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09/09/10

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Freud e Fungos

©Ricardo Labuto Gondim
 

“Limpo” é o adjetivo que meu filho elegeu para expressar o seu conceito particular de qualidade de áudio. Embora tenha um vocabulário surpreendente para um garoto de dez anos, neste campo ele é dualista:

- Que som sujo é esse, hein, pai?

Nós estávamos na casa da vovó vasculhando a Internet num computador com caixinhas melhores que os rádios de pilha de praxe. Ouvia uma gravação em CD da década de 1930, uma sinfonia de Brahms com Mengelberg. Como você pode imaginar, o range era limitado, especialmente nas altas freqüências. Os graves das matrizes de 78 rpm se mostravam notavelmente articulados, desciam consideravelmente, mas não tinham clareza de timbre. Impossível escutar o pernóstico atrito das cerdas dos arcos cerrando os contra-baixos. Ou aquela camada de vibração peculiar, cromada e saturada de harmônicos que as melhores gravações captam nos metais.

Na efervescência impregnada de Engove do computador o CD soava pior do que era. Mas meu filho já havia abstraído a reprodução “sal de frutas”, repudiando a sonoridade de brechó da gravação em si:
- Pai, você gosta de ouvir isso assim?
- Isso é uma jóia pra quem gosta de Brahms, filho.
- O Brahms é que não ia gostar, né?
- Jamais saberemos.
- Confie em mim, pai. Não ia.
- Meu amado e impertinente filho, a gravação é melhor do que parece. Na minha casa vai tocar bonito.
- Você não precisa daquele som todo pra ouvir uma gravação tão velha, precisa?
- Não.
- Mas você tem um monte, um monte de gravações muito velhas...
- E daí?
- Nada. Só estava pensando.

Uma exegese feijão-com-arroz revelou a hermenêutica do guri: será que estou utilizando carretilha com corda de piano e anzol de aço para pescar cocoroca, capiúna e pirambu? Usando cristal da boêmia para servir Tang e suco de caju Maguary? Ou me deixando seduzir pela promessa de felicidade e superação do desespero-intrínseco-de-cada-Homem que a nossa civilização só consuma no orgasmo ou no shopping?

É verdade que não preciso daquele som todo para ouvir gravações antiquadas. MAS, tendo um equipamento com capacidade acima do range, me tranqüilizo em saber que estou ouvindo tudo que é tecnicamente possível. E como nem só de pó e chiados vive o melômano, tenho um sistema capaz de reproduzir as delicadas nuances que os melhores registros oferecem: a substância da música clássica é a intangibilidade.

Há alguns meses estava ouvindo o excelente CD de referência n. 2 da Burmester. Meu irmão Rynaldo, o que só ouve U2 e coisas piores chegou inesperadamente durante a faixa do sax com piano. Ele se surpreendeu com a naturalidade do ar que escapava áspero e provocador ao final de cada frase. E também pensou estar ouvindo a embocadura do instrumentista, um dos laços da libido que ata o intérprete ao instrumento nas performances mais emocionantes. Digo “pensou” porque nem sempre a gente ouve o que supõe estar escutando: há mais Freud e ilusões em qualquer audição do que sonha nossa vã ciência. Mas o homem ficou maravilhado. Ergueu um Everest de almofadas macias, esticou-se no tapete, fechou os olhos e apagou o Universo. Ouviu outras faixas do CD e sentenciou: “acho que vou querer um som desses pra mim. Igualzinho. Até nos cabos”.

Agora, no sábado do feriadão, alguns amigos da faculdade de teologia foram me visitar. Muita gente pensa que os cavalheiros que fazem teologia com vocação para o pastorado ou o sacerdócio são pessoas graves, solenes e circunspectas. Na verdade, transbordantes de fé, são as pessoas mais alegres e engraçadas do mundo – exatamente como Jesus, que era um homem festeiro, bem-humorado e divertido, muito diferente do Cristo atormentado e austero que o cinema criou à imagem e semelhança dos diretores. Mas com exceção de um dos nossos mais caros professores, nenhum dos teólogos que conheço é melômano ou audiófilo – daí que eu não sabia o que tocar sem provocar o tédio ou a agonia. É quando Rynaldo – numa de suas raras visitas à minha suntuosa cabana - aparece com um CD do U2 (pasme!), sentando-se ávido de revelações na solitária poltrona do triângulo imaginário.

