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Ortópteros
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado pela CAVI)
Tenho um medo irracional
de baratas. Irracional uma ova, racional: sou alérgico. Baratas são
intoleráveis, repulsivas, blindadas e perigosas. Numa revista especializada
em OVNIS de grande credibilidade, li a entrevista de uma mulher que foi
inteiramente devorada por uma barata. Essa parte final eu não entendi muito
bem, mas o relato me pareceu verdadeiro. Só pode ser. Tudo se encaixa. Há
qualquer coisa de fantasmagórico num ser que testemunhou quando um peixe se
arrastou na lama, ergueu-se, caminhou sobre a terra e disse “Eu sou Homem”.
Por precaução, mantenho-me em guarda
contra o armagedon ortóptero. Tenho dúzias de sprays novinhos,
capazes de lançar um jato de veneno a três metros. De minha parte, acho
três metros uma distância infinitamente minúscula para enfrentar o perigo.
Mas existem momentos que definem um homem para sempre, e enfrentar uma
barata pode ser decisivo. Numa dessas revistas femininas que propõem 257
formas diferentes de orgasmo por mês, li que o marido de uma ninfomaníaca
corcunda do Nepal não se recuperou do embate contra uma cascuda e ficou
impotente. O relato me pareceu verdadeiro. Só pode ser. Quase tudo se
encaixa.
Não sei se você já reparou como as
pessoas que têm alergia a baratas parecem ser perseguidas por elas. Como se
ortópteros pudessem captar e interpretar alguma emissão magnética do córtex
cerebral, qualquer coisa assim. Lembro-me de uma ocasião em que – saindo
pela primeira vez com uma ex-namorada – fui covardemente atacado. Estávamos
num aprazível restaurante em Ipanema quando percebi uma ligeira sombra na
extremidade do canto superior direito dos 180 graus da minha visão
periférica. Imediatamente entrei em alerta. A moça tagarelava e eu dizia
hum-hum, hum-hum, não tendo a mínima idéia se ela falava de
detectores iônicos de fumaça, prospecção de petróleo no Mar do Norte ou
plantação de cucurbitáceas em solo calcário. Finalmente a barata se revelou,
fazendo um reconhecimento aéreo ostensivo antes de pousar desafiadoramente
na maciça coluna de madeira que sustentava a trave do teto.
Imediatamente me levantei para a
estupefação de minha interlocutora: “O que foi?”, ela perguntou. “Veja”,
murmurei, apontando com um movimento breve e contido da cabeça afim de não
excitar o monstro na pilastra. “E daí?” perguntou a moça num
sussurro. “Quer fazer o favor de parar de gritar? Talvez tenhamos uma
chance” – respondi, recuando de costas sem tirar os olhos da ousada
inimiga que já movia as antenas acintosamente. Sabia que as antenas captam
micro variações no ar ambiente? Qualquer movimento, mesmo à distância pode
ser fatal (daí o meu temor em usar o spray a três metros).
Minha futura namorada (ainda era o
início da noite) me olhou como se estivesse vendo a foto do Pé Grande: “Você
tem medo de barata?”, ela perguntou na única vez em que desviei os olhos
do inimigo, que começava a exercitar as asas. Como cabe a um cavalheiro,
respondi com dignidade: “Não, não tenho medo de barata. Tive quando era
criança, é verdade. Mas agora estou com 23 anos, amadureci meus medos
infantis e sinto verdadeiro pavor dessa coisa! Rápido,
querida, ela vai decolar!”. Ao invés de levantar-se, a moça – que já
tinha 29 – teve uma crise de riso que impediu qualquer atividade muscular.
O ortóptero atacou. Como um raio, me vi
na porta do restaurante agarrado ao garçom a quem quase havia derrubado na
fuga – digo, na retirada estratégica procedida de costas para
não dar a retaguarda ao inimigo. Tendo readquirido meu autodomínio,
imediatamente livrei o garçom para que ele também pudesse exercer seu
direito inalienável de abandonar o teatro de guerra, organizar suas defesas
e pedir reforços. Ao invés disso, o sujeito me olhou como se estivesse vendo
a foto de uma fratura exposta num livro de ortopedia. “Meu bom homem”,
eu disse, reconhecendo imediatamente que ele era tão inconsciente quanto a
moça que não parava de rir: “Meu bom homem, se o senhor não remover o
inseto pernicioso que voltou ao QG na pilastra, pode devolver o jantar pro
chefe porque eu vou pra casa”. Sem dizer nada o camarada esmagou a
barata com o cardápio. Uma velhinha tremeu e ficou azul, um camarão espetado
no garfo imóvel a um palmo da boca. Se ela tivesse saído do estado
catatônico naquela mesma noite eu teria encontrado uma aliada.
Quando minha quase-namorada parou de rir
alguns minutos depois – 56 minutos no máximo – estava completamente
apaixonada: se tem uma coisa a que as mulheres simplesmente não resistem é
um homem capaz de demonstrar algum tipo de fraqueza – e eu ainda tinha
milhares de outras na manga. Começamos a namorar e resgatei minha imagem
provando que não tinha medo de gatos, pombos, formigas das grandes e tigres
siberianos. Bem, o tigre estava num livro mas parecia real. Infelizmente a
situação mais humilhante ainda estava por vir.
