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áudio: merda |
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18/02/10 |
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©Ricardo
Labuto Gondim
§
Cunhei
o termo puro-audiófilo para distinguir o pobre coitado que usa a
música como pretexto para ouvir aparelhos. Alguns, inebriados pela própria
fraqueza, negam esse estado deplorável ostentando discotecas infinitas, onde
o ecletismo é proclamado com orgulho desde que seja bem gravado e não
contenha estalidos.
§ O
ser humano não incorre na pura-audiofilia sem manifestar sintomas como
maneirismos pomposos e sofisticação. Muita gente não sabe, mas o adjetivo
“sofisticado” é tão pejorativo quanto amplo.
§ Borges
dizia que as pessoas que se levam a sério demais são horríveis. Nós, os
audiófilos – especialmente os “puros” – podemos confirmá-lo.
§ Em
nosso círculo masturbatório de alto nível (a audiofilia), dissipamos 90% do
tempo debatendo os utensílios que empregamos para ouvir a música – que ao
invés de constituir o núcleo das nossas discussões é desdenhada como
elemento periférico.
§ Em
toda a África não existem duas zebras com listras iguais. Ainda que
incipiente, minha experiência demonstra que dois equipamentos idênticos – da
mesma marca e modelo – podem ser tão exclusivos quanto as zebras.
§ Dizem
os especialistas que um tocador de CD não lê o mesmo disco duas vezes da
mesma maneira, como a água que move o moinho uma única vez.
§ Distinguir,
julgar e premiar equipamentos de áudio pela mínima grandeza de números
decimais é um ato quase divino.
§ Um
ouvido capaz de tal proeza só pode existir (a) pela ambição (b) ou por uma
soberba ilusória. A segunda ocorrência é triste. A primeira é trágica.
§ Dessa
experiência patrocinada pela insônia inferi uma lucidez: a única razão para
manter meu sistema de áudio é a beleza que encontro nele, seja ela qual for.
O resto é desculpa para uma consciência atormentada pelo SPC – ou uma
justificativa para a
insegurança audiófila.
§ Num
artigo considerado muito importante pela
minha mãe, escrevi que o limite máximo de um sistema está na gravação.
Dentre as coisas que tentei dizer com isso, a mais importante é que todo e
qualquer atributo demonstrado por um sistema tem de existir necessariamente
em bits ou sulcos.
§ Sistemas
de áudio não interpretam, reproduzem. Quem interpreta é o cérebro –
assessorado pela audição, pela razão e pela vertigem dos sonhos.
§ O
instrumento que você tem em casa –
o sistema –
não conhece violinos nem tambores, apenas
harmônicos.
A reprodução fiel dos
harmônicos é a grandeza e o terror da alta-fidelidade, e a audiofilia é o
aperfeiçoamento desse inferno
pela inclusão de problemas em
geral imaginários.
§ Nós,
os audiófilos
– especialmente os "puros" – descobrimos e inventamos problemas tão
complexos para nos atormentar que já não temos tempo de ouvir música.
Passamos mais tempo atrás do sistema do que à frente dele; passamos mais
tempo com os joelhos no chão do que com a bunda na poltrona.
§ Em
linguagem audiófila, o efeito produzido por Hitchcock pode – por
equivalência – ser perfeitamente definido como “palco” ou “sound stage”.
Mesmo no meu Colorado RQ a ilusão do sound stage existia, de
fato, como ilusão inerente à tomada de som.
§ Quando
- julgando um produto - o reviewer se deixa arrebatar pela ilusão do
sound
stage,
ou está louvando outro atributo que é incapaz de entender ou definir, ou pura e simplesmente está, em termos filosóficos, falando merda.
§ Nem
por isso o termo perde a validade: quando alguém fala em palco você
quase sempre entende o que o outro quer dizer, mesmo que ele não saiba o que está
dizendo. Quantas vezes você mesmo empregou a palavra? A questão é que os tempos
mudaram: os críticos não se afirmam imparciais e cartesianos? Pois que sejam
de fato.
§ Quanto
mais ciência invocamos para justificar nossas paixões, mais místicos e
irreais nos tornamos.
§ O
único fenômeno mensurável
produzido pela falsa ciência dos reviewers é a pasteurização da crítica. Nas
revistas mais populares de três continentes, todos dizem as mesmas coisas sobre qualquer
coisa.
§ O
acesso ilimitado à informação, a comunicação transnacional instantânea e a
liberdade de expressar idéias via Internet elevaram consumidores à
condição de co-protagonistas no desenvolvimento de produtos. A "flexibilidade"
empoeirada do toyotismo foi substituída por uma
"personalização" cada vez mais radical. Nesse modelo, tudo que o leitor quer
saber é se um cara com orelhas confiáveis gostou ou não de um produto. O
resto é merda. § O Prof. Harry G. Frankfurt, filósofo moral e professor emérito de Princeton publicou uma pequena, douta e despretensiosa jóia lançada no Brasil pela Editora Intrínseca: “Sobre Falar Merda” (On Bullshit, 2005). Escreve o mestre na página 28:
§ Comprei
o meu, mas duvido que possa ser salvo por ele.
§ No
mundo dos negócios a língua inglesa é a mais falada do planeta. Na
plutocrática sociedade da informação o idioma imperante é o Windows.
Esse fato terrível atrela um bilhão de indivíduos a uma sinistra corporação
sediada em Redmon que está em todo lugar. Aqui e agora, por exemplo.
§ Sob
argumentos tão inconsistentes quanto válidos, a Comunidade Européia obteve
uma improvável conquista jurídica que obrigará a Microsoft a abrir a
caixa preta e revelar as linhas do secreto código do Windows. A
idéia é essa mesma: enxergar os cordéis.
§ Que
ninguém se iluda, a Microsoft ganhou a partida. Com o código aberto,
os programas escritos para Windows crescerão em qualidade e número.
Além de consolidar a posição da Microsoft, a medida diluirá a força
crescente do Linux arranhando o verniz de resistência política e
ideológica.
§ Agora,
o arrastado e gorduroso Vista está sendo empurrado para racks e HTs
pela cobiça de alguns veículos de comunicação, pela alienação dos incautos e
pela inconsciência dos consumistas. Você conhece o tipo: é o cara que está
doido para comprar uma TV digital
full
HD para
aperfeiçoar a melancolia das tardes de domingo pela visão mais nítida dos
poros do Faustão. § A musiquinha do Fantástico é a marcha fúnebre do domingo. Quem, em nome dos céus, quer ouvir semelhante coisa em multicanal? Não dá para esperar melhores opções?
Fotos de
Pascal Renoux. |
Este site foi atualizado em 12/08/09