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áudio: sociologia do fasano |
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18/02/10 |
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©Ricardo Labuto Gondim A revista Época Negócios do mês de setembro trouxe uma entrevista com a inglesa Josephine Green, diretora da área de tendências e estratégias do Philips Design, centro de pesquisas da gigante holandesa. Em dez perguntas rápidas, o repórter Gilson Schwartz obteve a síntese do que a Profa. Green chama de “futuros estratégicos”: a avaliação das tendências tecnológicas em paralelo às previsões das mudanças comportamentais – com ênfase no enfoque humano, não na tecnologia. Segundo a entrevistada, “75% das inovações vêm de sugestões dos usuários”. Para ela, “não adianta mais pesquisar os hábitos de consumo. É preciso se engajar, de fato, na vida das pessoas, co-criando as soluções”. Considerando a posição estratégica que ocupa na empresa, suponho que a Profa. Green esteja informada que, sob a liderança do executivo Paulo Zottolo a Philips do Brasil engajou-se num movimento social nebuloso, que declaradamente não pretende criar ou co-criar solução alguma para coisa alguma: o “Cansei”. Dissecado com irrefreável ironia pela jornalista Paula Pacheco na edição de 29 de agosto da Carta Capital (“A Elite esperneia”), o Cansei ostenta na proa a seção paulista da OAB e o promoter João Dória Jr., trazendo a reboque artistas e celebridades como Hebe Camargo e Ana Maria Braga. Zottolo, presidente da Philips do Brasil é sócio-fundador do clube, seu atleta mais ativo e pai do nome da criança. Embora não considere o Cansei uma ação das elites, foi ele quem indicou João Dória Jr. para “canalizar o movimento”. É fácil criticar o Cansei. Excetuando um ou outro espírito penetrante, seus membros e simpatizantes em geral são vítimas da alienação do dinheiro, das limitações incuráveis do chamado “intelectualismo burguês”, ou de uma fantasia ainda mais canhestra, que leva fatigados membros da classe-média a acreditar numa improvável ascese social – modesta ambição que as elites aprenderam a manobrar ainda na Revolução Francesa. Sim, é mesmo fácil criticar o Cansei. Mas não é preciso: seus integrantes e simpatizantes são os melhores campeões dos seus adversários. Na Carta Capital, por exemplo, a psicanalista e arqueóloga Beatriz Kuhn, criadora do movimento Basta, apóia o Cansei com o seguinte comentário: “O surgimento do movimento é oportuno e seguramente traduz o sentimento de qualquer brasileiro que não tenha sido lobotomizado pela fome e pela ignorância”. Não é constrangedor? Muitas das aristocráticas famílias do Cansei enriqueceram ou multiplicaram suas fortunas no período da ditadura militar – e jamais ergueram vozes contra a lobotomia ideológica promovida pelo regime. Beatriz Kuhn completa: “Estamos todos de saco cheio do caos aéreo, da carga tributária, da corrupção, da violência.” E do abismo social criado pela omissão das elites que o sistema cevou? Quem está de “saco cheio”? Quantos bancos e empreiteiras financiaram e financiam a corrupção no país? A quem pertencem os bancos e as empreiteiras? Em geral, membros e simpatizantes do Cansei costumam fazer declarações de fundamentação semelhante. Mas ninguém superou as proezas do presidente da Philips. Em comentada entrevista ao Valor Econômico, Paulo Zottolo disse que “não se pode achar que o país é um Piauí, no sentido de tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado. Estamos vivendo uma calamidade, não uma tragédia”. O que se poderia dizer ao autor de semelhante frase? Note que Zottolo encabeça o movimento na bicéfala condição de pessoa física e jurídica. No blog do Cansei (desativado algumas semanas depois da publicação deste artigo) ele afirmou com todas as letras: “A Philips está nisso desde que movimento seja apartidário. Não estou aqui para derrubar o governo. Mas se eu puder usar a força da Philips e a minha força para derrubar esses conceitos de direita-esquerda, pobre-rico, de elite branca, de elite de campos de Jordão, de movimento Oscar Freire, vou usar. Pelo amor de Deus, nós já passamos por esta fase.” Não, não passamos. E Zottolo sabe disso tão bem quanto eu: no Brasil, segundo as Nações Unidas, os 10% mais ricos têm renda 51,3 vezes superior aos 10% mais pobres. Mas vamos rever a declaração de Zottolo sob o ângulo da Sociologia do Fasano, mediada pela fumaça dos Monte Cristo e pelas divertidas bolinhas de Veuve Clicquot: o presidente do tentáculo brasileiro do maior fabricante de equipamentos eletrônicos da Europa – que vendeu 30,4 bilhões de euros em 2005 – vai usar “a força da Philips e a minha força para derrubar esses conceitos...”. Ou seja, não existem abismo social nem elite branca, e a Philips do Brasil vai nos redimir e libertar de anacronismos. Desejo crer que nem mesmo no laboratório da Philips em Eindhoven, ao sul de uma terra de tolerância social exótica, uma declaração tão alienada e alienante seria bem recebida. Em Eindhoven a Profa. Josephine Green lidera uma equipe eclética, reunindo antropólogos e especialistas em tendências da cultura popular para discutir questões como tecnologia e sustentabilidade – que segundo o site da Philips do Brasil começa pela responsabilidade individual. Aliás, como educadora diplomada em história e ciência política a Profa. Green poderia confirmar alguns objetos de estudo da sociologia autêntica:
Quero acrescentar que Domenico de Masi é rejeitado por alguns cientistas sociais por ser declaradamente “um otimista”, e por não alimentar afinidades com o socialismo latente da sociologia histórica. Aproveitando o parêntese, declaro que não sou petista e não votei (para usar a expressão de meu ídolo Elio Gaspari) em “Nosso Guia” nem na primeira nem na segunda eleição: esse foi o tempo da cueca de cem mil dólares, da mala de 200 mil reais, da quadrilha do Mensalão e do apoio à seção secreta que absolveu Renan Calheiros por 40 votos contra a cassação e 6 abstenções. Mas esse também é um governo eleito legitimamente pelo voto do povo - e essa legitimidade é sagrada. O Cansei orgulha-se de não ter propostas. Segundo Zottolo, “se tivesse proposta seria um movimento partidário. Como não é partidário não pode ter proposta.” Se meu vizinho fizesse uma declaração semelhante, eu diria com espanto: “Você é um imbecil”. Mas como a declaração partiu do presidente do tentáculo brasileiro de uma multinacional com mais de 80 anos de Brasil – e considerando o olho gordo das empresas estrangeiras neste e em outros mercados ao Sul do Equador – troco a interjeição de um espanto por outro tipo de horror. É impossível acreditar que um executivo poderoso e competente tenha se deixado arrebatar pela indignação sem recorrer ao arbítrio dos algoritmos e ao lastro das pesquisas – amostras de um terreno pronto para o adubo de outros interesses. Se oficialmente o Cansei não tem proposta, aqui ergo a minha: enquanto a Philips do Brasil não substituir sua liderança e se retratar, jamais comprarei qualquer produto Philips, nem de suas divisões, como a Walita. Passo a proposta adiante. Jamais quis tratar de política no logoseletronico.com. E espero não vir a tratar de novo, não quero misturar as tintas. Mas este é um site de música e áudio e a Philips – ao menos no plano teórico – é uma empresa de tecnologia de áudio. O lema da Philips é
“sense and simplicity”, mas receio que não tenha nem uma coisa nem outra. |
Este site foi atualizado em 12/08/09