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09/09/10

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Manuscrito encontrado numa garrafa

©Ricardo Labuto Gondim
(NOVA VERSÃO do texto publicado na CAVI em 2005)
 

Imaginando o método para integrar um sistema de áudio à uma sala de audição de modo absolutamente singular; postulando aplicações no campo da audiofilia para o princípio da mínima ação de Maupertuis na perspectiva de um complemento ortogonal; soslaiando a mais burlesca das tentações – a de ser um gênio – vi-me órfão de alguns artigos de Heisenberg e Feynman, e busquei abrigo sob as abóbadas da Biblioteca Nacional.

Explorando resignadamente o catálogo, encontrei uma ficha onde o tempo e a ruína disputavam uma grafia austera e meticulosa: “Do uso dos espelhos no jogo de xadrez”. A geométrica promessa do título revogou o tédio: seria aquela obra um exemplo perfeito e acabado de complemento ortogonal?

Esperei quarenta e cinco minutos pelo livro, divertindo-me com uma revista em quadrinhos – hábito da infância que me recuso a abandonar – e pensando no que procurava entre a poeira e o mármore. O volume me foi entregue por uma dama de rosto oriental, avental branco e luvas de tecido que pediu desculpas pela demora: o livro não estava onde deveria estar.

A primeira impressão foi decepcionante. Imaginara um volume imenso, com encadernação de couro costurada a mão, mas recebi uma brochura grossa e encardida impressa pela Universidade de Coimbra em julho de 1908. Tratava-se do fac-símile de uma obra célebre, cujo autor não é infreqüente nos livros de escolástica.

Em folhas soltas e intercaladas a cada 12 páginas, a partir da página 36 encontrei o relato que transcrevo a seguir, escrito em papel do melhor numa caligrafia sísmica. O texto está incompleto. Falta a primeira página – ou, suponho, as duas primeiras. As quatro linhas iniciais estão ilegíveis. Reproduzo o que li sem nada omitir ou acrescentar:

“...e eu disse à Rafaela que na idade em que os jovens são ainda meninos eu já era um homem. Antes de completar dezoito anos já havia esgotado Shakespeare e freqüentado Einstein pelas mãos de Russel; já havia enterrado dois cães e quatro avós; já havia amado uma mulher soberba em lençóis de linho egípcio; já havia fugido de casa; já havia conhecido vinhos e lareiras; já havia visto fantasmas e duvidado deles; já havia vivido muito, visto muito, lido muito, pensado muito, e agora que estava maduro, também estava farto de tudo. Pedi a Rafaela que arrumasse suas coisas e partisse. Me detive um momento na varanda observando o rastro de poeira que a caminhonete ergueu na estrada de terra... que não tolera vestígios. Finalmente tomei posse da montanha que já era minha.

Ainda moço, deliberadamente abrira mão dos outros para me concentrar num outro: o eu que eu queria ser. Um ente de lógica implacável, um pensador puro e sem paixão. Mas fui corrompido pela beleza exponencial de Bach, Beethoven, Brahms e todos os outros B – como Mozart, que arrebatara Einstein. A pureza de pensamento que eu buscava se diluiu, e minha tendência à monomania se cristalizou no mundo da reprodução eletrônica dos sons: a audiofilia.

No princípio eu era um desses eleitos que se atém à música em si. Além do limite que presumia racionalmente aceitável, a fidelidade na reprodução não me interessava. Pouco a pouco esta indiferença soou como um obstáculo: somente pela reprodução das mais tênues e inefáveis sutilezas sonoras podemos compreender o arco da composição em simultaneidade com suas microestruturas.

Os equipamentos se sucederam um após o outro infinitamente. O dinheiro não era problema: de quatro gerações de infatigáveis empreendedores – alguns de caráter duvidoso, outros sem caráter – herdei o cofre e a ambição. Cada detalhe, cada componente de um sistema de áudio foi exaustivamente investigado e testado. Acumulei racks, spikes e suportes; toca-discos, braços, rolos e reprodutores digitais; prés ativos e passivos; cabos notáveis e místicos;  amplificadores a válvula, a transistor e a mistério; caixas clássicas, arrojadas e absurdas.

