-o das características indesejáveis.

O Segredo de Karajan

Num primeiro momento, dada a originalidade da assinatura sônica do 03H, você poderia dizer que ele tem som de válvula da cintura para cima, e de transistor da cintura para baixo. Isto se dá porque inconscientemente o audiófilo que existe em você está sempre em busca de diferenciações de timbre, dinâmica, planos, etc. Estamos sempre Eduardo de Lima e os técnicos da Audiopax.procurando isolar contrastes, acordes, espaços... Como 03H reproduz timbres, dinâmicas, planos e etc. com naturalidade incomum para um equipamento da sua classificação, você leva um tempo para perceber que não está testemunhando um problema de transiência – ao contrário, está presenciando a formação de planos perfeitamente identificáveis, com uma separação extraordinária entre os sons. Exemplificando: no prelúdio do Macbeth de Verdi com Karajan e Berlim – sim, rapaz, 1976, o auge do reinado – o maestro produziu o acorde mais bonito que escutei em minha vida: uma massa absurda de metais, tímpanos e cordas graves como o próprio Verdi jamais ouviu em seu tempo. O 03H clarificou esse acorde a ponto de desvendar a técnica de Herr Karajan: os metais tocam rigorosamente no mesmo volume; os tímpanos reverberam sob baquetas macias enquanto os baixos executam uma frase circular; a oposição entre os diferentes timbres metálicos perfeitamente equilibrados e a base grave e opulenta “recortam” os sopros e os projetam para frente. Não é a dinâmica que causa o efeito devastador, é o contraste. Você ouve tudo: ali, aqui e ao lado.

Salomé, por São Tomás de Aquino

Com instrumentos isolados essa diferenciação de texturas e planos é assombrosa. Enquanto Salomé espera a cabeça do Batista numa bandeja de prata, Giuseppi Sinopoli silencia a orquestra da Ópera Alemã de Berlim, excetuando os tímpanos em pianissimo e Detalhe do cartaz para uma representação de Salomé.um arco solo que emite uma única nota intermitente. No fundo negro abissal do 03H, o preciso desenho dos tímpanos, a embaraçosa naturalidade do arco e a ansiedade ofegante na voz de Sheril Strudder induzem – nesse momento específico – a idéia de que a monstruosidade de Salomé é possível num mundo onde tudo se abala, debilita e deforma. Quando os baixos descrevem o golpe do machado e a cabeça precipitada na escuridão úmida e perpétua do poço, você sente o grave no peito ao mesmo tempo em que ouve o brilho das cerdas dos arcos crispando as cordas – não há separação na reprodução, meu ouvido é que procura a nítida clareza de duas texturas diferentes partindo do mesmo instrumento; parafraseando São Tomás, meu ouvido busca a diversidade na unidade. Quando Salomé descobre que o seu Ponto G é a absoluta indiferença pela vida humana, atinge o orgasmo abrasador. A orquestra descreve a intensidade do prazer enquanto Cheryl Studer geme, goza e canta acima de uma massa orquestral perfeitamente definida – nos limites de uma gravação reverberante e irregular. A música, através do milagre da reprodução eletrônica excelente desvenda o que é tão monstruosamente incômodo na Salomé de Strauss e Hedwig Lachmann: o paradoxo de uma Vontade tão inexorável que se impõe acima do Eu e do próprio Ser; uma vontade que – para cumprir-se – imola a si mesma.  

Cone eletrostático

Assombrado com o que ouvia na bookshelf Mirage – que tracionada pelo Audiopax soava mais clara que o alto-falante eletrostático que tive por quase cinco anos – compreendi que a audiofilia não é um fenômeno hedonista, o audiófilo não busca o prazer da audição pelo prazer: perseguindo a reprodução perfeita, busca o meio de formar uma unidade com a obra, tentando atingir sua compreensão absoluta – ainda que ela não se verifique na esfera do inteligível, apenas abstratamente.

Essas especulações brotaram da musicalidade de um equipamento produzido no Brasil, que não é melhor nem pior que o Creek fabricado na China ou o Etalon húngaro. É o resultado da personalidade própria de uma grande marca que se estabelece a partir de padrões de construção, qualidade e autoria. Parafraseando Tolstói: todas as empresas de Hi-End se parecem entre si; as verdadeiramente brilhantes são brilhantes cada uma a sua maneira. Em sua incursão no universo Hi-Fi – pois o 03H é um integrado Prata Referência – Eduardo de Lima trouxe tudo que aprendeu no mundo Hi-End. O duplo-híbrido é um produto auto-referente, as características autorais que construíram a reputação internacional da Audiopax tanto em válvulas quanto em estado sólido estão aqui. O sabor do chocolate é o mesmo.

Claro, a qualidade presente nos integrados categoria Prata de hoje permitiriam audições semelhantes com outros produtos. Algumas piores e outras até melhores – mas nunca com a mesma personalidade, pois o caráter individual é o verdadeiro produto dos Audiopax, dos Etalon, dos Quad e dos Creek deste mundo.

Para encerrar, confesso que o projeto inicial do artigo era especificar um certo número de gravações e descrever subjetivamente a performance do produto. Uma ambição que se revelou excessivamente modesta para o duplo-híbrido audacioso, que reproduz pianos e quartetos de cordas como se os músicos tivessem sido convidados para o café; que enfrentou com distinção e extensão as pesadas obras para o órgão de Widor e Franck; que levou a glassnost para as gravações de Mravinsky pela Melodiya; que percorreu ousado e sem medo a ponte do arco-íris de Solti, a Terceira e a Sexta de Mahler com Kubelik na velha edição DG de 1989. Quem ama a Terceira vai chorar com a majestade do trombone em si-bemol no primeiro movimento. Quem ama a Sexta vai achar que está sonhando com a clareza do movimento final – após o Grande Acorde, logo depois que a caixa clara morre ouvi o músico recolher as baquetas chocando uma contra a outra. Devo acrescentar que o 03H suavizou as rudezas do som da Terceira, corrigiu as incômodas durezas no Anel do Solti, e ainda as asperezas da Elektra do Bhöm com a Capela Estatal de Dresden. A Elektra soou como Mendelssohn. Strauss teria adorado.

Agora que o artigo está pronto, volto a ouvir música de um jeito mais despojado, sem grandes “critérios” – e sem abrir mão do 03H. Considerando que meu novo reprodutor de CD está a caminho, fico imaginando como tudo isso poderia soar em caixas de entrada de alto desempenho como Epos ELS 3, Phase V8, Klipsh RB35, Evo III e, é claro, a Autis P21.2 que ouvi no Hi-Fi Show 2004. Não disse em outro artigo que antes do evento começar oficialmente já havia público na sala da Autis? Fico pensando: “Se tanta gente quis ouvir as caixas, não é lógico supor que a turma que ainda não ouviu queira ler sobre elas?”.

Rapaz, elas têm sabor. E eu adoro chocolate. 
 

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Este site foi atualizado em 12/08/09