áudio: merda

28/08/10

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Da arte de falar merda

©Ricardo Labuto Gondim
 

§    Cunhei o termo puro-audiófilo para distinguir o pobre coitado que usa a música como pretexto para ouvir aparelhos. Alguns, inebriados pela própria fraqueza, negam esse estado deplorável ostentando discotecas infinitas, onde o ecletismo é proclamado com orgulho desde que seja bem gravado e não contenha estalidos.
 

§    O ser humano não incorre na pura-audiofilia sem manifestar sintomas como maneirismos pomposos e sofisticação. Muita gente não sabe, mas o adjetivo “sofisticado” é tão pejorativo quanto amplo. 
 

§    Borges dizia que as pessoas que se levam a sério demais são horríveis. Nós, os audiófilos – especialmente os “puros” – podemos confirmá-lo.
 

§    Via e-mail, certo cavalheiro de cuja distinção não me permito duvidar repudiou o uso das imagens sensuais do logos por seu caráter “masturbatório”. Indignei-me a princípio, mas reconsiderei, aceitando a lógica irrefutável da incriminação. Sendo a audiofilia uma esfera de interesse basicamente masculina, antes de receber o e-mail eu incluía as imagens por sua beleza e provocação. Agora que meus olhos se abriram, hei de mantê-las por uma questão de coerência.
 

§    Em nosso círculo masturbatório de alto nível (a audiofilia), dissipamos 90% do tempo debatendo os utensílios que empregamos para ouvir a música – que ao invés de constituir o núcleo das nossas discussões é desdenhada como elemento periférico.
 

§    Em toda a África não existem duas zebras com listras iguais. Ainda que incipiente, minha experiência demonstra que dois equipamentos idênticos – da mesma marca e modelo – podem ser tão exclusivos quanto as zebras.
 

§    Dizem os especialistas que um tocador de CD não lê o mesmo disco duas vezes da mesma maneira, como a água que move o moinho uma única vez.
 

§    Distinguir, julgar e premiar equipamentos de áudio pela mínima grandeza de números decimais é um ato quase divino.
 

§    Um ouvido capaz de tal proeza só pode existir (a) pela ambição (b) ou por uma soberba ilusória. A segunda ocorrência é triste. A primeira é trágica.  
 

§    Numa suada madrugada de insônia – silenciosa como se o mundo estivesse morto – toquei famosos CDs de teste nos falantes do meu computador. São pequenas caixas de plástico da HP, desprezíveis caixas cinzentas destinadas aos bips, sinais e alarmes das operações corriqueiras. Ouvi praticamente tudo o que, segundo a ciência e as estatísticas, não poderia ouvir jamais.
 

§    Dessa experiência patrocinada pela insônia inferi uma lucidez: a única razão para manter meu sistema de áudio é a beleza que encontro nele, seja ela qual for. O resto é desculpa para uma consciência atormentada pelo SPC – ou uma justificativa para a insegurança audiófila.
 

§    Num artigo considerado muito importante pela minha mãe, escrevi que o limite máximo de um sistema está na gravação. Dentre as coisas que tentei dizer com isso, a mais importante é que todo e qualquer atributo demonstrado por um sistema tem de existir necessariamente em bits ou sulcos.
 

§    Sistemas de áudio não interpretam, reproduzem. Quem interpreta é o cérebro – assessorado pela audição, pela razão e pela vertigem dos sonhos.
 

§    O instrumento que você tem em casa o sistema não conhece violinos nem tambores, apenas harmônicos. A reprodução fiel dos harmônicos é a grandeza e o terror da alta-fidelidade, e a audiofilia é o aperfeiçoamento desse inferno pela inclusão de problemas em geral imaginários.
 

§    Nós, os audiófilos – especialmente os "puros" – descobrimos e inventamos problemas tão complexos para nos atormentar que já não temos tempo de ouvir música. Passamos mais tempo atrás do sistema do que à frente dele; passamos mais tempo com os joelhos no chão do que com a bunda na poltrona.
 

§    Nos momentos finais de Festim Diabólico (Rope, 1948), James Stewart dispara o revólver na janela do prédio para atrair os homens da lei. Como o filme inteiro se passa no interior do apartamento, era preciso que a trilha de áudio revelasse o ajuntamento murmurante da multidão na rua lá embaixo e a aproximação das viaturas de polícia. Os técnicos ofereceram a solução elementar: gravar o burburinho, mixar com sirenes e aumentar gradualmente o volume. O diretor Alfred Hitchcock rejeitou a oferta: ele queria uma dimensão sonora autêntica. O que fez? Instalou o microfone no telhado do estúdio, convocando a multidão de figurantes e carros de polícia com sirenes ligadas a três quarteirões de distância. Quando assisti ao filme pela primeira vez – num VHS mono plugado via RF a um lamentável Colorado RQ – o efeito me surpreendeu pelo realismo e sensação de espaço.
 

§    Em linguagem audiófila, o efeito produzido por Hitchcock pode – por equivalência – ser perfeitamente definido como “palco” ou “sound stage”. Mesmo no meu Colorado RQ a ilusão do sound stage existia, de fato, como ilusão inerente à tomada de som.
 

