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Outra crítica da crítica |
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12/01/12 |
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©Ricardo
Labuto Gondim Os três pilares da fé cristã são a Trindade, a Encarnação do Verbo e a Ressurreição. Por incrível que pareça, “Trindade” não é exatamente um conceito bíblico, mas uma tese de Santo Agostinho que descreve Deus como uma Unidade formada por três Pessoas distintas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. As três Pessoas vivem uma relação que chamamos de “pericorética”: o amor intenso que as une as torna indistinguíveis entre si. Entendeu? Não? Pois estamos em boa companhia: Santo Agostinho, que recorreu a um extenso e difícil volume para formular a idéia, dizia não saber o que a Trindade era, só o que ela não era. Daí que a Trindade acabou elevada à categoria de dogma: é assim... por que é. Soa irracional, eu sei. Mas a tese de Agostinho de Hipona está fundamentada nas Escrituras e instituída a 1600 anos, de modo que rediscuti-la não vai nos levar a lugar algum. Daí o socorro do dogma, que é a “aceitação da autoridade”: mentes extraordinárias debateram e esgotaram o tema com piedade e erudição ao longo de séculos; acolhendo suas conclusões com respeito e humildade, extinguimos discussões elípticas ou circulares, infinitas e inúteis – e nos concentramos no que realmente importa: buscar o Criador. A relação do Homem com Deus está acima de qualquer teologia.
Hi-End é um termo tão amplo, mas tão amplo, que provavelmente já não quer dizer coisa alguma. É só um nome abstrato para designar produtos que incorporam valores de alta performance. Essa definição é uma idéia geral, inconclusa, limitada, mas que guarda uma virtude desejável: a de incluir na categoria Hi-End – associada a produtos muito exclusivos, criados com rigores e padrões de excelência virtualmente impossíveis de serem aplicados em escala industrial – pois bem, essa definição eleva à categoria de Hi-End justamente aquelas marcas produzidas pela indústria... com rigor e excelência insofismáveis – como por exemplo, McIntosh: quem resiste à sedução aveludada dos velhos olhos azuis? Um signo mais emblemático e expressivo é provavelmente a B&W. Não sendo exatamente burro nem surdo, posso compreender porque a Bowers & Wilkins desperta arrebatados amores, embora pessoalmente não me sinta nem um pouco atraído pela sonoridade da marca. O meu filho de 14 anos discorda: o garoto tem um ouvido treinado desde a infância, é filho de uma pianista concertista, toca guitarra há mais de três anos, arranha o piano desde os cinco e vive uma paixão platônica pela 805D, que além de custar 23 mil reais exige uma eletrônica requintada (e por isso a paixão vai continuar platônica). O guri não faz juízo de valor sobre a caixa, não a considera melhor ou pior que a do “Velho”. Mas acredita que a sonoridade da 805D clarifica de modo estruturado os timbres variados e compactos dos seus gêneros preferidos, como Rock, Hard Rock e Heavy Metal. O cara simplesmente amou a caixa – e isso é tudo o que importa.
Note que o texto vai fazer seis anos, o que em matéria de tecnologia equivale a seis eternidades. A meu ver a discussão já não faz sentido, embora continue anacronicamente atual: muita gente ainda duvida da capacidade dos brasileiros competirem ombro a ombro com as grifes mais famosas do mundo. Tanto é que, antes de fazer sucesso no Brasil a Audiopax ilustrou as capas de algumas das revistas mais prestigiadas do planeta – nenhuma delas impressa no código ainda pouco influente da língua portuguesa. Mais adiante o artigo dizia:
Nestes seis anos a convergência dos equipamentos de áudio em direção ao Everest se consolidou. Categoria prata? Nem existe mais, o próprio Argus é ouro puro. Em setembro de 2010 passei dois dias no Hi-End Show. O ambiente estava tão agradável e despojado que tive o prazer de discutir latitude em fotografia digital com Ricardo de Marino, aviação com o Dr. Victor Mirol, e ainda troquei dois dedos de prosa sobre o envolvente Zeppelin da B&W com o simpaticíssimo Renato DIY. Francamente, não ouvi nada que pudesse ser classificado como “ruim sem ressalvas”. Ao contrário: como profetizado ao longo de incontáveis páginas do logos eletrônico e do Audiodicas, o contraste entre equipamentos caríssimos e outros nem tanto é cada vez mais sutil. Se o que faltar em carvão, erva, bufunfa, l’argent, verdinhas e etc. for compensado com bom senso, você pode ser muito, mas muito feliz, mesmo sem quebrar a lojinha, hipotecar a casa ou arriscar o casamento.
