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Manuscrito encontrado
numa garrafa
©Ricardo Labuto Gondim
(NOVA VERSÃO do texto publicado na CAVI em 2005)
Imaginando o método para integrar um sistema de áudio à uma sala de audição
de modo absolutamente singular; postulando aplicações no campo da audiofilia
para o princípio da mínima ação de Maupertuis na perspectiva de um
complemento ortogonal; soslaiando a mais burlesca das tentações – a de ser
um gênio – vi-me órfão de alguns artigos de Heisenberg e Feynman, e busquei
abrigo sob as abóbadas da Biblioteca Nacional.
Explorando resignadamente o catálogo, encontrei uma ficha onde o tempo e a
ruína disputavam uma grafia austera e meticulosa: “Do uso dos espelhos no
jogo de xadrez”. A geométrica promessa do título revogou o tédio: seria
aquela obra um exemplo perfeito e acabado de complemento ortogonal?
Esperei quarenta e cinco minutos pelo livro, divertindo-me com uma revista
em quadrinhos – hábito da infância que me recuso a abandonar – e pensando no
que procurava entre a poeira e o mármore. O volume me foi entregue por uma
dama de rosto oriental, avental branco e luvas de tecido que pediu desculpas
pela demora: o livro não estava onde deveria estar.
A primeira impressão foi decepcionante. Imaginara um volume imenso, com
encadernação de couro costurada a mão, mas recebi uma brochura grossa e
encardida impressa pela Universidade de Coimbra em julho de 1908. Tratava-se
do fac-símile de uma obra célebre, cujo autor não é infreqüente nos livros
de escolástica.
Em folhas soltas e intercaladas a cada 12 páginas, a partir da página 36
encontrei o relato que transcrevo a seguir, escrito em papel do melhor numa
caligrafia sísmica. O texto está incompleto. Falta a primeira página – ou,
suponho, as duas primeiras. As quatro linhas iniciais estão ilegíveis.
Reproduzo o que li sem nada omitir ou acrescentar:
“...e eu disse à Rafaela que na idade em que os jovens são ainda meninos eu
já era um homem. Antes de completar dezoito anos já havia esgotado
Shakespeare e freqüentado Einstein pelas mãos de Russel; já havia enterrado
dois cães e quatro avós; já havia amado uma mulher soberba em lençóis de
linho egípcio; já havia fugido de casa; já havia conhecido vinhos e
lareiras; já havia visto fantasmas e duvidado deles; já havia vivido muito,
visto muito, lido muito, pensado muito, e agora que estava maduro, também
estava farto de tudo. Pedi a Rafaela que arrumasse suas coisas e partisse.
Me detive um momento na varanda observando o rastro de poeira que a
caminhonete ergueu na estrada de terra... que não tolera vestígios.
Finalmente tomei posse da montanha que já era minha.
Ainda moço, deliberadamente abrira mão dos outros para me concentrar num
outro: o eu que eu queria ser. Um ente de lógica implacável, um pensador
puro e sem paixão. Mas fui corrompido pela beleza exponencial de Bach,
Beethoven, Brahms e todos os outros B – como Mozart, que arrebatara
Einstein. A pureza de pensamento que eu buscava se diluiu, e minha tendência
à monomania se cristalizou no mundo da reprodução eletrônica dos sons: a
audiofilia.
No princípio eu era um desses eleitos que se atém à música em si. Além do
limite que presumia racionalmente aceitável, a fidelidade na reprodução não
me interessava. Pouco a pouco esta indiferença soou como um obstáculo:
somente pela reprodução das mais tênues e inefáveis sutilezas sonoras
podemos compreender o arco da composição em simultaneidade com suas
microestruturas.
Os equipamentos se sucederam um após o outro infinitamente. O dinheiro não
era problema: de quatro gerações de infatigáveis empreendedores – alguns de
caráter duvidoso, outros sem caráter – herdei o cofre e a ambição. Cada
detalhe, cada componente de um sistema de áudio foi exaustivamente
investigado e testado. Acumulei racks, spikes e suportes; toca-discos,
braços, rolos e reprodutores digitais; prés ativos e passivos; cabos
notáveis e místicos; amplificadores a válvula, a transistor e a mistério;
caixas clássicas, arrojadas e absurdas.
