áudio: imprensa de áudio

18/02/10

Home
áudio: audiófilos
áudio: audiofilia
áudio: matchpoint
áudio: edifier x200
áudio: merda
áudio: sonoridades
áudio: sociologia do fasano
áudio: insegurança
áudio: webht
áudio: prexis 216
áudio: imprensa de áudio
áudio: cabo ultra xt
áudio: máximas
áudio: cabo aw 500s
áudio: chuva
áudio: manual da crítica
áudio: contos morais
áudio: pré de phono
áudio: psicanálise
áudio: diálogos
áudio: luxúria
áudio: aviação
áudio: trifônico
áudio: sistemas digitais
áudio: entomologia
áudio: literatura

 


 
 


     
 

O Papel da imprensa de áudio

©Ricardo Labuto Gondim
 

O modelo atual da imprensa de áudio agoniza. A falência múltipla dos seus órgãos parece iminente. Num quadro de incertezas e poucas esperanças, os leitores mais profiláticos desenvolveram um mecanismo de defesa: a decifração das entrelinhas dos reviews.

Como todo processo divinatório, o método é tão impreciso quanto imprudente. Ocorrência bastante comum, buscando nas entrelinhas o leitor pode encontrar pensamentos que ele mesmo engendrou - ou “descobrir” o que jamais existiu.

São muitas as razões para a ruína do modelo, e gostaria de discutir com você as mais evidentes:

a. o comprometimento comercial inevitável

Se o preço de capa da sua revista de áudio favorita custa quinze dólares, acredite, ainda assim é uma pechincha. Um produto gráfico impresso em quatro cores custa caro. Muito caro.

No Brasil, a maioria das publicações não pagam seus colaboradores, que trabalham pelo pecado da vaidade ou por amor a causa da informática, da enologia ou da jardinagem. Seguindo o exemplo da humanidade em geral, os brasileiros lêem em pouco. E nossas revistas não podem ser exportadas porque são escritas no código criptográfico compilado por Camões.

Se não fosse a publicidade amortizando custos e financiando o uísque dos editores, sua revista preferida custaria muito mais do que você estaria disposto a pagar. A questão é que por traz de cada anúncio se ergue um anunciante; o homem que detém a pena que assina o cheque, muito mais poderosa que a pena que assina o artigo.

Essa verdade tão ingênua costuma escandalizar os incautos que tentam constituir uma visão crítica do mundo, mas que não conhecem Marx nem Kant, só Walt Disney.

Se você se debruçar sobre tais questões, vai concluir sem esforço que a ingerência dos anunciantes enfraqueceu o principal produto dos veículos, que não é a informação, mas a credibilidade. Sim, rapaz, o ponto é este: a informação é o produto do anunciante; o produto da revista é ou deveria ser a opinião confiável.

Alguns veículos pretendem oferecer Verdades, que têm grande aceitação popular. A Verdade, seja lá o que for isso é a suspensão do raciocínio. Permite ao leitor indolente manter-se em estado vegetativo, e poupa o crítico de objeções embaraçosas. A este respeito, parafraseando Chris Carter, declaro que a verdade está lá fora, não no logos eletrônico.  

Inversamente, algumas revistas tentam vender a simulação inumana de uma neutralidade imaculada sob o amparo de métodos pseudocientíficos. Vamos aprofundar a questão no próximo item.

Como ninguém confia mais nas revistas - e como os anunciantes reconhecem a necessidade impostergável de suspender nossa incredulidade crônica e endêmica - diversos editores empreenderam a criação de veículos baseados em assinaturas. Os anunciantes – quando admitidos - pagam mais caro e têm menor influência. Infelizmente, em todos os ramos da imprensa os veículos que adotaram esse modelo tiveram vida curta.

Agora, com a Internet, por cerca de US$ 50,00 dólares mensais qualquer pessoa pode criar uma revista digital do jeito que quiser, negando tudo isso que está aí e divulgando suas idéias sem depender do bolso de ninguém. O leitor só precisa se preocupar quando o produto em teste pertence ao amigo do editor – o que, no logos eletrônico, só deve acontecer na semana que vem.

b. traição a Descartes

Em 1637 René Descartes revolucionou a esfera do pensamento com o seu “Discurso sobre o método”. Hoje, o conceito epistemológico está enraizado, já é “senso comum”.

Cartesiano de alma e coração, Ernest Gellner foi um dos mais importantes teóricos do mundo contemporâneo, e também o crítico mais ardente do relativismo idealista da sociedade pós-moderna. Falando grosso modo, Gellner entendia o movimento de oposição ao racionalismo iluminista como uma perversão ideológica a serviço do capital sem passaporte – o dinheiro volátil, especulativo e itinerante reverenciado como benção pelos sacerdotes neoliberais.

Particularmente, entendo que a oposição ao racionalismo iluminista não está restrita a laureados gabinetes acadêmicos que se utilizam do método cartesiano para sistematizar sua revogação. O movimento me parece ainda mais amplo e amorfo, pois creio que a razão iluminista esteja de fato em crise. Engessada há 400 anos, já não comporta a amplitude do pensamento que ajudou a expandir. E não é uma mediadora muito eficaz na interconexão progressiva e irreversível das ciências exatas e humanas.

