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Em abril de 2005 publiquei um artigo na CAVI sobre o celebrizado integrado
APX 03H. O produto não é mais produzido pela Audiopax, mas num certo sentido
o texto continua atual: fabricado pela Lando, o duplo-híbrido Argus 246 é a
evolução do circuito. Guarda rigorosamente a mesma assinatura sônica – mas é
ainda mais refinado e robusto. Mesmo assim, o que justifica a reedição do artigo com
leves modificações são questões evocadas pelo leitor
Shauss
numa mensagem
que me enviou via HT Forum em 01/11/2006. O tema, que começa a ser
discutido já no primeiro parágrafo, é de interesse permanente.

Os Chocolates do Sr.
Wonka, o sabor do
duplo híbrido e o Ponto G da Salomé
©Ricardo Labuto Gondim
Os glorificados
equipamentos de Michael Creek são fabricados na China. Tocam
maravilhosamente bem, obrigado. Mas que ninguém diga que os resistores e
capacitores chineses são melhores que os nossos. Não são. Aliás, muitos
componentes brasileiros avivam secretamente o brilho de algumas das marcas
mais desejadas do mundo.
Qualidade não tem
bandeira. Já não faz sentido falar de “sonoridades” japonesa, européia ou
americana. As grandes marcas têm mais ou menos a mesma sonoridade – que não
é japonesa, européia ou americana: é Hi-Fi ou High-End. Não ignoro que
griffes consagradas tenham uma assinatura sônica característica – muito
pelo contrário. Mas quero sublinhar que tais assinaturas se revelam a partir
de um patamar mais democrático, que já não é tão exclusivo quanto antes. É o
caso dos incríveis Etalon: são produtos da velha Hungria, terra de
extraordinária herança cultural, mas nenhuma tradição tecnológica. O
segredo? O mesmo das outras marcas de excelência: você cria um produto
excepcional, compra os componentes de um fornecedor confiável, testa um por
um, e descarta o que estiver fora dos padrões.
O
Sabor do chocolate
Enquanto SACD
x DVDA travam o Waterloo das mídias digitais, o consumidor
redescobre o vinil. Antes, só quem conhecia integralmente o poder dos
bolachões eram os ricos e os endividados. Hoje, eu e você podemos ouvir um
LP de 60 dB tocar mais bonito que um CD de 100 dB - embora sem a mesma
riqueza de detalhes - num toca-discos de US$
500,00. Moral da história: no mundo onde a classe média pode extrair
sonoridades surpreendentes do vinil, qualidade já não é linha de chegada, é
ponto de partida.
Quando um projetista de alta fidelidade desenha um equipamento para
determinado nicho – ou seja, quando delimita o custo máximo do produto –
pouco importa se a operação fica na Suíça, em Shangrilá ou na Fantástica
Fábrica de Chocolates do Sr. Wonka. Dentro da faixa de mercado escolhida, o
sujeito e seus concorrentes trabalharão com componentes de qualidade
relativamente compatível. A vantagem, é claro, será do Sr. Wonka, pois o que
importa é o sabor do chocolate – o caráter, a personalidade que está
no projeto, não nos capacitores. Personalidade e não qualidade é o que
distingue Etalon, Quad e a brasileira Audiopax.
Réu Confesso
A meditação que te
arrastou até aqui é o resultado de uma experiência com o APX Series
Model 03H da
Audiopax, de quem me tornei íntimo a ponto de chamá-lo de 03H. O
produto foi eleito pelo público o melhor amplificador integrado do Hi-Fi
Show 2004, com 48% dos 1.018 votos válidos. Na ocasião a beleza plana e
tridimensional das Autis foi alimentada por ele. A graça das Lando
703 também.
“Se tanta gente
quis ouvir o integrado, não é lógico supor que a turma que ainda não ouviu
queira ler sobre ele?” Com essa mentira deslavada consegui que o
Fernando Andrette autorizasse generosamente este artigo, embora ele mesmo
tenha escrito o ensaio do 03H na edição de dezembro de 2003 da
Áudio & Vídeo. No fundo, queria ouvir o aparelho na minha sala, acoplado
ao meu sistema de entrada, tocando minhas gravações mais críticas e também
as mais espetaculares.
