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Máximas e Mínimas
©Ricardo Labuto Gondim
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As gravações
deveriam ser o princípio e o fim da audiofilia. Infelizmente, são apenas o
meio.
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Todas as belezas
que você atribui ao seu sistema de áudio estão, antes de tudo, nas
gravações.
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Seu sistema de
áudio não pode acrescentar a qualquer gravação uma só virtude que ela não
contenha. Mas pode surpreendê-lo ao demonstrar que nosso poder de captar e
registrar sons sempre esteve muito à frente da capacidade de
reproduzi-los.
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Tenho a gravação
RCA do Fidelio de Toscanini (1944), e me impressiono com os
detalhes que meu sistema é capaz de extrair dela. A sonoridade, contudo,
continua empoeirada.
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Podemos restaurar
miraculosamente uma gravação, mas é impossível atualizar a sonoridade.
Logo, com o meu Fidelio atingi uma felicidade extrema.
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Reconhecer e aceitar a
felicidade é um dos grandes desafios da experiência humana.
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Que coisa mais
triste é tocar Beethoven para ouvir texturas e transientes...
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É melhor ouvir um
Beethoven bem tocado num sistema ruim, do que ouvi-lo com Abbado num
sistema esplendido. |

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Investi tempo e
dinheiro num sistema de áudio justamente para não ouvi-lo.
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Amo música. Minha
paixão por eletrônica é efeito colateral.
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Com exceção da
música de câmara para instrumentos de corda - cujos timbres são o desafio
permanente da engenharia -, não é difícil registrar belas sonoridades em
pequenos conjuntos.
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Se eu ouvisse mais
jazz, blues, pop e rock, não investiria minha gaita num sistema de áudio
exageradamente “refinado”. Torraria o carvão excedente em discos prateados
de 4,75 polegadas de diâmetro, capazes de conter as belezas mais
transcendentes.
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No Hi-Fi Show de
2003 ou 2004, não me recordo, cheguei antes do evento começar e pedi
licença a um expositor para ouvir um CD terrível do Concerto n. 2 de
Brahms. “É uma gravação muito ruim”, adverti. “Mas porque o senhor deseja
ouvi-la?”. “Para ouvir gravações audiófilas, o que tenho em casa é
suficiente”.
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Gravações
audiófilas não precisam de ajuda. Daí que não podem ser o fundamento de
uma avaliação, muito menos de uma tomada de decisão.
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Jorge Luis Borges
escreveu que o dinheiro é a coisa mais imaterial do mundo. Pode
representar um sorvete no parque ou a música de Brahms. Ainda que
memorável, a sentença é estranha aos audiófilos que crêem que a música não
pode prescindir da materialidade de um sistema vultoso.
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Uma das maiores
proezas do marketing foi a destruição da palavra “qualidade” – que hoje,
significando tudo, não significa absolutamente nada.
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Um sistema não
pode ser eleito pela “qualidade”, que se tornou ainda mais imaterial que o
dinheiro.
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Um sistema deveria
ser eleito unicamente pela AFINIDADE que estabelece entre a música e o
ouvinte.
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A afinidade é
corrompida quando sofre a mediação de abstrações como “qualidade”, “marca”
e “dinheiro”. Como sempre existem produtos mais famosos e mais caros, um
sistema comprado nessas condições não é uma fonte de alegria, mas um ato
de resignação.
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O maior esforço da
indústria é nos convencer de que somos incapazes de saber o que é melhor
para nós mesmos.
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Ante os reviews,
marcas, medalhas e estrelas, nos portamos como crianças diante do guarda
de trânsito na porta da escola.
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Somos os melhores
campeões dos nossos adversários: veneramos os que abalam e deformam nossa
capacidade de julgamento pela exploração comercial da insegurança.
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Só pelo esforço
consciente – pelo equilíbrio entre razão e experiência – é possível
aceitar que o dinheiro não compra fidelidade, seja na cama ou na sala de
som.
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Aceite o axioma: a
tecnologia disponível gerou equipamentos de alto desempenho a custos
relativamente modestos. Já o preço é uma questão completamente diferente.
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De modo geral, não
é certo dizer que um produto é superior a outro ou vice-versa: todos –
pela imperfeição inerente às obra do Homem – têm vícios e virtudes que
acabam por constituir personalidades. Logo, um deles tem profunda
afinidade com você.
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De todos os
encantadores fenômenos da audição de “música em conserva”, nenhum é mais
dependente da acústica da sala de audição que o famigerado
soundstage. Supor que a eletrônica pode
“estabelecê-lo” é uma irreflexão. Dentro dos padrões de reprodução
elevados de nossa época, ele é inerente ao acionamento da tecla “power”.
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No labirinto da
Internet, alguém escreveu que a gravação X com o maestro Y foi considerada
por um crítico eminente como a melhor interpretação de uma determinada
obra em todos os tempos. Eis aí uma sucessão histórica de ousadias: a. um
cavalheiro foi capaz de supor que uma peça há cem anos no repertório pôde
ser esgotada por um único indivíduo; b. este mesmo cavalheiro arvorou-se o
poder de decidir quem foi este indivíduo entre centenas e centenas de
possibilidades, incluindo as que ele ainda não conhece; c. o cavalheiro se
julga um “crítico”.
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Se o crítico em
questão preludiou essa afirmativa tão pueril com uma asserção mais humilde
– algo no gênero “em minha opinião” -, retiro tudo o que disse.
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Se não o
fez, eis aí mais uma prova da absoluta inutilidade da crítica - o que
obviamente inclui meu copioso artigo. |
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