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12/01/12

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Áudio Vídeo Magazine está comemorando 15 anos de História. Uma saga que se confunde com a própria construção do mercado brasileiro de High End e a formação de uma geração de ouvintes.

Dirigida por Fernando Andrette e editada pelo jovem Ricardo de Marino, a Áudio Vídeo Magazine se mantém ativa e muitas vezes polêmica num mercado restrito e num país que não lê. Uma das razões dessa vitória é, sem dúvida, a densidade dos textos. Na contramão de uma época devotada ao antiintelectualismo e ao irracionalismo, a revista não se omite em debruçar-se sobre temas complexos, densos, vastos, que exigem a prece da meditação.

O vigoroso texto a seguir, obra de erudição e rigor pelo Dr. Victor Mirol, Consultor Técnico da AVM, foi publicado nas edições 79 (2002) e 166 (abril de 2011). E gentilmente cedido ao logos eletrônico para o prazer dos melhores leitores da web.
 


 

O áudio entre a ciência, a arte e a filosofia
Uma tentativa de colocar as coisas em seu devido lugar

©Victor Mirol
Publicado em 2002 e 2011 pela Áudio Vídeo Magazine
v.mirol@uol.com.br


“A História do Áudio é a história da subestima, por cada geração,
do poder do ouvido humano e do nível de qualidade que ele demanda
.[1]".

“A vida pode ser entendida olhando-se para trás.
Mas somente pode ser vivida para frente
[2]

“A Música fez mais pela elevação do espírito humano que
qualquer outra coisa desde o nascimento de Cristo.
[3]

“Os cientistas trabalham hoje como fizeram ontem os
artesãos-maçons que construíam catedrais.
Eles colocavam fileiras de blocos pétreos com grande
 atenção nos detalhes e no trabalho do artesão vizinho,
 sem possuir, no entanto, uma noção completa da
 arquitetura da construção. E, às vezes, nem sequer
 compreendiam o propósito de uma catedral
.[4]

 

O tema cabos (interconectores, de caixas e de força) tem aflorado muito nos últimos tempos no ambiente audiófilo e o curso de Percepção Auditiva II também tocou no tema. Curiosamente, o que mais apareceu (para um leitor ou ouvinte atento) foi um tema recorrente que suscita polêmicas acaloradas, aparentemente demasiado acaloradas: o papel das medições nos diversos níveis que o áudio abrange e uma derivação do mesmo tema em nível mais amplo, a ciência como “árbitro” supremo.

De longe, o tema mais citado é o caso da avaliação de equipamentos. Nos extremos, duas posturas fanáticas semi-religiosas: os objetivistas ao extremo, para os quais não é necessário ouvir componentes, pois as medições já dizem tudo; e os subjetivistas ao extremo (estes não tão comuns...), para os quais as medições são absolutamente irrelevantes porque nada dizem e nunca dirão alguma coisa sobre qualidade em áudio.

Muitos proponentes de ambos os campos têm um bom background técnico (alguns em tecnologia e outros em audição). Lamentavelmente, outros opinam sem ter, realmente, conhecimento ou experiência suficiente.

Naturalmente, e deixando os extremos, ainda há muitos audiófilos que preferem um ou outro modo de se aproximar do problema, entre eles muitos iniciantes.

E é para estes últimos que este artigo está dirigido e pensado, porque são os que ficam mais perplexos e confusos com uma disputa que é travada sem que os termos sejam bem definidos.

Eis porque vemos, muitas vezes, pessoas bem intencionadas falarem sobre a mesma coisa com termos diferentes.

Tratemos, então, de aclarar um pouco as águas turvas.

Antes de tudo, aclaremos que preferimos o termo “observacional” ao de “subjetivista” e o de “mensurador” ao de “objetivista”, por serem mais descritivos da real postura daqueles que, militando em ambos os campos, não o fazem com fanatismo, mas com o sincero desejo de entender e explicar melhor o que ouvem. Deixamos de lado, propositadamente, os postulados extremistas de ambos os lados.