Foi um trabalho sujo,
mas alguém tinha que fazê-lo. Como resultado, ainda que tardiamente postulei
o conceito de “personalidade” audiófila, que já esboçamos, tirei
algumas conclusões sobre o nobre caráter da audiofilia, e finalmente
consegui verbalizar o que há de monstruoso na Salomé de Richard
Strauss.
Se me der o prazer de
continuar, divido tudo isso com você.
A
Personalidade insofismável do integrado
Em seu ensaio sobre o
APX Series Model 03H, Fernando Andrette verteu as complexas inovações
do projeto para a língua portuguesa. Recordemos algumas:
a. “O
circuito do APX 03H possui
(...) um primeiro
estágio amplificador com ½ válvula 6SN7 (não se assuste leitor, pois
o ½ está correto), seguido por um estágio de excitação (driver)
usando a outra metade da 6SN7. O estágio de saída é ele mesmo um
híbrido de diferentes tipos de estado sólido”; b. “Através de
um acoplamento inovador, ½ válvula 6SN7 excita um estágio final
constituído por um par complementar em que cada elemento é composto por um
transistor bipolar e um Mosfet de potência.”; c. Fernando
explicou que o conjunto transistor bipolar-Mosfet foi o recurso que o
Eduardo de Lima desenvolveu para “deixar passar a naturalidade das
válvulas até chegar às caixas acústicas”.
Lembrando que não sou
Revisor Crítico de Equipamento de Áudio, esclareço que fiz questão de ouvir
o 03H como elemento de um sistema de entrada, não empregando nada
astronomicamente caro. As caixas foram o modelo mais robusto das
primeiras bookshelfs Mirage e Scorpion Labirint 3;
cabos de caixa Lando e Triangle Silver Ghost; interlink
Monster 400 MKII. As fontes digitais foram – acredite se quiser – o
DVD Sony DVP S530B e o Laserdisc Panasonic LX200: meu
reprodutor de CD morreu na mesa de cirurgia vítima de negligência médica. Se
os milagres que presenciei aconteceram a partir dessas duas fontes, imagine
o que eu ouviria se tivesse usado o seu cd player?
Com resposta de
freqüência entre 10Hz e 55KHz, o 03H extraiu o supra-sumo dos dois
modelos de caixa, impondo graves imensos, rápidos e firmes, agudos extremos
e uma região média superlativa. Casou muito bem com o sempre versátil e
amigável cabo da Lando. Mas a Lua de Mel foi com o Triangle
Silver Ghost: estável, preciso, aberto, o Silver Ghost induziu
uma clarificação sinérgica e emocionante de timbres e harmonias,
estabelecendo uma imagem ampla e focada. O 03H se infundiu sem
esforço ao velho e bom interlink Monster 400 MKII .
O 03H tem 30
Watts por canal. Um dado risível na civilização em que rádios de pilha têm
400.000.000W PQP. Só que a potência do APX não é obra de ficção.
Embora a Mirage seja uma caixa de baixa eficiência, raramente o botão
de volume passou do meio-dia. De meio dia às duas notei um ligeiro
endurecimento, mas perfeitamente aceitável. De duas horas em diante – nesta
configuração pesada – ele virou abóbora.
Duplo-híbrido
Na vida humana
existem coisas voláteis e perigosas como sorrisos, lágrimas e curvas –
especialmente curvas, não importa onde elas estejam. Além destes riscos
cotidianos, o redator profissional enfrenta as traiçoeiras seduções dos
trocadilhos e das frases feitas. Com o uso sistemático, a frase feita
incorpora um pouquinho de cada autor que a utilizou, conquistando amplitude
e riqueza enquanto perde seu significado preciso. Como o APX Series Model
03H mistura românticos tubos de vácuo com sólidas pastilhas de silício e
óxido metálico, seria fácil dizer que este híbrido “traz o melhor de dois
mundos”. O fato é que nunca vi um híbrido que fosse adequado, com exceção do
turbo-hélice Electra (a Roberta Close é linda, mas é muito alta). Em
matéria de áudio, tudo que traz o melhor de dois mundos traz o pior
também, a começar por uma transiência escandalosa.