§    O sound stage – como a perspectiva renascentista e o próprio som gravado – é uma convenção (a discussão está aqui). Antes de ser um quesito empregado para justificar impressões pessoais, fazer amigos e influenciar pessoas, o termo é a conceituação imprecisa de uma ilusão acústica - mas uma ilusão audível; antes de ser um ardil para legitimar estrelinhas, medalhas e pontuações cabalísticas, sound stage é a apropriação indébita e a sublimação de méritos que, acima de tudo, pertencem aos engenheiros de gravação - uma ocorrência muito mais dependente da posição dos microfones que da posição das caixas. A excessiva vinculação do fenômeno aos "méritos" da eletrônica são uma reação de mentes entusiásticas, ingênuas ou pré-analíticas que tentam negar a subjetividade de toda e qualquer audição de música pela velha e falsa ilusão de ciência.
 

§    Quando - julgando um produto - o reviewer se deixa arrebatar pela ilusão do sound stage, ou está louvando outro atributo que é incapaz de entender ou definir, ou pura e simplesmente está, em termos filosóficos, falando merda.
 

§    Nem por isso o termo perde a validade: quando alguém fala em palco você quase sempre entende o que o outro quer dizer, mesmo que ele não saiba o que está dizendo. Quantas vezes você mesmo empregou a palavra? A questão é que os tempos mudaram: os críticos não se afirmam imparciais e cartesianos? Pois que sejam de fato.
 

§    Quanto mais ciência invocamos para justificar nossas paixões, mais místicos e irreais nos tornamos.
 

§    O único fenômeno mensurável produzido pela falsa ciência dos reviewers é a pasteurização da crítica. Nas revistas mais populares de três continentes, todos dizem as mesmas coisas sobre qualquer coisa.
 

§    O acesso ilimitado à informação, a comunicação transnacional instantânea e a liberdade de expressar idéias via Internet elevaram consumidores à condição de co-protagonistas no desenvolvimento de produtos. A "flexibilidade" empoeirada do toyotismo foi substituída por uma "personalização" cada vez mais radical. Nesse modelo, tudo que o leitor quer saber é se um cara com orelhas confiáveis gostou ou não de um produto. O resto é merda.
 

§    O Prof. Harry G. Frankfurt, filósofo moral e professor emérito de Princeton publicou uma pequena, douta e despretensiosa jóia lançada no Brasil pela Editora Intrínseca: “Sobre Falar Merda” (On Bullshit, 2005).  Escreve o mestre na página 28:

    “A noção de se falar merda com cuidadoso apuro envolve, assim, um certo esforço interior. Uma atenção ponderada aos detalhes requer disciplina e objetividade. Ela acarreta a aceitação de padrões e limites que proíbem a tolerância com impulsos e caprichos. É essa abnegação, em relação a falar merda, que nos parece inadequada. Ela não está, entretanto, fora de questão. A área da propaganda e das relações públicas e, hoje em dia, a intimamente ligada área da política estão repletas de exemplos tão consumados de falar merda que podem servir como os paradigmas mais inquestionáveis e clássicos do conceito. E, nessas áreas, existem profissionais extremamente sofisticados que – com o auxílio de técnicas avançadas e requisitadas de pesquisa de mercado, de levantamentos da opinião pública, de testes psicológicos e por aí a fora – se dedicam de forma incansável a usar cada palavra e imagem que produzem da maneira mais correta”.
 

§    Como você pode notar, o livro do Prof. Frankfurt é indispensável aos leitores das revistas de áudio em geral e obrigatório para reviewers e críticos.
 

§    Comprei o meu, mas duvido que possa ser salvo por ele.
 

§    No mundo dos negócios a língua inglesa é a mais falada do planeta. Na plutocrática sociedade da informação o idioma imperante é o Windows. Esse fato terrível atrela um bilhão de indivíduos a uma sinistra corporação sediada em Redmon que está em todo lugar. Aqui e agora, por exemplo.
 

§    Sob argumentos tão inconsistentes quanto válidos, a Comunidade Européia obteve uma improvável conquista jurídica que obrigará a Microsoft a abrir a caixa preta e revelar as linhas do secreto código do Windows. A idéia é essa mesma: enxergar os cordéis.
 

§    Que ninguém se iluda, a Microsoft ganhou a partida. Com o código aberto, os programas escritos para Windows crescerão em qualidade e número. Além de consolidar a posição da Microsoft, a medida diluirá a força crescente do Linux arranhando o verniz de resistência política e ideológica.
 

§    Agora, o arrastado e gorduroso Vista está sendo empurrado para racks e HTs pela cobiça de alguns veículos de comunicação, pela alienação dos incautos e pela inconsciência dos consumistas. Você conhece o tipo: é o cara que está doido para comprar uma TV digital full HD para aperfeiçoar a melancolia das tardes de domingo pela visão mais nítida dos poros do Faustão.
 

§    A musiquinha do Fantástico é a marcha fúnebre do domingo. Quem, em nome dos céus, quer ouvir semelhante coisa em multicanal? Não dá para esperar melhores opções?

Fotos de Pascal Renoux.


 

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Este site foi atualizado em 12/08/09