Entendemos, então, que os observacionais e os mensuradores assumem uma postura divergente, porém não inconciliável, e que trabalham para conseguir unificar os termos.

Um pouco de história. Ouvimos freqüentemente a pergunta: “por que a maioria das revistas minimamente sérias de áudio adota uma postura observacional e não mensuradora?”. Quem seguiu os solavancos da história do áudio dos últimos trinta ou quarenta anos lembrará muito bem do fiasco que foi para os amantes da boa reprodução musical correr atrás das alegações da indústria (falamos dos anos 50 e 60) de que o equipamento “A” era o melhor que o “B”: as medições efetuadas e publicadas eram prova disso. O que fez com que o pessoal enveredasse pela trilha observacional foi o péssimo resultado da aplicação de medições realizadas para um determinado objetivo (projeto de equipamentos econômicos e eficientes, em especial para telecomunicações) como argumento de venda em outro campo (qualidade de reprodução em equipamentos de áudio domésticos e de gravação de música). As medições haviam sido especificadas para qualificar razoavelmente equipamentos de áudio – em especial, de telefonia: haja hi-fi nisso, não? – e de public address (cinemas e outros espetáculos públicos). O áudio para o lar teve um brusco desenvolvimento nos anos cinqüenta e sessenta por causa da excelente qualidade auditiva que os equipamentos valvulados da época apresentavam, independentemente do uso para o qual foram projetados. Posteriormente, a indústria não investiu mais em investigação básica orientada à audição de música no lar (salvo no mercado de mini-componentes de venda em massa), de modo que os dados mensurados em laboratório são quase os mesmos de trinta ou quarenta anos atrás, com poucas exceções (essa investigação é muito cara, se for feita como corresponde). Por outra parte, essa mesma qualidade desenvolveu um grande grupo de melômanos que foram percebendo que podiam aumentar sua capacidade de ouvir distorções (não necessariamente - nem somente - aquelas medidas e descritas nos folhetos) e, nesse ponto, foram surpreendidos por duas grandes catástrofes: o descobrimento da mina de ouro do transistor, barato e fácil de utilizar, especialmente para pequenos equipamentos portáteis baratos e, anos mais tarde, pelo “Perfect Sound for Ever” do nosso conhecido digital PCM 44/16. O susto levado foi o ponto de partida para que pessoas decepcionadas com a discrepância entre os dados fornecidos pelas medições e o som dos equipamentos favorecessem o nascimento de revistas de avaliação de equipamentos pelo único método que tinha significado útil: ouvir componentes projetados e vendidos justamente para isso, para serem ouvidos. Assim nasceu STEREOPHILE (.H. Gordon Holt) e depois THE ABSOLUTE SOUND (Harry Pearson). Esses pioneiros descobriram o óbvio ululante escondido por debaixo da massiva inundação de especificações imposta pela indústria de áudio no mundo inteiro e desenvolveram métodos para nomear e quantificar os fenômenos auditivos percebidos. Exatamente igual ao começo da ciência ao longo dos 20 séculos que vão de Aristóteles à física de micro-partículas: pela observação, qualificação, quantificação, descrição e, finalmente, relacionamento dos dados observados no final da linha, que era, simplesmente, a qualidade da música ouvida através dos equipamentos. Milhões de pessoas de todo o mundo ouviam a mesma discrepância medição-audição. Centenas de fabricantes criaram uma indústria bilionária de High-End, baseada numa premissa básica: usamos medições e conceitos clássicos para desenvolver componentes até o ponto em que essas medições não explicam mais nada. A partir daí terminamos o produto confiando na audição dos protótipos.

Até aqui não pode ser dito que houve algo contrário à ciência. Pelo contrário, foi usado um conceito correto da ciência, que é saber quando um campo do conhecimento não é suficientemente estudado e explicado por ela e usar nesse campo a observação direta do fenômeno (qualidade). É a mesma coisa que faz um luthier quando constrói um violino ou um violão, ou um fabricante de vinhos quando esgotou a bateria de testes químicos conhecidos para determinar a qualidade final de um bom vinho.

