|
áudio: pré de phono |
||
09/09/10 |
|
|
|
©Ricardo Labuto Gondim Se você tem um toca-discos ultra-sofisticado, com cápsula e agulhas avaliadas em quilates não vai querer ler isto aqui, vai? Convenhamos, o que essa caixinha de apenas 13,5 cm de largura, 3,5 de altura e 7 de profundidade pode esconder de você? Nada, é evidente. Claro que na contra-mão dessa tese eu poderia citar Napoleão e Nelson Ned – goste ou não do repertório, é justo admitir que o baixinho tem uma voz imensa. Mas são casos isolados, não são? Se você é um cara excessivamente preocupado com a beleza dos seus brinquedos, vai achar que o pré de phono NAD PP-2 é feio. Mas se você é um esteta, dirá que ele é neutro. Parece neutro, não parece? A sobriedade e a elegância de um cinza intenso... Mas repare, o fundo aqui é branco. Ao vivo, confrontado com os equipamentos que você tem em casa, a suposta neutralidade do PP-2 salta para o primeiro plano. Ele se mostra tão evidente e alarmante no rack quanto um tijolo, e em termos de conjunto o resultado é... feio. Feio mesmo. Agora falemos da marca, você e eu. Afinal, uma das tradições mais empoeiradas da crítica internacional é enaltecer a dinastia das marcas na introdução das resenhas. É natural: marcas são referências que agregam valores tão abstratos quanto a famigerada “qualidade”; são credenciais, distintivos de confiança ou incredulidade. Mas, de todas as armadilhas que existem na vida a marca é a tentação mais burlesca. Marca é marketing, o resto é áudio. Se cabe aos marketeiros erigir a ideologia das marcas ao custo de milhões, o que nos cabe é duvidar de todas elas – de graça. Mesmo as grandes marcas têm um histórico de desastres. E se me ponho a avaliar um produto previamente impressionado pela marca – favorável ou desfavoravelmente, não importa – começo mal: uma grande marca pode produzir obscenidades tanto quanto outra, de reputação duvidosa, pode vir a redimir-se. Daí que não existe um único crítico que influenciado pelo pedigree do produto não tenha em algum momento premiado o vício e condenado a virtude. Logo, tenho o dever de não me ater a marcas, e faço um esforço consciente para esquecer que elas existem. Um produto tem que ser avaliado caso a caso, com respeito e distinção.
Claro, somos seres humanos, somos audiófilos e melômanos, somos todos
românticos. Quando leio “MacIntosh” no painel de um amplificador, por
exemplo, não posso deter minha expectativa. Acontece com todo mundo, algumas
marcas estão impressas no coração.
Voltemos a NAD. Você gosta de NAD? Não gosta? Para mim isso é indiferente. Estou lendo um livro interessantíssimo sobre a inseminação artificial de lontras na Patagônia, tenho uma festa logo mais e uma namorada deslumbrante para exibir (sinto que a piada vai custar caro, mas não posso evitar). Sem pretender abusar da nossa intimidade vou pedir pra você mesmo visitar o site do fabricante, que traz elementos para corroborar teses em Atenas e Esparta: a gente sempre encontra uma maneira de justificar o que acredita, não é fato? desempenho Bem, já que você chegou até aqui, vamos falar do que realmente importa: o som. O desempenho do pré de phono NAD PP-2.
O PP-2 é a sogra dos meus sonhos: não ajuda em nada, não melhora nada, mas misericordiosamente não piora nada. O meu espécime está ligado a um ano sem interrupção. A fonte de 24 V é separada e nunca saiu da tomada de força. Ele está escondido sobre uma pequena plataforma debaixo do rack. À noite, ouvindo música no escuro, posso ver o reflexo verde do LED-piloto quando o sono toma de assalto minha poltrona - me fazendo escorregar de uma postura aristocrática para aquela acomodação deliciosamente plebéia. Exercitando o voyeurismo incorrigível de todo audiófilo, basta uma licenciosa olhadela nas partes pudendas do PP-2 para entender a objetividade do produto:
Sim, o PP-2 opera com cápsulas MM e MC, as especificações estão aqui. O produto é sólido, bem construído, com ótimo acabamento.
Empreguei três ou quatro cápsulas com saídas altas e baixas. Entre elas uma Stanton Concorde com agudos limitados, graves espetaculares e que explora cada milímetro de sulco nos meus velhos discos mono; uma Grado antiga, que ainda toca em Cinemascope; e também a fria e popular Shure M 97 XE, equilibrada e de boa trilhagem apesar do metabolismo baixo. Todas as vezes que troquei as cápsulas, as diferenças na reprodução foram aberrantes: o PP-2 não se envolveu e o sinal saiu como entrou, sem qualquer tipo de “ajuda” ou “melhorias”. As gravações – clássicos, ópera e big bands – incluíram discos em estado grave, prensagens nacionais de peso atômico desprezível, e suntuosos LPs de origem inglesa, alemã e norte-americana. Os interconectores foram dois modelos diferentes da Monster e os AR Pro II. Francamente? Não fizeram diferença alguma. Em princípio, cabos projetados para CDs não têm o que limitar nos concisos sinais de uma cápsula magnética pequeno-burguesa. Experimentei misturar cabos diferentes na entrada e na saída do pré, e só ouvi dessemelhanças sutis porque as procurei diligentemente: recorrendo à autoridade do Dr. Freud, isso pode significar que elas talvez nem existam. O único pecado do NAD PP-2 é ser uma pechincha: cerca de R$ 400,00 (isso mesmo, reais e não dólares). Se custasse cinco vezes mais, ninguém teria medo de celebrar seus atributos. síntese Se você quer um pré de phono que dê uma força aos seus LPs; se gosta de curtir um som mais quente e quer fazer uma plástica nas curvas que saem do toca-discos, o NAD PP-2 não vai te fazer feliz, meu filho. Se o que você está procurando é justamente a sonhada NEUTRALIDADE, pode comprar. Tão despretensioso quanto o texto que acabou de ler, o NAD PP-2 cumpre com indiferença e correção sua finalidade exclusiva. Você vai ligar e esquecer que ele existe. Sem alarde, o PP-2 faz o trabalho melhor do que muitos prés exaltados por incontáveis zeros nas etiquetas de preço.
Daqueles bem bonitos, sabe? |
Este site foi atualizado em 12/08/09