A audição concentrada não durou dois minutos:
- Putz, não gostei não. Tá muito ruim. Não tem brilho, não tem peso...
- Passei uma semana ajoelhado nesta sala ajustando a posição das caixas para exorcizar o brilho e a reverberação, e é disso que você sente falta?
- Mas lá em casa fica muito mais bonito. No carro também.
Ai de mim que sou pecador, foi quando a Senhorita K, minha namorada fascinante que também gosta de U2 e coisas piores quase decretou a hipotermia irreversível do nosso ardente romance:
- Ri, esse som é muito “certinho”. Tem coisa que não dá pra ouvir nele.
O domínio nas condições adversas e contrárias é a marca dos beethovenianos – é também a minha. Mantive a calma, o controle, a dignidade, a serenidade e a graça:
- Hã?!?!?!?!?!?! O que foi que eu pensei ter ouvido, meu amor?!?!?!?!?!?!
- Calma, Rizinho: esse som é lindo, é puro, mas não tem.... não tem...
- Coloração?
- Isso.
- Eu não te condeno. Vá e não peques mais.

Se meu irmão tivesse comprado o sistema que faz a minha alegria seria infeliz. Só existe um anacorético botão de volume, a heresia da equalização foi severamente proscrita. Apropriando-me de umas das muitas expressões lapidares do Velho Leão Holbein Menezes, quem ouve música clássica “em conserva” - buscando a similaridade inatingível com o timbre natural dos instrumentos - afina o sistema pela filtragem da rede elétrica, cabos, mecanismos anti-vibratórios  (leia Uma vez mais sobre vibrações no Audiodicas), posicionamento dos falantes na sala, além de piedosas e devotas orações.

O receiver que meu irmão tem em casa é inclemente com filmes, que dirá com música. Mas as caixas, um par de colunas da brasileira Scorpion têm calor e presença acima de suas exigências. Hoje, minha tese é que bastaria um receiver melhor e cabos refinados a bom preço (e existem dezenas de opções excelentes) para que ele configurasse um sistema que atendesse perfeitamente aos seus “princípios de satisfação”: tudo o que te põe em harmonia com a música, não em harmonia com os outros.

Meses atrás, quando ele disse que queria um sistema como o meu - modesto para os padrões de uma audiofilia cada vez mais aristocrática -, achei uma boa idéia. Se na época as minhas sinapses não estivessem em curto, teria percebido que o Rynaldo não precisava chegar a tanto para ouvir o Mengelberg dele, o cantor Bono Vox. Mas se o crime é comum, a lógica é rara: quando não crê piedosamente que a sua configuração é a única possível num mundo insensato, o audiófilo invariavelmente estabelece um patamar mínimo elevado para todo e qualquer tipo de gosto. Sem considerar – justamente – os princípios de satisfação do outro.

Quando a Sharp chegou ao Brasil e lançou seus equipamentos de áudio, o slogan da campanha era “o som colorido”. “É verdade que é triste e é triste que seja verdade”, mas o que hoje me repele então me atraía. Meu pai dizia que eu não gostava de agudos, mas de cintilações. O tempo passou, eu mudei, e hoje nem chego perto do iPod. Tem qualquer coisa muito errada naquela caixinha. Ela é contagiosa. Sou do tempo em que as mulheres adornavam o colo com alguns quilates, não com gigabytes. Mas entendo que o MP3 é satisfatório para quem ouve, por exemplo, música pop desidratada, re-trabalhada, re-hidratada e turbinada nas mesas cirúrgicas de 200 canais dos estúdios de finalização - num espectro curiosamente limitado e meticulosamente artificial.

Resumindo a ópera, quando desprezamos nossos princípios de satisfação, ficamos à mercê de parentes, amigos e – que os céus não permitam – dos marketeiros. Podemos vir a ter muito mais do que precisamos - ou não conseguir o que realmente desejamos.

Antes que a sábia pergunta do meu filho me levasse a verbalizar o óbvio, agi sensatamente quando decidi comprar um toca-discos para DJs. Não sei se já te contei isso antes, mas de um modo geral meus LPs são tão ruins que a NASA pediu para estudá-los: eles acham que entre os bilhões de fungos dos meus discos podem existir microorganismos ainda desconhecidos pela ciência. Talvez eu detenha na estante o segredo da vida na impiedade glacial do vácuo. Ou a solução para gerar atmosfera em Marte através de cianobactérias. Se eu tivesse o Thorens monumental dos meus sonhos, teria também um pesadelo. Grandes toca-discos exigem grandes prensagens. Mas na tração bestial do meu Numark TT200 – que custou uma bagatela há cerca de 3 anos – Mengelberg soa claro, plano e “limpo”. Como se os fungos tivessem ido para o espaço.

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Este site foi atualizado em 12/08/09