Faltou, sim, o que seria função das universidades e dos laboratórios industriais, se houvesse interesse: pesquisa de alto gabarito nos meandros da complexa e multi-fatorial percepção auditiva e de melhores testes objetivos para mensurar as correspondentes distorções em componentes de áudio (e, também, da qualidade de vinhos e violinos). A sábia e coerente comunidade de músicos e audiófilos não parou de ouvir música durante todos esses anos, enquanto esperava que a ciência e a tecnologia se interessassem ou conseguissem enfocar o tema da audição musical reproduzida ou não.

A quem ainda vê o desenvolvimento do áudio com suspeita de “anticientífico”, lembraremos que os complicadíssimos e muito estudados algoritmos de compressão de áudio para fins de alguns sistemas de áudio digital multicanal ou de áudio internetizado (MP3) são finalmente escolhidos com base unicamente na sua qualidade perceptiva (ou seja, ouvindo os resultados: até os mais convictos mensuradores sabem que nenhum teste ou fórmula matemática, por si só, poderá determinar a qualidade auditiva final de um produto ou software). Outro caso a ser citado é o do hoje famoso jitter (distorção do sampling no domínio do tempo): não foi antes das revistas de áudio observacionistas se cansarem de denunciar o evento, claramente audível, que as grandes companhias decidiram incluir o fenômeno no campo da pesquisa. Hoje, o jitter é mencionado por qualquer engenheiro de áudio como se houvesse sido sempre compreendido e percebido pelos testes.

O CAMINHO?

Simplesmente desenvolver novos testes orientados a detectar o fenômeno, antes não percebido pelos testes existentes.

Como vocês vêem, primeiro ouve-se, depois a ciência (ou a tecnologia, apoiada na ciência) vai atrás e...ZAS! Um novo teste mais adequado aparece para explicar a coisa. Já pensaram quantas “coisas” estão ainda para encontrarem o teste adequado e serem explicadas e antevistas? Já pensaram que, lamentavelmente, e por causa da tal polêmica, muitos engenheiros de projeto acham que não devem ouvir os equipamentos que produzem?

Uma outra coisa a destacar neste ponto é a questão do público-alvo. Naturalmente, muitos equipamentos são destinados a um público que não tem a menor pretensão de qualidade além de poderem identificar a música que ouvem. Nesse caso, os mensuradores têm a razão prática: não faz sentido avaliar produtos por audição (processo sempre caro e demorado) para fazer um produto destinado a ser vendido ao menor preço possível para um público indiferente ao resultado além do básico. Se você está lendo estas linhas, com certeza não pertence a esse público ou, então, errou de revista e corre o risco de gastar dinheiro à toa.

Em primeiro lugar, devemos pensar em qual é o objetivo do áudio. Em nosso entender, o único objetivo que interessa é o de ouvir música com a maior naturalidade que for permitido pela tecnologia da época e com o menor preço possível a pagar.

Mas, dizendo isso, já definimos um campo – o da música – e um público-alvo. Se incluirmos o preço, teremos uma formidável problemática para definir qualidade: existem infinitas variações de: preço aceitável, condições acústicas possíveis, modos de ouvir a música, tipos de gêneros e variantes musicais, sensibilidades auditivas, sensibilidades psicológicas ou espirituais, graus de refinamento ou elaboração auditiva, sensorial e perceptiva, familiaridade e conhecimento com os diversos tipos de música e suas infinitas sonoridades, objetivos procurados ao parar para ouvir essa música (há quem queira, “relaxar”, dormir, alguma sonoridade de fundo, quem queira se transportar, dançar, “viajar” por diversos lugares e situações, experimentar o êxtase etc, etc). Para nós, da Revista de Áudio & Vídeo, a situação requer um ordenamento de prioridades e temos optado por definir como qualidade de áudio a qualidade musical, entendendo isso como a capacidade dos componentes em reproduzir a música gravada com instrumentos acústicos conhecidos em ambiente acústico real, e permitir que a intencionalidade artística e a estrutura íntima da música sejam transparentes ao ouvinte, assim como todas as nuances sonoras da orquestração e a interpretação dela.