Nada me satisfazia. Num lampejo de lucidez percebi que já não ouvia música, só a arte e os ardis da indústria; já não escutava as obras, mas os próprios equipamentos e o labor das gravações. Breve fulgor esta clareza: sem pudor, abandonei as performances graníticas e essenciais em detrimento do melhor som. Troquei os luminares do pódio pela frieza dos bits e supus que era feliz. Foi quando comprei a vasta propriedade no alto da serra, isolando-me da civilização que gera vibrações excessivas e da humanidade, que já não me interessava. Com os dentes e os seios que o meu dinheiro mandara edificar, a materialidade vazia e ruiva de Rafaela era suficiente. Aproximando-me do cume – a casa concluída e preparada, uma roda de moinho e imensas células solares nutrindo acumuladores da energia mais cristalina – senti-me um conquistador e pensei em Alexandre.

Ao invadir a Górdia – assim conta a lenda – Alexandre da Macedônia se deparou com um imenso novelo de corda, o emaranhado inextrincável de um fio quase infinito. Quem desatasse o nó seria proclamado rei. O discípulo de Aristóteles refletiu um instante, sacou da espada, partiu o nó em dois e foi aclamado deus. Percebi que a audiofilia ainda estava à espera do seu Alexandre. Alguém capaz de encarar os problemas de um modo inteiramente novo, propondo soluções inesperadas e radicais. Alguém capaz de se colocar no complemento ortogonal do ponto onde todos os outros estavam. Talvez esse alguém fosse eu.

Atirei-me com inteligência na dimensão misteriosa dos tubos de vácuo, dos silícios impuros, dos óxidos metálicos. Estudei até sangrar. Julgando que a História e a geografia me deviam algo, explorei a física de Berna ao MIT, passando por Los Alamos e por Copenhague. Entendi a auto-interação, as integrais de caminho, o operador de Green, o formalismo lagrangeano e o formalismo quântico. Projetei cabos coerentes, tweeters a gás e alto-falantes iônicos. Testei mais materiais para cones do que Edson testou filamentos para a lâmpada elétrica. Construí caixas que não saberia descrever. Já não ouvia música: apenas testava, testava e testava em noites que sucumbiam muito rapidamente. Nada era digno de um ouvido invulgar, faminto e insaciável. Foi quando Rafaela, consumida de hormônios, desespero e tédio ameaçou me deixar. Poupei-lhe o trabalho, mandei-a embora.

Meses mais tarde, num momento de extrema fadiga e ansiedade, me detive sobre um livro de história da arte que o acaso preservara. O livro discorria sobre a evolução da perspectiva na pintura, do Egito bidimensional ao múltiplo Juízo renascentista. Imediatamente compreendi: a perspectiva não era um fato, mas uma convenção. Mesmo o “Cristo Morto” de Mantegna tem apenas duas dimensões – não é nada além de um quadro. A evolução da perspectiva é a história da adaptação progressiva do cérebro humano para aceitar a convenção de uma terceira dimensão onde somente duas podem existir. Eis o que é a gravação de uma execução musical: uma convenção, um simulacro.

Uma gravação tocada por um sistema de áudio não é uma exatamente uma “reprodução”, mas uma “simulação” que meu cérebro reconhece segundo as convenções da época. Entendi que, ou o meu cérebro é incapaz de aceitar o código, ou a minha razão se obstina em desmascará-lo.

