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Se você se debruçar criticamente sobre
uma dada categoria profissional, vai perceber que pelo menos 50% dos
jargões manifestam algum tipo de insegurança ou ambição.
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Para manter o controle do ofício,
resguardar-se de intrusos em geral e promover a fatuidade de um “status”,
categorias profissionais criam dialetos extensos que, no fundo, tendem à
imprecisão. Aliás, é para isso que eles são criados.
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Um exemplo amador do fenômeno é o
dialeto audiófilo, que nos torna enigmáticos, singulares ou quase
grandiosos diante de esposas, namoradas e jovens de até 12 anos. Dos 12 em
diante eles começam a descobrir nossas fraudes.
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Aplicada aos marqueteiros, uma
sociologia de botequim pode revelar um percentual de insegurança e vaidade
alarmantes. O dialeto básico do marketing oscila entre a língua
inglesa e um português corrompido. Em geral, marqueteiros brasileiros não
“iniciam” processos, que são startados. Quando perguntam algo não
esperam “resposta”, mas um feedback. A alienação da categoria é tão
grande que eles não conseguem “imprimir” os seus papers, que são
printados. Em compensação formam a classe mais otimista do mundo: não
enfrentam "problemas", mas cases; não encaram "pepinos", mas
"desafios".
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A língua inglesa é o primeiro refúgio
do marqueteiro medíocre. E a publicidade, a bóia de salvação.
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Claro, existem exceções
notáveis, destacando-se pela precisão com que decifram nossas fragilidades
e anseios. Como Julio Ribeiro, que escreveu Fazer acontecer (Cultura
Editores, 1998) com a clareza dos sábios e a elegância dos
eleitos. As frases são lapidares, lastreadas de cultura e beleza.
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Traduzidos numa linguagem
compreensível ao meu filho de 10 anos, os conceitos do livro deveriam
constar do currículo das escolas de primeiro grau. Não vivemos numa
“sociedade da informação”? Pois deveríamos ensinar nossas crianças a
decifrar os códigos e as intenções por trás da informação. Especialmente
da informação não solicitada.
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Pensar é sonhar.
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Marketing e publicidade apóiam-se num
pilar de duas traves: nossa alienação induzida e nossa alienação
voluntária. A primeira é trágica. A segunda, uma necessidade biológica.
Como ouvir música.
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Para mim, ouvir uma sinfonia é a forma
mais sublime e saudável de tirar o mundo da tomada.
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Em Fazer acontecer, Julio
Ribeiro explica uma verdade básica do marketing: em
testes cegos, pouca gente percebe a diferença entre marcas de cerveja,
uísque ou cigarro.
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Eis porque sua revista de áudio
favorita – sob exaltados argumentos de uma ética volátil bem
contemporânea – repudia os
testes cegos: para sustentar a mitomania das marcas que pagam o champanhe
e o caviar.
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Eis porque os críticos em
geral – sob pudicos argumentos de uma a ética volátil bem
contemporânea – renegam os testes cegos: para preservar reputações que se
erguem a partir de dados muito frágeis e puramente abstratos.
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De quem é a culpa? Do marketing da
indústria? Que ninguém se engane quanto a sua eficiência. Mas não se deixe
iludir pelos “planejamentos” concebidos a posteriori por certos espíritos penetrantes. O mercado é como um tecido vivo.
Os réus
somos nós.
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Poucos audiófilos têm segurança para
valorizar o que é barato. E menos ainda de afirmar – legitimamente, é claro
– o que é inapelavelmente caro. Logo, não basta ter um produto excelente
para atirar-se à rinha de galo do mercado de áudio. Quem quer vender
precisa arbitrar o exorbitante.
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A insegurança do
consumidor de áudio é inflacionária.
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O consumidor de áudio
é o mais inseguro do mundo. É intimidado pelo ideal de sinergia; pela
gratuidade dos itens das avaliações; pela estreita relação entre
preço, medalhas e estrelinhas; pela ameaça do desfalque da hipoteca; pelas
lendas, mitos e fantasias; pelo dever de não desapontar seus pares, fazer
amigos e
impressionar visitas.
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Boa parte dos audiófilos
se deixa orientar por colegas que recomendam aos outros aquilo que eles mesmos
não comprariam.
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Boa parte dos audiófilos
se deixa orientar por colegas que recomendam aos outros o que só foi
ouvido em revistas.
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Boa parte dos audiófilos
se deixa orientar por colegas que se deixam orientar pela fantasia das
marcas e pelo adágio “só o caro é bom”.
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Boa parte dos audiófilos
não troca um fusível sem consultar um oráculo. E como até mesmo o estudo dos duendes
tem lá a sua epistemologia, vivemos uma permanente ilusão de ciência, onde
a ficção e a mágica podem ser justificadas.
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Esse cientificismo romântico – ou
pós-moderno, como queira – é contagiante. Muitos melômanos puros – os
verdadeiros eleitos – se sentem constrangidos à audiofilia.
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A única razão para ser audiófilo é
importar-se excessivamente com o quesito “sonoridade”.
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Não existe virtude na audiofilia.
Assim como não existe virtude em sentir fome, sede ou desejo.
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Os homens compram a Playboy e a
Geográfica Universal pelo mesmo motivo: conhecer os lugares aos quais
nunca vão. Fetiche semelhante arrasta milhares de leitores às revistas e
sites de arquitetura, decoração, automobilismo... e áudio.
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Sonhar é fundamental. Mas frustrar-se
por uma miragem é um triste exercício de inutilidade.
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Cunhei o termo puro-audiófilo
para
designar o infeliz que usa a música como pretexto para ouvir aparelhos.
Esse estado lamentável – a corrupção da audiofilia – é a fusão a frio
entre hedonismo e onanismo.
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Uma das coisas mais tristes que já li
foi o texto de um puro-audiófilo explicando que só ouve música clássica
gravada a partir da década de 80. A razão tem alguma coisa a ver com
“palco” e outras perfeições. Além de elevar o autor ao nível mais
epidérmico da superficialidade, esse estado lamentável deveria nos servir
de alerta.
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Sejamos lúcidos: o quesito
“sonoridade” é inerente à música. Logo, não há ouvinte de música que
não se deixe arrebatar exclusivamente por ele em um ou outro momento.
Referindo-me aí em cima à "Boa parte dos audiófilos", recorri a um
eufemismo para "eu e você". Por mais firme que esteja um homem é
somente vaidade - e fragilidade. Sempre existe um momento de vacilação.
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Um ouvido privilegiado
não é garantia contra a insegurança.
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Se o puro-audiófilo é uma contradição,
o audiófilo é um paradoxo. E a distância entre os dois, menor que a lâmina
de uma faca.
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Sou audiófilo. Tenho medo
de perder
a lucidez. Aliás, já não sei se a tenho. |