Porém, para quem quer entrar um pouco em filosofia, o problema é outro: é a audição necessária ou somente as medições bastam para definir se um sistema terá qualidade musical? Normalmente a arapuca está num ponto: quem fala de “medições” o faz pensando que está, com isso, dando entrada à ciência no miolo do tema. Como veremos, a coisa pode não ser tão clara assim, e para isso, devemos dar um passeio pelo jardim do conhecimento humano para tratar de ver o que é a tal de ciência e por quais caminhos ela transita.   

Diferentemente do que se poderia pensar numa análise superficial, a ciência não se propõe a ser o único modo de descrever a realidade que nos rodeia, mas de entendê-la de uma maneira utilizável e demonstrável. A ciência é simplesmente um método de estudo de cada parte dessa realidade, com um método de experimentação, de verificação, de criação de hipóteses e teorias que avançam constantemente no tempo e na abrangência. A cada década, ela muda seus conceitos e métodos, na medida em que novas experimentações mostram diferentes facetas da realidade e, também, na medida em que consegue estudar mais e mais temas. Se pensarmos um pouco mais atentamente no dito, veremos que a ciência não diz – e, de fato, nunca disse – que possui a “verdade”, e nem sequer que esta verdade é acessível, mas que, a cada passo dado no caminho científico, estaremos, provavelmente, mais próximos dela. Ninguém diz, no meio científico, que chegaremos a ela algum dia. E ninguém nega, por outro lado, que o que era verdade ontem, hoje não é mais, e o que é verdade hoje, não será amanha.

Parece mentira como para alguns que supõem estar falando em nome da mais pura e isenta ciência a mágica ainda se coloca frente a eles como um imperativo, como em épocas muito pretéritas. Algumas pessoas usam expressões como “bits-são-bits”, ou ‘as-medições-não-mentem’ como se elas tivessem algum valor em si mesmas. Tanto é o valor mágico atribuído a elas – para beneplácito da indústria de áudio de massas – que a experiência pura e simples de observar um fenômeno sonoro é negada. Dizem: “esse animal não existe, segundo a ciência” (sei de um deles que morreu amassado por um elefante que “não existia...”).

Pois é, meus amigos, ciência é uma coisa, e essa coisa pode ser muito diferente do que entendemos como ciência. Algo básico no conceito de ciência é a humildade perante os fatos. Pretender negar um fato alegando uma suposta ciência é um passo muito perigoso.  Muito melhor é registrá-lo para posterior investigação. Poderia ser que ele voltasse como um fantasma uma geração depois...Depois de tudo, a ciência muda de década em década, não é? Aquilo da queima das bruxas...

CIÊNCIA E TECNOLOGIA SÃO A MESMA COISA?

Não, decididamente.