A Bora merece um comentário a parte, pois tocou lindamente num sistema que muitos mortais podem alcançar: integrado Exaudi intermediário, player Oppo e cabos Sunrise. Rapaz, que tesão de caixa! Que sensualidade! Que gostosa! Considerando a relação custo X benefício, um dos melhores sistemas do evento. Quer saber? Já não faz sentido hierarquizar a performance de equipamentos com estrelinhas, medalhas ou minerais preciosos. Da invenção do fonógrafo de Édison à Cabasse Bora já se passaram mais de 130 anos. Considerando que o acervo tecnológico das últimas cinco décadas é maior que em toda história da humanidade, você pode imaginar o instrumental científico ao alcance dos projetistas e fabricantes de hoje. Assim, estabelecido um dado nível de performance, não há razão para hierarquizar equipamentos com base numa pontuação abstrata, relativa, imponderável e – a despeito de toda e qualquer ilusão de ciência – subjetiva. O desafio da crítica de áudio não é mais “qualificar” um equipamento: as empresas entenderam que o consumidor já não é o elemento passivo da sociedade de consumo, mas o co-autor do desenvolvimento de produtos. O “posicionamento” mercadológico de qualquer equipamento de áudio já vem pronto fábrica, embalado por recursos de marketing imediatamente reconhecíveis, transparentes, que atacam a específica jugular do consumidor específico para cada tipo de produto. Claro, sempre existirão produtos banais com preços estratosféricos – que induzem os incautos, os inseguros e os ingênuos a acreditar no empoeirado adágio de que somente o que é caro é bom (especialmente quando o produto é um cabo). Felizmente essa prática tende a diluir-se progressivamente graças ao milagre da internet, onde sempre haverá alguém disposto a arrancar máscaras, denunciar imposturas e apontar os reis nus – ainda que na contramão de idéias difundidas e elevadas à categoria de dogmas.
Os jargões de sempre, as frases feitas, gastas e inócuas, a ilusão de ciência e – que os céus nos livrem – os posicionamentos orientados pelo número de zeros nas etiquetas de preço: tudo isso terá de ser abandonado em nome de um pragmatismo mais jovem, mais ágil, mais sincero, mais direto e mais livre. Algo que posso aprender com meu filho de 14 anos. Traduzindo a interpretação que o guri fez da bookshelf por quem se apaixonou, eu poderia escrever:
Sacou, brother? Eu sei que o texto ainda embute os vícios de outros tempos, mas o que vale é a afirmação da opinião pessoal, onde reside a credibilidade. Estamos na segunda década do novo século; já não há lugar para verdades universais... nem dogmas.
Falando grosso modo, para o nominalismo idéias universais são meras abstrações intelectuais. Equipamentos de áudio não: são coisas perceíveis, obsolescentes, de valor transitório. Objetos particulares que, para serem conhecidos, devem ser tratados caso a caso; tratados como “coisa em si”, pois, em suas faixas de consumo claramente definidas atingem praticamente um mesmo nível. Não faz sentido imputar a superioridade de um sobre outro – precisamos entender e traduzir suas diferenças. Se tudo correr bem, este será o século da Alteridade. Lei mais em: |
Este site foi atualizado em 21/05/11