Como ninguém propôs nada melhor que o método – que se defende, se impõe e se difunde por si mesmo - o impasse que estamos vivendo permanece até segunda ordem. Logo, devemos nos resignar à História: sempre que um sistema claudica – seja político, ideológico ou de pensamento, não importa – tende à radicalização. O processo é natural. A radicalização é uma forma de coesão que permite ao sistema abalado mancar mais firmemente. Observe a própria questão do método: se ele é tudo o que temos, devemos garantir sua pureza, rejeitando a contaminação do que lhe é estranho e sua subseqüente deformação. O método é eficaz, nos trouxe até aqui, e devemos a todo custo salvaguarda-lo na esperança de algo ainda melhor.

No que tange ao fenômeno hedonista, pessoal e intransferível da experiência audiófila, se queremos ser “metodológicos” na avaliação dos nossos brinquedos temos a obrigação de levá-los ao laboratório. Considere que Descartes repudiava a “percepção sensorial” como veículo do conhecimento, pois os sentidos são a abstração e distração da razão. Logo, se o assunto é áudio e você é cartesiano, para julgar o que é bom deve necessariamente abdicar da poltrona em detrimento da bancada.

E assim chegamos ao nervo exposto da discussão: postular uma metodologia para a avaliação subjetiva de um sistema de áudio é o exemplo mais gritante, irônico e burlesco do relativismo pós-moderno. E basta um único argumento para sustentar a tese: embora seja um processo intelectivo e dialético, ouvir música é fundamentalmente uma questão SENSORIAL e EMOCIONAL. Aqui, o método não é ineficaz, é inaplicável.

Para prosseguir, devemos dar nomes às coisas: uma metodologia para a avaliação subjetiva - isto é, sensorial - é intrinsecamente uma “metodologia subjetiva”, uma aberração contraditória e circular que pertence à esfera dos duendes, não da ciência.

O que faremos? Vamos abolir as avaliações subjetivas e deixar que osciloscópios surdos e frios ditem o que é bom para os nossos ouvidos?

Recuso a oferta. Eis minha alternativa: partindo do princípio de que avaliações auditivas são tão subjetivas quanto a audição de uma sinfonia, assumo e sublinho a subjetividade essencial da crítica dos equipamentos de áudio, reafirmando o caráter singular, anedótico, único no tempo e no espaço de toda e qualquer audição.

Em termos práticos – e mal ou bem o logos eletrônico caminha nessa direção – isso significa meramente descrever as impressões da audição sem trair a ciência por uma simulação de ciência. De que adianta, por exemplo, estabelecer uma lista de itens de pontuação, avaliá-los individualmente, somar os pontos e laurear um produto que no âmbito geral tem performance insatisfatória? Como avaliar duas coisas tão diferentes quanto um amplificador e um cabo pelo mesmo critério? Radicalizando: porque submeter uma torre e uma bookshelf ao mesmo crivo se já sabemos de antemão que seus desempenhos são peculiares?

A discussão não termina aqui. Precisamos debater os itens que perfazem as metodologias das revistas mais influentes. Serão representações adequadas dos dados envolvidos no processo de reprodução e audição da música? Ou induzem a busca de sonoridades fantasiosas, que extrapolam o fenômeno musical? Acredite, rapaz, ouvimos o que queremos.

Pesquisas demonstram que o prazer da música está intrinsecamente associado à sua antecipação. Quando ouço o Tristão, sabendo de antemão que aquelas progressões nas cordas vão desaguar em dissonâncias ou acordes arrebatadores, meu prazer é maior. Não por acaso três regentes morreram no terceiro ato do drama de Wagner, dois deles praticamente no mesmo trecho.

Essa antecipação é a expressão epidérmica da dialética profunda e solitária que o ouvinte estabelece no momento da audição. Se ele é um eleito, o processo intelectivo será restrito à música. Mas se por obra do acaso ou da vontade o ouvinte é audiófilo, irá antecipar não só acordes, frases, contrapontos, mas também os elementos audiotécnicos que deveriam estar a serviço da reprodução da música sem constituir fins em si mesmos.

Ouvimos o que queremos porque sabemos o que buscar – mesmo quando a busca é um erro.

A discussão continua. O começo está em Crítica da Ambivalência.
 

Home áudio: audiófilos áudio: audiofilia áudio: matchpoint áudio: edifier x200 áudio: merda áudio: sonoridades áudio: sociologia do fasano áudio: insegurança áudio: webht áudio: prexis 216 áudio: imprensa de áudio áudio: cabo ultra xt áudio: máximas áudio: cabo aw 500s áudio: chuva áudio: manual da crítica áudio: contos morais áudio: pré de phono áudio: psicanálise áudio: diálogos áudio: luxúria áudio: aviação áudio: trifônico áudio: sistemas digitais áudio: entomologia áudio: literatura

Este site foi atualizado em 12/08/09