Tecnologia é a aplicação prática da ciência em projetos de engenharia, sociologia, medicina etc. Ciência é o conjunto de tarefas de investigação realizada em laboratórios, incluindo medições e testes mensuráveis, mas acompanhadas pela atividade intelectual necessária para concluir hipóteses e teorias que posteriormente serão testadas e aplicadas pela tecnologia industrial. Os descobrimentos científicos, em grande quantidade dos casos, são fruto de imaginação e intuição, baseados em experimentos e intuições anteriores, é claro. Ou seja, da atividade intelectual e emocional de pesquisadores. Já na tecnologia, usam-se conceitos estabelecidos (ou seja, aceitos até a presente data) e passíveis de medições e testes objetivos. Por amor à verdade? Não, meus amigos. O engenheiro (o médico, sociólogo etc) usa no seu trabalho a tecnologia aceita no momento, porque está obrigado a isso. Qualquer trabalho, desenho, projeto que ele concluir e der errado, sofrerá uma séria crítica por ter usado métodos não consagrados. É basicamente essa a causa de o engenheiro – que aplica tecnologia e não faz ciência – usar as normas aceitas. Se ele, esquecendo os conceitos de filosofia e teoria da ciência que aprendeu na faculdade, quer acreditar que a tecnologia é imutável e que a sua base científica e eterna e não momentânea é limitada a alguns aspectos da realidade, é uma limitação dele. Como médico bem formado, eu sei, por experiência própria, que a medicina está muito longe de abarcar todos os problemas médicos que afligem nossos pacientes, e muito mais longe ainda de curá-los. Simplesmente nos pedem que apliquemos a tecnologia médica para diagnóstico e tratamento, sabendo que é insuficiente para curar tudo e, fundamentalmente, que cada paciente é uma entidade completamente diferente de outro, mesmo sofrendo alguma doença com nome e apelido. Não existem doenças, mas doentes, ensinam-nos. Alguns esquecem, submetidos a brutais pressões por eficiência sem “riscos” e com resultado “gerencial” e econômico por parte da sociedade, dos convênios de saúde e outros do gênero. O médico aplica a “verdade” científica? Não, ele aplica o conhecimento acumulado até a data, sabendo que esse conhecimento mudará dias ou semanas mais tarde e que ele irá alterar sua terapêutica do mesmo modo e sabendo (ou devendo saber) que deixa de lado inúmeros aspectos da saúde dos pacientes que a ciência médica não consegue – ou pode - entender até agora. Cristalizar a ciência em algo fixo, então, implica em convertê-la em crença religiosa, algo totalmente oposto aos fundamentos científicos por pertencer a um terreno totalmente fora do seu campo. A ciência impõe humildade e conhecimento das limitações em  cada época.

Sim, meus amigos, há muita mística criada em torno da ciência. Em alguns casos, por não compreender bem os seus limites e propostas; em outros, por simples necessidade dessa mística pelos seres humanos, que – não esqueçamos – vivemos nas últimas dezenas de milhares de anos submergidos na mágica e a superstição, formas de pensar e interpretar a realidade que, justamente, a ciência veio se propor a substituir; e por último, por simples desconhecimento do que é, mesmo, o método cientifico (neste caso, por esquecimento da filosofia, estágio superior ao pensamento científico puro).

Se não fosse por isso, seria muito fácil entender que, já que a ciência não é obrigada a estudar tudo e cada recanto da realidade, nem a ter para cada um deles uma resposta definitiva que desafie a próxima leva de descobrimentos e experimentos e teorias, na realidade, a maioria de nossas sensações e experiências vitais estão longe de serem compreendidas por ela. Portanto, saborear um bom vinho não exige uma explicação “científica” do sabor que estamos experimentando para ser considerado real.

Por outra parte, nada diz que a ciência não possa explicar em parte, ou progressivamente ao longo do tempo, esses fenômenos sensoriais. E este “progressivamente” é fácil de entender, porque a experiência vital humana consta de tantas variantes e fatores que seria matéria de séculos a tentativa de entendê-la com alguma profundidade e confiabilidade.

Na realidade, a ciência sempre vai atrás das sensações. De fato, um experimento nada mais é que a observação de um fato real. Sem sentidos, não há conhecimento nem experimentos possíveis. A ciência trata de explicar os mecanismos da natureza que causam determinadas sensações, porém ainda está longe de entender a própria natureza dessas sensações. Por outro lado, a ciência é cada vez mais cara, e os temas por ela abordados são fortemente subvencionados por governos e empresas, e, naturalmente, dirigidos prioritariamente para aqueles temas com maiores possibilidades de retornos financeiros rápidos. Por acaso, algum de vocês acha que há muitos investidores no tema “áudio de qualidade para o ouvinte doméstico” ?.

Já a ciência – ou melhor, sua prima prática, a tecnologia – serve muito para o desenho e projeto de componentes de áudio. Mesmo que muitas vezes vejamos um fabricante dando explicações “científicas” sobre o porquê do seu equipamento soar bem, na realidade, na maior parte dos casos, ele nem sabe bem porque soa, ou melhor, sabe, sim , que não é por nenhum milagre “científico”, mas por uma construção artesanal baseada de inicio nos padrões técnicos reconhecidos, mas quase sempre acabado da mesma forma em que se termina um instrumento musical ou um bom produto artesanal de qualquer tipo: com conhecimento não facilmente mensurável.

