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12/01/12

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ARGH!

Ortópteros

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado pela CAVI) 
 

Tenho um medo irracional de baratas. Irracional uma ova, racional: sou alérgico. Baratas são intoleráveis, repulsivas, blindadas e perigosas. Numa revista especializada em OVNIS de grande credibilidade, li a entrevista de uma mulher que foi inteiramente devorada por uma barata. Essa parte final eu não entendi muito bem, mas o relato me pareceu verdadeiro. Só pode ser. Tudo se encaixa. Há qualquer coisa de fantasmagórico num ser que testemunhou quando um peixe se arrastou na lama, ergueu-se, caminhou sobre a terra e disse “Eu sou Homem”.

Por precaução, mantenho-me em guarda contra o armagedon ortóptero. Tenho dúzias de sprays novinhos, capazes de lançar um jato de veneno a três metros. De minha parte, acho três metros uma distância infinitamente minúscula para enfrentar o perigo. Mas existem momentos que definem um homem para sempre, e enfrentar uma barata pode ser decisivo. Numa dessas revistas femininas que propõem 257 formas diferentes de orgasmo por mês, li que o marido de uma ninfomaníaca corcunda do Nepal não se recuperou do embate contra uma cascuda e ficou impotente. O relato me pareceu verdadeiro. Só pode ser. Quase tudo se encaixa.

Não sei se você já reparou como as pessoas que têm alergia a baratas parecem ser perseguidas por elas. Como se ortópteros pudessem captar e interpretar alguma emissão magnética do córtex cerebral, qualquer coisa assim. Lembro-me de uma ocasião em que – saindo pela primeira vez com uma ex-namorada –  fui covardemente atacado. Estávamos num aprazível restaurante em Ipanema quando percebi uma ligeira sombra na extremidade do canto superior direito dos 180 graus da minha visão periférica. Imediatamente entrei em alerta. A moça tagarelava e eu dizia hum-hum, hum-hum, não tendo a mínima idéia se ela falava de detectores iônicos de fumaça, prospecção de petróleo no Mar do Norte ou plantação de cucurbitáceas em solo calcário. Finalmente a barata se revelou, fazendo um reconhecimento aéreo ostensivo antes de pousar desafiadoramente na maciça coluna de madeira que sustentava a trave do teto.

Imediatamente me levantei para a estupefação de minha interlocutora: “O que foi?”, ela perguntou. “Veja”, murmurei, apontando com um movimento breve e contido da cabeça afim de não excitar o monstro na pilastra. “E daí?” perguntou a moça num sussurro. “Quer fazer o favor de parar de gritar? Talvez tenhamos uma chance” – respondi, recuando de costas sem tirar os olhosE MAIS ARGH! da ousada inimiga que já movia as antenas acintosamente. Sabia que as antenas captam micro variações no ar ambiente?  Qualquer movimento, mesmo à distância pode ser fatal (daí o meu temor em usar o spray a três metros).

Minha futura namorada (ainda era o início da noite) me olhou como se estivesse vendo a foto do Pé Grande: “Você tem medo de barata?”, ela perguntou na única vez em que desviei os olhos do inimigo, que começava a exercitar as asas. Como cabe a um cavalheiro, respondi com dignidade: “Não, não tenho medo de barata. Tive quando era criança, é verdade. Mas agora estou com 23 anos, amadureci meus medos infantis e sinto verdadeiro pavor dessa coisa! Rápido, querida, ela vai decolar!”. Ao invés de levantar-se, a moça – que já tinha 29 – teve uma crise de riso que impediu qualquer atividade muscular.  

O ortóptero atacou. Como um raio, me vi na porta do restaurante agarrado ao garçom a quem quase havia derrubado na fuga – digo, na retirada estratégica procedida de costas para não dar a retaguarda ao inimigo. Tendo readquirido meu autodomínio, imediatamente livrei o garçom para que ele também pudesse exercer seu direito inalienável de abandonar o teatro de guerra, organizar suas defesas e pedir reforços. Ao invés disso, o sujeito me olhou como se estivesse vendo a foto de uma fratura exposta num livro de ortopedia. “Meu bom homem”, eu disse, reconhecendo imediatamente que ele era tão inconsciente quanto a moça que não parava de rir: “Meu bom homem, se o senhor não remover o inseto pernicioso que voltou ao QG na pilastra, pode devolver o jantar pro chefe porque eu vou pra casa”. Sem dizer nada o camarada esmagou a barata com o cardápio. Uma velhinha tremeu e ficou azul, um camarão espetado no garfo imóvel a um palmo da boca. Se ela tivesse saído do estado catatônico naquela mesma noite eu teria encontrado uma aliada.

Quando minha quase-namorada parou de rir alguns minutos depois – 56 minutos no máximo – estava completamente apaixonada: se tem uma coisa a que as mulheres simplesmente não resistem é um homem capaz de demonstrar algum tipo de fraqueza – e eu ainda tinha milhares de outras na manga. Começamos a namorar e resgatei minha  imagem provando que não tinha medo de gatos, pombos, formigas das grandes e tigres siberianos. Bem, o tigre estava num livro mas parecia real. Infelizmente a situação mais humilhante ainda estava por vir.