Tendo a semântica revelado a miragem que a eletrônica perseguia, pus-me a catalogar meus atavismos. Tudo está errado. Do modo como captamos e gravamos o som ao modo como o “reproduzimos”. O primeiro conceito que devo aniquilar – disse em voz alta – é a paixão anacrônica e demasiado humana por simetria e proporção. Mesmo uma sala de audição assimétrica obedece a relações entre proporção e tempo: assimetria é simetria. O que eu quero – postulei – não está na ordem, mas no caos. Levantei-me deixando para trás a física clássica, cambaleei exausto e sedento de novas idéias, caí como cai um corpo morto e dormi 25 horas. Quem acordou foi um outro eu.

Meu novo nascimento exige o entendimento da simetria por uma perspectiva inteiramente nova ou esquecida – e sua demolição. A obra necessária é “Do uso dos espelhos no jogo de xadrez”. Onde encontrá-la deixarei este registro, pois muitos me seguirão: não se pode adiar o futuro”.

*

Anônima e abrupta, assim termina a narrativa.

Buscando um livro sobre espelhos numa biblioteca, encontrei a imagem amplificada e distorcida de mim mesmo. Copiei o relato, devolvi o manuscrito ao seu túmulo mofado, fechei o livro sem ler e saí angustiado, sem imaginar que ainda faria outra descoberta. 

Em casa, um pacote enviado pelo representante da Creative me esperava. Abrindo, me deliciei com a embalagem arrojada do jukebox que havia pedido para experimentar. Não querendo pensar em nada, me pus a pensar em outra coisa. Com o aparelho inflado de música saí para caminhar, deixando para trás o manuscrito que encontrei numa garrafa.

Passei duas semanas com o jukebox. Ouvi música em ruas barulhentas, numa floresta, em vans, em ônibus confortáveis e deitado na cama, no escuro. Quando meu estado de ânimo mudava, me deliciava com a virtude – pois essa é a grande virtude – de escolher entre centenas de gravações diferentes armazenadas na Biblioteca de Alexandria em minha cintura. Ao longo desses dias incômodos – em razão do manuscrito, não do jukebox que decretou a súbita extinção do meu discman – uma peça tornou-se recorrente: o Prelúdio op. 23, N° 5 de Rachmaninov.

Eu o gravei no jukebox em três versões: Richter, Ashkenazy e Horowitz. A primeira é impecável – na verdade, tão perfeita e acabada que parece ter sido executada por uma máquina, evento incomum num mestre sublime. Ashkenazy é seguramente um dos grandes intérpretes de Rachmaninov. A versão de Horowitz é o bis de uma gravação ao vivo de 1981 no Metropolitan, relançada pela série High Performance da RCA e remasterizada pelo sistema Weiss de 24/96 bits. Precisamente na recapitulação do Prelúdio, nos compassos em que a partitura assinala fortes duplos, Horowitz executa fortes triplos levando a ingrata reverberação do Steinway ao paroxismo – e questionando as alardeadas virtudes do processo Weiss. Há muitas notas sujas também, com os dedos expandindo e fraudando acordes nas passagens mais rápidas e articuladas. No conjunto, a versão monumental, inexorável e definitiva na sua beleza, na sua aspereza, nos seus erros e na compreensão dos sentimentos que uniram – num tempo e num espaço assimétricos – um compositor morto e seu intérprete.

Hoje, iniciando este artigo, tive que digitar o manuscrito e me senti novamente  perturbado. Então – como aquele autor apócrifo – entendi: neste momento, diante do teclado, sou como qualquer escritor, profissional ou não. Neste momento também sou o autor daquele manuscrito, também sou o outro, mas com a compreensão de que a busca da perfeição – que em graus diferentes existe nele e em mim – pode vir a ser a erradicação do Humano, a traição do espírito da música, escrita por seres humanos para ser executada por outros seres humanos – com toda a aspereza, suavidade, beleza e com todos os erros de que o ser humano é capaz. Hoje, descobri que meu artigo não é sobre o manuscrito de um autor sem nome, nem sobre um equipamento de áudio portátil. É sobre um texto que versaria a respeito do princípio da mínima ação de Maupertuis na perspectiva do complemento ortogonal – que jamais escreverei.

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Este site foi atualizado em 12/08/09