Não detectei nada
parecido no 03H, nem mesmo a alardeada falta de velocidade que pode
comprometer um circuito valvulado. Suponho que a explicação para a
performance superior do integrado esteja, antes de tudo, na personalidade
do projeto; numa fonte excelente; e na tríplice interação entre
transistor bipolar, Mosfet de potência e válvulas. Possivelmente o
caráter “duplo-híbrido” do 03H livrou-o das características
indesejáveis.
O
Segredo de Karajan
Num primeiro momento,
dada a originalidade da assinatura sônica do 03H, você poderia dizer
que ele tem som de válvula da cintura para cima, e de transistor da cintura
para baixo. Isto se dá porque inconscientemente o audiófilo que existe em
você está sempre em busca de diferenciações de timbre, dinâmica,
planos, etc. Estamos sempre
procurando isolar
contrastes, acordes, espaços... Como 03H reproduz timbres, dinâmicas,
planos e etc. com naturalidade incomum para um equipamento da sua
classificação, você leva um tempo para perceber que não está testemunhando
um problema de transiência – ao contrário, está presenciando a formação de
planos perfeitamente identificáveis, com uma separação extraordinária entre
os sons. Exemplificando: no prelúdio do Macbeth de Verdi com Karajan
e Berlim – sim, rapaz, 1976, o auge do reinado – o maestro produziu o acorde
mais bonito que escutei em minha vida: uma massa absurda de metais, tímpanos
e cordas graves como o próprio Verdi jamais ouviu em seu tempo. O 03H
clarificou esse acorde a ponto de desvendar a técnica de Herr
Karajan: os metais tocam rigorosamente no mesmo volume; os tímpanos
reverberam sob baquetas macias enquanto os baixos executam uma frase
circular; a oposição entre os diferentes timbres metálicos perfeitamente
equilibrados e a base grave e opulenta “recortam” os sopros e os projetam
para frente. Não é a dinâmica que causa o efeito devastador, é o contraste.
Você ouve tudo: ali, aqui e ao lado.
Salomé, por São Tomás de Aquino
Com instrumentos
isolados essa diferenciação de texturas e planos é assombrosa. Enquanto
Salomé espera a cabeça do Batista numa bandeja de prata, Giuseppi Sinopoli
silencia a orquestra da Ópera Alemã de Berlim, excetuando os tímpanos em
pianissimo e
um arco
solo que emite uma única nota intermitente. No fundo negro
abissal do 03H, o preciso desenho dos tímpanos, a embaraçosa
naturalidade do arco e a ansiedade ofegante na voz de Sheril Strudder
induzem – nesse momento específico – a idéia de que a monstruosidade de
Salomé é possível num mundo onde tudo se abala, debilita e deforma. Quando
os baixos descrevem o golpe do machado e a cabeça precipitada na escuridão
úmida e perpétua do poço, você sente o grave no peito ao mesmo tempo em que
ouve o brilho das cerdas dos arcos crispando as cordas – não há separação na
reprodução, meu ouvido é que procura a nítida clareza de duas texturas
diferentes partindo do mesmo instrumento; parafraseando São Tomás, meu
ouvido busca a diversidade na unidade. Quando Salomé descobre que o
seu Ponto G é a absoluta indiferença pela vida humana, atinge o
orgasmo abrasador. A orquestra descreve a intensidade do prazer enquanto
Cheryl Studer geme, goza e canta acima de uma massa orquestral perfeitamente
definida – nos limites de uma gravação reverberante e irregular. A música,
através do milagre da reprodução eletrônica excelente desvenda o que é tão
monstruosamente incômodo na Salomé de Strauss e Hedwig Lachmann: o paradoxo
de uma Vontade tão inexorável que se impõe acima do Eu e do próprio Ser; uma
vontade que – para cumprir-se – imola a si mesma.