Duas semanas mais tardes fomos a outro restaurante na velha Ipanema. Dessa vez, por mero acaso, um restaurante “juvenil”. Estávamos sozinhos quando entraram dois casais de surfistas, as pranchas ainda molhadas, as garotas excepcionalmente bonitas (não que eu tivesse reparado). Imediatamente uma barata saltou por traz da sombra vermelha que o crepúsculo projetava de través pela perna de uma mesa no canto da parede visível na extremidade inferior esquerda da minha visão periférica de 180 graus. Claro que eu a identifiquei imediatamente. Sabia que toda barata é voadora mas só algumas aprendem a voar? Essa não tinha brevê. Era uma barata de corrida. Veio em minha direção quebrando a barreira do som.

Não hesitei um instante sequer: subi na cadeira. É sério, não me envergonho de contar: a vida do filho da Dona Maria do Carmo estava em perigo. Uma das surfistas, uma loirinha de olhos azuis CUIDADO, MARGOT!levantou da cadeira e puxou a canga de praia para o lado, exibindo uma perna esculpida por 30 horas semanais de ginástica (a outra era igual, não pude deixar de notar). Com a graça de uma Margot Fonteyn a surfistinha desintegrou a barata sob o chinelo de couro, virou-se e ofereceu a mão para me ajudar a descer da cadeira.

Claro que aceitei. O namorado da menina chorou de rir. Não sabia que as mulheres simplesmente não resistem a um homem capaz de demonstrar algum tipo de fraqueza – e eu ainda tinha milhares de outras na manga. Desci da cadeira, fiz uma vênia, beijei a mão da minha salvadora, sorri agradecido e voltei a sentar sobre os aplausos dos rapazes, que provavelmente louvavam minha inesperada demonstração de agilidade. Por razões que ignoro, minha namorada tinha adquirido uma cor ligeiramente mais escura que o grená. Olhei para ela com cara de cachorro molhado e disse: “Como você foi capaz de me abandonar numa hora dessas?”. Não sou mal. Me desenharam assim.  

Recém casado, assistia Jornada nas Estrelas quando minha mulher se teletransportou do quarto e se materializou na sala, bem na hora do ataque dos romulanos: “Uma ba-ra-ta... ­–  gaguejou. – Entrou voando...”. Imediatamente assumi o controle da situação: “Calma, querida, não se aflija. Isso é trabalho para um homem”. Respirei fundo, dei de ombros, me levantei da poltrona e chamei o vizinho. Em decorrência da minha alergia, ela aprendeu a enfrentar os ortópteros sozinha, o que só aumentou a minha fé na natureza humana.

Aldous Huxley escreveu que “toda coisa que acontece é intrinsecamente semelhante a quem acontece”. É verdade. Como toda pessoa alérgica a baratas, além de ser perseguido por elas posso detectá-las de modo premonitório. Primeiro vem uma sensação de desconforto inexplicável. Depois, basta um súbito reflexo, uma sombra ou um ruído característico para acionar o mecanismo ancestral de rastreamento de ortópteros onívoros – argh! Mas o paroxismo desse estado de alerta permanente pode ser artificialmente induzido... pela troca dos cabos num sistema de áudio.

Há cerca de quinze dias troquei os cabos de caixa. Não consigo mais ouvir música. Só os cabos. Fico a espreita de ruídos, distorções, sibilos ou achatamentos na imagem como quem detecta um ortóptero. Um estado patológico que me faz prender a respiração a cada tutti; que dispara a pressão arterial antes da passada mais áspera do arco num contrabaixo. Já não consigo dormir quando não sei se o estranho som que o cabo revelou foi uma interferência eletromagnética ou o violinista virando a página da partitura. No fundo, cabos são traiçoeiros como baratas: ainda que custem US$ 1.000,00 o metro podem roer as delicadas virtudes do sistema mais cultivado.

Mesmo vivendo o declínio da tricentenária Razão Iluminista, insistimos na ilusão de que tudo é mensurável, de que temos o poder de esclarecer todos os vínculos, avaliar seus resultados e definir aplicações. Teoricamente um circuito eletrônico só tem dois estados lógicos: ligado ou desligado, funciona ou não funciona. Na prática, um sistema de áudio pode funcionar bem ou mal das mais diversas formas, pois o imponderável é um dado ativo em qualquer configuração. Enquanto os elementos do sistema estão coordenados entre si numa estrutura interdependente, os fenômenos que afetam uma performance se articulam caoticamente. Como vibrações, flutuações na rede elétrica, interferências eletromagnéticas, a pressão barométrica ou a invasão inesperada de um ortóptero durante a audição. Imagine o que acontece no interior de um cabo, onde os teóricos postulam fenômenos em nível quântico! Claro, é impossível provar – e provavelmente é mentira. Mas se não posso dominar meu medo de baratas, por quê não sonhar que posso controlar os átomos, os bários e os mésons? Isso explica em parte o custo absurdo de alguns cabos: a fantasia é mais valiosa do que a prata – e está embutida no preço.

Tais questões me atormentam. Meu médico está preocupado. O cachorro me evita. Minha namorada reclama que me mexo muito durante o sono e que levou duas cotoveladas só na última semana. Meu irmão Rynaldo – o que só escuta U2 e coisas piores – me pergunta o que está acontecendo. Respondo laconicamente: “São os cabos”.

Não adianta explicar. Eles não entenderiam. Só você que já passou por isso ou se prepara para enfrentar o mesmo caos pode compreender. A conclusão que cheguei é que meu novo cabo não será aprovado, mas assimilado. Vou me resignar às suas diferenças sônicas inevitáveis. No fundo, sei que o produto é excelente e posso recomendá-lo a você. Ele é fabricado pela...

O que foi aquela sombra?

URGH! E ARGH!

 

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Este site foi atualizado em 13/08/09