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18/02/10

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Máximas e Mínimas

©Ricardo Labuto Gondim
 

As gravações deveriam ser o princípio e o fim da audiofilia. Infelizmente, são apenas o meio.
 

Todas as belezas que você atribui ao seu sistema de áudio estão, antes de tudo, nas gravações.
 

Seu sistema de áudio não pode acrescentar a qualquer gravação uma só virtude que ela não contenha. Mas pode surpreendê-lo ao demonstrar que nosso poder de captar e registrar sons sempre esteve muito à frente da capacidade de reproduzi-los.
 

Tenho a gravação RCA do Fidelio de Toscanini (1944), e me impressiono com os detalhes que meu sistema é capaz de extrair dela. A sonoridade, contudo, continua empoeirada.
 

Podemos restaurar miraculosamente uma gravação, mas é impossível atualizar a sonoridade. Logo, com o meu Fidelio atingi uma felicidade extrema.
 

Reconhecer e aceitar a felicidade é um dos grandes desafios da experiência humana. 
 

Que coisa mais triste é tocar Beethoven para ouvir texturas e transientes...
 

É melhor ouvir um Beethoven bem tocado num sistema ruim, do que ouvi-lo com Abbado num sistema esplendido.

Investi tempo e dinheiro num sistema de áudio justamente para não ouvi-lo.
 

Amo música. Minha paixão por eletrônica é efeito colateral.
 

Com exceção da música de câmara para instrumentos de corda - cujos timbres são o desafio permanente da engenharia -, não é difícil registrar belas sonoridades em pequenos conjuntos.
 

Se eu ouvisse mais jazz, blues, pop e rock, não investiria minha gaita num sistema de áudio exageradamente “refinado”. Torraria o carvão excedente em discos prateados de 4,75 polegadas de diâmetro, capazes de conter as belezas mais transcendentes.
 

No Hi-Fi Show de 2003 ou 2004, não me recordo, cheguei antes do evento começar e pedi licença a um expositor para ouvir um CD terrível do Concerto n. 2 de Brahms. “É uma gravação muito ruim”, adverti. “Mas porque o senhor deseja ouvi-la?”. “Para ouvir gravações audiófilas, o que tenho em casa é suficiente”.
 

Gravações audiófilas não precisam de ajuda. Daí que não podem ser o fundamento de uma avaliação, muito menos de uma tomada de decisão.
 

Jorge Luis Borges escreveu que o dinheiro é a coisa mais imaterial do mundo. Pode representar um sorvete no parque ou a música de Brahms. Ainda que memorável, a sentença é estranha aos audiófilos que crêem que a música não pode prescindir da materialidade de um sistema vultoso.
 

Uma das maiores proezas do marketing foi a destruição da palavra “qualidade” – que hoje, significando tudo, não significa absolutamente nada.
 

Um sistema não pode ser eleito pela “qualidade”, que se tornou ainda mais imaterial que o dinheiro.
 

Um sistema deveria ser eleito unicamente pela AFINIDADE que estabelece entre a música e o ouvinte.
 

A afinidade é corrompida quando sofre a mediação de abstrações como “qualidade”, “marca” e “dinheiro”. Como sempre existem produtos mais famosos e mais caros, um sistema comprado nessas condições não é uma fonte de alegria, mas um ato de resignação.
 

O maior esforço da indústria é nos convencer de que somos incapazes de saber o que é melhor para nós mesmos.
 

Ante os reviews, marcas, medalhas e estrelas, nos portamos como crianças diante do guarda de trânsito na porta da escola.
 

Somos os melhores campeões dos nossos adversários: veneramos os que abalam e deformam nossa capacidade de julgamento pela exploração comercial da insegurança.
 

Só pelo esforço consciente – pelo equilíbrio entre razão e experiência – é possível aceitar que o dinheiro não compra fidelidade, seja na cama ou na sala de som.
 

Aceite o axioma: a tecnologia disponível gerou equipamentos de alto desempenho a custos relativamente modestos. Já o preço é uma questão completamente diferente.
 

De modo geral, não é certo dizer que um produto é superior a outro ou vice-versa: todos – pela imperfeição inerente às obra do Homem – têm vícios e virtudes que acabam por constituir personalidades. Logo, um deles tem profunda afinidade com você.
 

De todos os encantadores fenômenos da audição de “música em conserva”, nenhum é mais dependente da acústica da sala de audição que o famigerado soundstage. Supor que a eletrônica pode “estabelecê-lo” é uma irreflexão. Dentro dos padrões de reprodução elevados de nossa época, ele é inerente ao acionamento da tecla “power”.
 

No labirinto da Internet, alguém escreveu que a gravação X com o maestro Y foi considerada por um crítico eminente como a melhor interpretação de uma determinada obra em todos os tempos. Eis aí uma sucessão histórica de ousadias: a. um cavalheiro foi capaz de supor que uma peça há cem anos no repertório pôde ser esgotada por um único indivíduo; b. este mesmo cavalheiro arvorou-se o poder de decidir quem foi este indivíduo entre centenas e centenas de possibilidades, incluindo as que ele ainda não conhece; c. o cavalheiro se julga um “crítico”.
 

Se o crítico em questão preludiou essa afirmativa tão pueril com uma asserção mais humilde – algo no gênero “em minha opinião” -, retiro tudo o que disse.
 

Se não o fez, eis aí mais uma prova da absoluta inutilidade da crítica - o que obviamente inclui meu copioso artigo.


 

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Este site foi atualizado em 12/08/09