Nada me satisfazia. Num lampejo de lucidez percebi que já não ouvia música,
só a arte e os ardis da indústria; já não escutava as obras, mas os próprios
equipamentos e o labor das gravações. Breve fulgor esta clareza: sem pudor,
abandonei as performances graníticas e essenciais em detrimento do melhor
som. Troquei os luminares do pódio pela frieza dos bits e supus que era
feliz. Foi quando comprei a vasta propriedade no alto da serra, isolando-me
da civilização que gera vibrações excessivas e da humanidade, que já não me
interessava. Com os dentes
e os seios que
o meu dinheiro mandara edificar, a materialidade vazia e ruiva de Rafaela
era suficiente. Aproximando-me do cume – a casa concluída e preparada, uma
roda de moinho e imensas células solares nutrindo acumuladores da energia
mais cristalina – senti-me um conquistador e pensei em Alexandre.
Ao invadir a Górdia – assim conta a lenda – Alexandre da Macedônia se
deparou com um imenso novelo de corda, o emaranhado inextrincável de um fio
quase infinito. Quem desatasse o nó seria proclamado rei. O discípulo de
Aristóteles refletiu um instante, sacou da espada, partiu o nó em dois e foi
aclamado deus. Percebi que a audiofilia ainda estava à espera do seu
Alexandre. Alguém capaz de encarar os problemas de um modo inteiramente
novo, propondo soluções inesperadas e radicais. Alguém capaz de se colocar
no complemento ortogonal do ponto onde todos os outros estavam. Talvez esse
alguém fosse eu.
Atirei-me com inteligência na dimensão misteriosa dos tubos de vácuo, dos
silícios impuros, dos óxidos metálicos. Estudei até sangrar. Julgando que a
História e a geografia me deviam algo, explorei a física de Berna ao MIT,
passando por Los Alamos e por Copenhague. Entendi a auto-interação, as
integrais de caminho, o operador de Green, o formalismo lagrangeano e o
formalismo quântico. Projetei cabos coerentes, tweeters a gás e
alto-falantes iônicos. Testei mais materiais para cones do que Edson testou
filamentos para a lâmpada elétrica. Construí caixas que não saberia
descrever. Já não ouvia música: apenas testava, testava e testava em noites
que sucumbiam muito rapidamente. Nada era digno de um ouvido invulgar,
faminto e insaciável. Foi quando Rafaela, consumida de hormônios, desespero
e tédio ameaçou me deixar. Poupei-lhe o trabalho, mandei-a embora.
Meses mais tarde, num momento de extrema fadiga e ansiedade, me detive sobre
um livro de história da arte que o acaso preservara. O livro discorria sobre
a evolução da perspectiva na pintura, do Egito bidimensional ao múltiplo
Juízo renascentista. Imediatamente compreendi: a perspectiva não era um
fato, mas uma convenção. Mesmo o “Cristo Morto” de Mantegna tem apenas duas
dimensões – não é nada além de um quadro. A evolução da perspectiva é a
história da adaptação progressiva do cérebro humano para aceitar a convenção
de uma terceira dimensão onde somente duas podem existir. Eis o que é a
gravação de uma execução musical: uma convenção, um simulacro.
Uma gravação tocada por um sistema de áudio não é uma exatamente uma
“reprodução”, mas uma “simulação” que meu cérebro reconhece segundo as
convenções da época. Entendi que, ou o meu cérebro é incapaz de aceitar o
código, ou a minha razão se obstina em desmascará-lo.