Cone eletrostático
Assombrado com o que
ouvia na bookshelf Mirage – que tracionada pelo Audiopax
soava mais clara que o alto-falante eletrostático que tive por quase
cinco anos – compreendi que a audiofilia não é um fenômeno hedonista, o
audiófilo não busca o prazer da audição pelo prazer: perseguindo a
reprodução perfeita, busca o meio de formar uma unidade com a obra,
tentando atingir sua compreensão absoluta – ainda que ela não se verifique
na esfera do inteligível, apenas abstratamente.
Essas especulações
brotaram da musicalidade de um equipamento produzido no Brasil, que não é
melhor nem pior que o Creek fabricado na China ou o Etalon
húngaro. É o resultado da personalidade própria de uma grande marca
que se estabelece a partir de padrões de construção, qualidade e autoria.
Parafraseando Tolstói: todas as empresas de Hi-End se parecem entre si; as
verdadeiramente brilhantes são brilhantes cada uma a sua maneira. Em sua
incursão no universo Hi-Fi – pois o 03H é um integrado Prata
Referência – Eduardo de Lima trouxe tudo que aprendeu no mundo Hi-End. O
duplo-híbrido é um produto auto-referente, as características autorais que
construíram a reputação internacional da Audiopax tanto em válvulas
quanto em estado sólido estão aqui. O sabor do chocolate é o mesmo.
Claro, a qualidade
presente nos integrados categoria Prata de hoje permitiriam audições
semelhantes com outros produtos. Algumas piores e outras até melhores – mas
nunca com a mesma personalidade, pois o caráter individual é o
verdadeiro produto dos Audiopax, dos Etalon, dos Quad e
dos Creek deste mundo.
Para encerrar,
confesso que o projeto inicial do artigo era especificar um certo número de
gravações e descrever subjetivamente a performance do produto. Uma ambição
que se revelou
excessivamente modesta para o duplo-híbrido audacioso, que reproduz pianos e
quartetos de cordas como se os músicos tivessem sido convidados para o café;
que enfrentou com distinção e extensão as pesadas obras para o órgão
de Widor e Franck; que levou a glassnost para as gravações de
Mravinsky pela Melodiya; que percorreu ousado e sem medo a
ponte do arco-íris de Solti, a Terceira e a Sexta de Mahler
com Kubelik na velha edição DG de 1989. Quem ama a Terceira
vai chorar com a majestade do trombone em si-bemol no primeiro movimento.
Quem ama a Sexta vai achar que está sonhando com a clareza do
movimento final – após o Grande Acorde, logo depois que a caixa clara morre
ouvi o músico recolher as baquetas chocando uma contra a outra. Devo
acrescentar que o 03H suavizou as rudezas do som da Terceira,
corrigiu as incômodas durezas no Anel do Solti, e ainda as asperezas
da Elektra do Bhöm com a Capela Estatal de Dresden. A Elektra
soou como Mendelssohn. Strauss teria adorado.
Agora que o artigo está
pronto, volto a ouvir música de um jeito mais despojado, sem grandes
“critérios” – e sem abrir mão do 03H. Considerando que meu novo
reprodutor de CD está a caminho, fico imaginando como tudo isso poderia soar
em caixas de entrada de alto desempenho como Epos ELS 3, Phase V8,
Klipsh RB35, Evo III e, é claro, a Autis P21.2 que ouvi no
Hi-Fi Show 2004. Não disse em outro artigo que antes do evento começar
oficialmente já havia público na sala da Autis? Fico pensando: “Se tanta
gente quis ouvir as caixas, não é lógico supor que a turma que ainda não
ouviu queira ler sobre elas?”.
Rapaz, elas têm
sabor. E eu adoro chocolate.
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