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09/09/10

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Guia para os inseguros

©Ricardo Labuto Gondim
 

Se você se debruçar criticamente sobre uma dada categoria profissional, vai perceber que pelo menos 50% dos jargões manifestam algum tipo de insegurança ou ambição.
 

Para manter o controle do ofício, resguardar-se de intrusos em geral e promover a fatuidade de um “status”, categorias profissionais criam dialetos extensos que, no fundo, tendem à imprecisão. Aliás, é para isso que eles são criados.
 

Um exemplo amador do fenômeno é o dialeto audiófilo, que nos torna enigmáticos, singulares ou quase grandiosos diante de esposas, namoradas e jovens de até 12 anos. Dos 12 em diante eles começam a descobrir nossas fraudes.
 

Aplicada aos marqueteiros, uma sociologia de botequim pode revelar um percentual de insegurança e vaidade alarmantes. O dialeto básico do marketing oscila entre a língua inglesa e um português corrompido. Em geral, marqueteiros brasileiros não “iniciam” processos, que são startados.  Quando perguntam algo não esperam “resposta”, mas um feedback. A alienação da categoria é tão grande que eles não conseguem “imprimir” os seus papers, que são printados. Em compensação formam a classe mais otimista do mundo: não enfrentam "problemas", mas cases;  não encaram "pepinos", mas "desafios".
 

A língua inglesa é o primeiro refúgio do marqueteiro medíocre. E a publicidade, a bóia de salvação.
 

Claro, existem exceções notáveis, destacando-se pela precisão com que decifram nossas fragilidades e anseios. Como Julio Ribeiro, que escreveu Fazer acontecer (Cultura Editores, 1998) com a clareza dos sábios e a elegância dos eleitos. As frases são lapidares, lastreadas de cultura e beleza.
 

Traduzidos numa linguagem compreensível ao meu filho de 10 anos, os conceitos do livro deveriam constar do currículo das escolas de primeiro grau. Não vivemos numa “sociedade da informação”? Pois deveríamos ensinar nossas crianças a decifrar os códigos e as intenções por trás da informação. Especialmente da informação não solicitada.
 

Pensar é sonhar.
 

Marketing e publicidade apóiam-se num pilar de duas traves: nossa alienação induzida e nossa alienação voluntária. A primeira é trágica. A segunda, uma necessidade biológica. Como ouvir música.
 

Para mim, ouvir uma sinfonia é a forma mais sublime e saudável de tirar o mundo da tomada.
 

Em Fazer acontecer, Julio Ribeiro explica uma verdade básica do marketing: em testes cegos, pouca gente percebe a diferença entre marcas de cerveja, uísque ou cigarro.
 

Eis porque sua revista de áudio favorita – sob exaltados argumentos de uma ética volátil bem contemporânea – repudia os testes cegos: para sustentar a mitomania das marcas que pagam o champanhe e o caviar.
 

Eis porque os críticos em geral – sob pudicos argumentos de uma a ética volátil bem contemporânea – renegam os testes cegos: para preservar reputações que se erguem a partir de dados muito frágeis e puramente abstratos.
 

De quem é a culpa? Do marketing da indústria? Que ninguém se engane quanto a sua eficiência. Mas não se deixe iludir pelos “planejamentos” concebidos a posteriori por certos espíritos penetrantes. O mercado é como um tecido vivo. Os réus somos nós.
 

Poucos audiófilos têm segurança para valorizar o que é barato. E menos ainda de afirmar – legitimamente, é claro – o que é inapelavelmente caro. Logo, não basta ter um produto excelente para atirar-se à rinha de galo do mercado de áudio. Quem quer vender precisa arbitrar o exorbitante.
 

A insegurança do consumidor de áudio é inflacionária.
 

O consumidor de áudio é o mais inseguro do mundo. É intimidado pelo ideal de sinergia; pela gratuidade dos itens das avaliações; pela estreita relação entre preço, medalhas e estrelinhas; pela ameaça do desfalque da hipoteca; pelas lendas, mitos e fantasias; pelo dever de não desapontar seus pares, fazer amigos e impressionar visitas.
 

Boa parte dos audiófilos se deixa orientar por colegas que recomendam aos outros aquilo que eles mesmos não comprariam.
 

Boa parte dos audiófilos se deixa orientar por colegas que recomendam aos outros o que só foi ouvido em revistas.
 

Boa parte dos audiófilos se deixa orientar por colegas que se deixam orientar pela fantasia das marcas e pelo adágio “só o caro é bom”.
 

Boa parte dos audiófilos não troca um fusível sem consultar um oráculo. E como até mesmo o estudo dos duendes tem lá a sua epistemologia, vivemos uma permanente ilusão de ciência, onde a ficção e a mágica podem ser justificadas.
 

Esse cientificismo romântico – ou pós-moderno, como queira – é contagiante. Muitos melômanos puros – os verdadeiros eleitos – se sentem constrangidos à audiofilia.
 

A única razão para ser audiófilo é importar-se excessivamente com o quesito “sonoridade”.
 

Não existe virtude na audiofilia. Assim como não existe virtude em sentir fome, sede ou desejo.
 

Os homens compram a Playboy e a Geográfica Universal pelo mesmo motivo: conhecer os lugares aos quais nunca vão. Fetiche semelhante arrasta milhares de leitores às revistas e sites de arquitetura, decoração, automobilismo... e áudio.  
 

Sonhar é fundamental. Mas frustrar-se por uma miragem é um triste exercício de inutilidade
 

Cunhei o termo puro-audiófilo para designar o infeliz que usa a música como pretexto para ouvir aparelhos. Esse estado lamentável – a corrupção da audiofilia – é a fusão a frio entre hedonismo e onanismo.
 

Uma das coisas mais tristes que já li foi o texto de um puro-audiófilo explicando que só ouve música clássica gravada a partir da década de 80. A razão tem alguma coisa a ver com “palco” e outras perfeições. Além de elevar o autor ao nível mais epidérmico da superficialidade, esse estado lamentável deveria nos servir de alerta.
 

Sejamos lúcidos: o quesito “sonoridade” é inerente à música. Logo, não há ouvinte de música que não se deixe arrebatar exclusivamente por ele em um ou outro momento. Referindo-me aí em cima à "Boa parte dos audiófilos", recorri a um eufemismo para "eu e você". Por mais firme que esteja um homem é somente vaidade - e fragilidade. Sempre existe um momento de vacilação.
 

Um ouvido privilegiado não é garantia contra a insegurança.
 

Se o puro-audiófilo é uma contradição, o audiófilo é um paradoxo. E a distância entre os dois, menor que a lâmina de uma faca.
 

Sou audiófilo. Tenho medo de perder a lucidez. Aliás, já não sei se a tenho.

*

O tema não se esgota aqui. Leia também:

Dois contos e uma fábula

O Papel da imprensa de áudio

Crítica da Ambivalência

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Este site foi atualizado em 12/08/09