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HT 2.1
©Ricardo Labuto Gondim
Todo mundo tem seus
cantinhos no currículo. Quando você era criança havia um cantinho para
esconder o biscoito que sobrava depois de lamber o recheio. Outro para
proteger a mesada contra o assalto de apaches sedentos de sangue. Mais tarde
o cantinho de brincar de pique virou o cantinho para brincar de amor. Então
chegou o dia inevitável, quando o cantinho passou a ter vários cômodos e
você passou a usar um chaveiro.
Eis porque os
cantinhos não são essencialmente “cantinhos”. Podem ser lugares de refúgio,
onde nos desligamos do mundo, olhamos para dentro e nos reencontramos. O
cantinho também é um estado de espírito. E como a visão limitada que tenho
de mim mesmo necessariamente não me esgota, nutrindo uma fé genuína no
espírito humano afirmo que os cantinhos podem ser infinitos.
Minha casa inteira
é um cantinho onde existem vários cantinhos. Um dos mais agradáveis abriga
uma solitária poltrona, uma cadeira austera e o sistema imaculadamente
estéreo. Outro, encolhido e delimitado por amplas estantes de livros é
formado por um esguio sofá de dois lugares, uma pesada mesa de madeira de demolição
transformada em rack, e um televisor plugado no Laserdisc e no DVD.
Receiver surround e coisas afins? Não dá. Não tenho espaço – e,
desculpe, mas é verdade – nenhum tesão.
Quando o surround
começou a despontar no Brasil – o que me trouxe a vã esperança de
popularização do finado Laserdisc – não levei muito tempo para montar um HT.
Escrevi para a Dolby e recebi uma literatura que me ensinou muito mais do
que eu queria saber sobre sistemas surround. No entanto, sem a noção
prática da coisa - temendo tropeçar e cair em território inexplorado - optei
por engatinhar com um conjunto in-a-box.
Sei que para a turma
que ama e investe pesado em HT comprar um sistema in-a-box equivale a
adquirir um rádio de pilha. Mas eu só queria fazer barulho quando a
Estrela da Morte explodisse. Jamais pensei na hipótese de ouvir música
em multicanal, coisa que nunca me interessou nem me interessa até hoje. A
última das minhas preocupações é a simulação de uma ambiência “realista” – o
que também parece ser o caso dos soundesigners, que se divertem com o
multicanal a exemplo da geração que criou o estéreo.
Meu
negócio é ouvir música gravada sem outros efeitos além das inevitáveis
intervenções do acaso, esgotando as possibilidades sonoras de cada registro
na medida em que a eletrônica, o tempo, o espaço e a ignorância
permitem. A idéia de uma Grande Sala capaz de emular a acústica do Musikverein (que
aliás, da metade para trás é armadilha para turistas) não cabe no meu bolso ou em
meus pensamentos. Quando ouço Beethoven não quero estar em sala alguma.
Quero estar num cantinho. Um cantinho no céu.
Claro, para subir
aos céus com Beethoven dependo de clareza, pureza de som e uma série de
outros itens que às vezes persigo com ânsia irracional. Mas é só:
o importante não é fingir que a orquestra está dentro de casa, mas esquecer
que ela existe.
O HT
in-a-box me divertiu muito além do esperado. É um barato ouvir naves,
carros, aviões, dragões, sogras e outras catástrofes naturais explodindo
aqui e ali. Com o tempo, meu sistema evoluiu, deixou de ser in-a-box
puro, mas essencialmente não mudou.
O fato, rapaz, é que
adoro cinema. Assisto todos os tipos de filmes, mesmo os ruins. Amo Murnau, Kurosawa e Welles, mas também amo aqueles filmes japoneses de
monstro com fecho éclair aparente, e as proezas impossíveis das produções
chinesas de kung-fu. Por isso, quando assistia a filmes que me hipnotizavam,
em 15 minutos de história esquecia o surround.
Imagens
fortes seduzem, sugam e consomem com uma intensidade solar. Herbert von
Karajan, por exemplo, foi assistir Apocalipse Now e achou a música do
ataque de helicópteros “familiar”. Só depois reconheceu a “Cavalgada das
Valquírias”, que já havia regido dezenas de vezes. Karajan justificou o
fenômeno dizendo-se “arrebatado” pelas imagens de Coppola.
É isso.
Voltando ao meu
modesto HT, um dia, precisando de espaço no rack para habilitar um
toca-discos estalando de novo, fiz um garotinho muito feliz: despachei a
parafernália toda para o quarto do meu filho – que inclusive, até hoje,
detesta som alto. O surround serve mais para detectar a aproximação
traiçoeira dos inimigos do videogame às suas costas do que como elemento de
impacto.
Hoje, meu LD e o DVD
estão naquele cantinho apertado do qual te falei. Tenho algumas coisas que
iriam bem naquele pedacinho de casa, como um amplificador estéreo bem
musical e pesado, e um par de falantes eletrostáticos (presente do meu irmão
mais velho). A questão é que, como se trata de um cantinho geograficamente
limitado, não existe lugar para essas delícias, pois o power é um
monstro e o campo magnético dos eletrostáticos é devastador. (Daí que eles
foram instalados no quarto numa situação “heterodoxa”, mas gerando um
envolvimento musical delicioso).
Bem, então isso é
tudo e este artigo é o relato das minhas limitações...
Não, rapaz,
essa é uma história com final feliz. Comprei um HT 2.1 da Edifier
modelo X200 e nele pluguei o DVD.
O X200
consiste em um subwoofer ativo (um cubo em MDF de mais de 3Kg e arestas de
uns 20 cm) e duas caixinhas frontais de aproximadamente 15 cm de altura.
O conjunto foi
criado para microcomputadores. Embora compacto, é inesperadamente apurado –
considerando sua finalidade e proporções.
Existem modelos mais robustos e caros da própria Edifier desenhados
para videogames (o meu custou menos de R$ 150,00). Eu os testei, comprovei seu maior poder de impacto, mas
considerei a reprodução sensivelmente inferior em matéria de “fidelidade”.
Por que escrevi
“fidelidade” entre aspas? Porque não descobri a pólvora, homem, não se
afobe. Optei pelo X200 para resolver uma questão incômoda: livrei-me
do som do televisor, que por melhor que seja tem som de televisor.
Agora posso até abdicar dos fones e
ouvir um dos poucos DVDs de música que tenho no “sisteminha” de modo
aceitável e até agradável. Mas o X200 é a minha solução para
reproduzir as trilhas de M&E (música e efeito) dos filmes no meu cantinho.
A sensação é que o
cantinho ficou maior.
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Dados Técnicos
do Edifier X200
Potência: RMS 4W x 2 + 10W
Impedância de entrada: 10K Ohm
Sensibilidade de entrada: 520 mV
Woofer de 5″, cone de alumínio, 4 Ohms
Tweeter de 2″, cone de papel, 4 Ohms
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