Tendo a semântica revelado a miragem que a eletrônica perseguia, pus-me a
catalogar meus atavismos. Tudo está errado. Do modo como captamos e gravamos
o som ao modo como o “reproduzimos”. O primeiro conceito que devo
aniquilar – disse em voz alta – é a paixão anacrônica e demasiado
humana por simetria e proporção. Mesmo uma sala de audição assimétrica
obedece a relações entre proporção e tempo: assimetria é simetria. O que
eu quero – postulei – não está na ordem, mas no caos. Levantei-me
deixando para trás a física clássica, cambaleei exausto e sedento de novas
idéias, caí como cai um corpo morto e dormi 25 horas. Quem acordou foi um
outro eu.
Meu novo nascimento exige o entendimento da simetria por uma perspectiva
inteiramente nova ou esquecida – e sua demolição. A obra necessária é “Do
uso dos espelhos no jogo de xadrez”. Onde encontrá-la deixarei este
registro, pois muitos me seguirão: não se pode adiar o futuro”.
*
Anônima e abrupta, assim termina a narrativa.
Buscando um livro sobre espelhos numa biblioteca, encontrei a imagem
amplificada e distorcida de mim mesmo. Copiei o relato, devolvi o manuscrito
ao seu túmulo mofado, fechei o livro sem ler e saí angustiado, sem imaginar
que ainda faria outra descoberta.
Em casa, um pacote
enviado pelo representante da Creative me esperava. Abrindo, me
deliciei com a embalagem arrojada do jukebox que havia pedido para
experimentar. Não querendo pensar em nada, me pus a pensar em outra coisa.
Com o aparelho inflado de música saí para caminhar, deixando para trás o
manuscrito que encontrei numa garrafa.
Passei duas semanas com o jukebox. Ouvi música em ruas barulhentas,
numa floresta, em vans, em ônibus confortáveis e deitado na cama, no escuro.
Quando meu estado de ânimo mudava, me deliciava com a virtude – pois essa é
a grande virtude – de escolher entre centenas de gravações diferentes
armazenadas na Biblioteca de Alexandria em minha cintura. Ao longo desses
dias incômodos – em razão do manuscrito, não do jukebox que
decretou a súbita extinção do meu discman – uma peça tornou-se
recorrente: o Prelúdio op. 23, N° 5 de Rachmaninov.
Eu o gravei no jukebox em três versões: Richter, Ashkenazy e Horowitz.
A primeira é impecável – na verdade, tão perfeita e acabada que parece ter
sido executada por uma máquina, evento incomum num mestre sublime. Ashkenazy
é seguramente um dos grandes intérpretes de Rachmaninov. A versão de
Horowitz é o bis de uma gravação ao vivo de 1981 no Metropolitan, relançada
pela série High Performance da RCA e remasterizada pelo
sistema Weiss de 24/96 bits. Precisamente na recapitulação do Prelúdio, nos
compassos em que a partitura assinala fortes duplos, Horowitz executa fortes
triplos levando a ingrata reverberação do Steinway ao paroxismo – e
questionando as alardeadas virtudes do processo Weiss. Há muitas notas sujas
também, com os dedos expandindo e fraudando acordes nas passagens mais
rápidas e articuladas. No conjunto, a versão monumental, inexorável e
definitiva na sua beleza, na sua aspereza, nos seus erros e na compreensão
dos sentimentos que uniram – num tempo e num espaço assimétricos – um
compositor morto e seu intérprete.
Hoje, iniciando este artigo, tive que digitar o manuscrito e me senti
novamente perturbado. Então – como aquele autor apócrifo – entendi: neste
momento, diante do teclado, sou como qualquer escritor, profissional ou não.
Neste momento também sou o autor daquele manuscrito, também sou o outro, mas
com a compreensão de que a busca da perfeição – que em graus diferentes
existe nele e em mim – pode vir a ser a erradicação do Humano, a traição do
espírito da música, escrita por seres humanos para ser executada por outros
seres humanos – com toda a aspereza, suavidade, beleza e com todos os erros
de que o ser humano é capaz. Hoje, descobri que meu artigo não é sobre o
manuscrito de um autor sem nome, nem sobre um equipamento de áudio portátil.
É sobre um texto que versaria a respeito do princípio da mínima ação de
Maupertuis na perspectiva do complemento ortogonal – que jamais escreverei. |