Duas semanas mais tardes fomos a outro
restaurante na velha Ipanema. Dessa vez, por mero acaso, um restaurante
“juvenil”. Estávamos sozinhos quando entraram dois casais de surfistas, as
pranchas ainda molhadas, as garotas excepcionalmente bonitas (não que eu
tivesse reparado). Imediatamente uma barata saltou por traz da sombra
vermelha que o crepúsculo projetava de través pela perna de uma mesa no
canto da parede visível na extremidade inferior esquerda da minha visão
periférica de 180 graus. Claro que eu a identifiquei imediatamente. Sabia
que toda barata é voadora mas só algumas aprendem a voar? Essa não tinha
brevê. Era uma barata de corrida. Veio em minha direção quebrando a barreira
do som.
Não hesitei um instante sequer: subi na
cadeira. É sério, não me envergonho de contar: a vida do filho da Dona Maria
do Carmo estava em perigo. Uma das surfistas, uma loirinha de olhos azuis
levantou da cadeira e puxou a canga de praia para o lado, exibindo uma perna
esculpida por 30 horas semanais de ginástica (a outra era igual, não pude
deixar de notar). Com a graça de uma Margot Fonteyn a surfistinha
desintegrou a barata sob o chinelo de couro, virou-se e ofereceu a mão para
me ajudar a descer da cadeira.
Claro que aceitei. O namorado da menina
chorou de rir. Não sabia que as mulheres simplesmente não resistem a um
homem capaz de demonstrar algum tipo de fraqueza – e eu ainda tinha milhares
de outras na manga. Desci da cadeira, fiz uma vênia, beijei a mão da minha
salvadora, sorri agradecido e voltei a sentar sobre os aplausos dos rapazes,
que provavelmente louvavam minha inesperada demonstração de agilidade. Por
razões que ignoro, minha namorada tinha adquirido uma cor ligeiramente mais
escura que o grená. Olhei para ela com cara de cachorro molhado e disse: “Como
você foi capaz de me abandonar numa hora dessas?”. Não sou mal. Me
desenharam assim.
Recém casado, assistia Jornada nas
Estrelas quando minha mulher se teletransportou do quarto e se
materializou na sala, bem na hora do ataque dos romulanos: “Uma ba-ra-ta...
– gaguejou. – Entrou voando...”. Imediatamente assumi o
controle da situação: “Calma, querida, não se aflija. Isso é trabalho
para um homem”. Respirei fundo, dei de ombros, me levantei da
poltrona e chamei o vizinho. Em decorrência da minha alergia, ela aprendeu a enfrentar os ortópteros sozinha, o que só aumentou a minha fé na
natureza humana.
Aldous Huxley escreveu que “toda
coisa que acontece é intrinsecamente semelhante a quem acontece”. É
verdade. Como toda pessoa alérgica a baratas, além de ser perseguido por
elas posso detectá-las de modo premonitório. Primeiro vem uma sensação de
desconforto inexplicável. Depois, basta um súbito reflexo, uma sombra ou um
ruído característico para acionar o mecanismo ancestral de rastreamento de
ortópteros onívoros – argh! Mas o paroxismo desse estado de alerta
permanente pode ser artificialmente induzido... pela troca dos cabos num
sistema de áudio.
Há cerca de quinze dias troquei os cabos
de caixa. Não consigo mais ouvir música. Só os cabos. Fico a espreita de
ruídos, distorções, sibilos ou achatamentos na imagem como quem detecta um
ortóptero. Um estado patológico que me faz prender a respiração a cada
tutti; que dispara a pressão arterial antes da passada mais áspera do arco
num contrabaixo. Já não consigo dormir quando não sei
se o estranho som que o cabo revelou foi uma interferência eletromagnética ou o violinista
virando a página da partitura. No fundo, cabos são traiçoeiros como baratas:
ainda que custem US$ 1.000,00 o metro podem roer as delicadas virtudes do
sistema mais cultivado.
Mesmo vivendo o declínio da
tricentenária Razão Iluminista, insistimos na ilusão de que tudo é
mensurável, de que temos o poder de esclarecer todos os vínculos, avaliar
seus resultados e definir aplicações. Teoricamente um circuito eletrônico só
tem dois estados lógicos: ligado ou desligado, funciona ou não funciona. Na
prática, um sistema de áudio pode funcionar bem ou mal das
mais diversas formas, pois o imponderável é um dado ativo em qualquer
configuração. Enquanto os elementos do sistema estão coordenados entre
si numa estrutura interdependente, os fenômenos que afetam uma performance
se articulam caoticamente. Como vibrações, flutuações na rede elétrica,
interferências eletromagnéticas, a pressão barométrica ou a invasão
inesperada de um ortóptero durante a audição. Imagine o que acontece no
interior de um cabo, onde os teóricos postulam fenômenos em nível quântico!
Claro, é impossível provar – e provavelmente é mentira. Mas se não
posso dominar meu medo de baratas, por quê não sonhar que posso controlar os
átomos, os bários e os mésons? Isso explica em parte o custo absurdo de
alguns cabos: a fantasia é mais valiosa do que a prata – e está embutida no
preço.
Tais questões me atormentam. Meu médico
está preocupado. O cachorro me evita. Minha namorada reclama que me mexo
muito durante o sono e que levou duas cotoveladas só na última semana. Meu
irmão Rynaldo – o que só escuta U2 e coisas piores – me pergunta o que está
acontecendo. Respondo laconicamente: “São os cabos”.
Não adianta explicar. Eles não
entenderiam. Só você que já passou por isso ou se prepara para enfrentar o
mesmo caos pode compreender. A conclusão que cheguei é que meu novo cabo não
será aprovado, mas assimilado. Vou me resignar às suas
diferenças sônicas inevitáveis. No fundo, sei que o produto é excelente e
posso recomendá-lo a você. Ele é fabricado pela...
O que foi aquela sombra?

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