A ciência está, então, melhor situada como ferramenta. Por ventura devemos nos privar de ouvir um Stradivarius, ou de beber um Moet Chandon ou de ouvir uma peça barroca ou renascentista com instrumentos da época somente porque não podemos medi-los ou porque a ciência não consegue (nem se interessa por tal coisa) explicá-los? Por ventura a ciência explica o amor, a amizade, o êxtase musical, o mobilizador chamado de um filho por sua mãe, o vôo lírico de uma poesia? Deveria eu renunciar a ler Cervantes no idioma original porque alguém acha que o preço pedido pelo livro é um “roubo”, pois existe uma tradução ao vernáculo mais barata em edição de bolso? E se eu gostasse de beber aquele vinho em copo de cristal de Baccará? Seria também um “roubo”? O que não é “roubo”, então? Somente aquilo que o observador gosta, entende ou topa comprar? E os outros observadores?

É muito fácil aplicar mal e fora de contexto muitas práticas e métodos que a ciência usa. Falaremos no próximo número sobre o famoso teste “cego” e também sobre o “duplo-cego”.

Mas um exemplo mais simples está em nossas mãos.

Ouvimos alguns criticarem o curso de Percepção II porque não inclui testes “cegos”. Ora, o curso não é um exercício laboratorial de teste de cabos, é simplesmente um work-shop de treinamento em técnicas de percepção de fenômenos de distorção por componentes de áudio. Claro que ninguém testa pensando que poderá realizar um teste laboratorial de componentes em dois dias, em algumas horas de audição de alguns componentes, nas condições em que é realizado. Quem se postula para financiar um programa científico de estudo destes fenômenos (aviso que é muita grana, pessoal)?

O que chama poderosamente a atenção é o ódio, a raiva que faz enrubescer o rosto de muitos “objetivistas ao extremo” quando ‘caem matando’ sobre as pessoas ou revistas que usam métodos observacionais. Parecem estar defendendo a vida, ou algo muito vital e básico. Será que estão mesmo...?

Qual é problema de querer beber um bom vinho de mais de 200 USD em copos especiais, seguindo um ritual de temperatura, ambiente e adequação psico-sensorial apropriada para quem consegue perceber o aroma, o gosto, as sensações que um bom vinho proporciona? O dinheiro? Bom, este é também meu problema, mas não fico odiando a quem pode ou sabe. O fato de eu não poder saborear vinhos de mais de, digamos, 50 ou 60 reais, não me leva a atacar com raiva a quem pode. Simplesmente me conformo com o que tenho. E, também, sei perfeitamente que se tivesse o dinheiro e o interesse e as papilas gustativas adequadas ou - melhor - bem treinadas, gostaria muito de incorporar esse novo universo de sensações agradáveis a meu repertório (pena que a falta de medições adequadas me impeça de fazê-lo...)

Quem é que não teve a vivência de descobrir que, na medida em que cresce e incorpora novos elementos de apreciação da vida e suas emoções estéticas, percebe que teria agido mais lucidamente se calando quando, por não entender ou não poder entender, desprezava como intranscendentes ou inexistentes sensações que agora percebe com claridade e das quais lhe custaria se desprender?

O método científico ainda não é bem compreendido e muito menos bem aplicado. Claro que, em termos estritos, ele tem algo assim como 200 anos - somente - de desenvolvimento. De todas as maneiras, vale a pena lembrar algumas de suas características gerais.

A base dele consiste em algumas normas a serem seguidas para considerar um conhecimento válido para a comunidade que aceita as normas.

Essencialmente, o sistema se baseia em que todo fenômeno tem uma relação com algum outro, o que se denomina relação causa-efeito. Ou seja, um fenômeno será condição necessária (e pode ser também suficiente) para que outro aconteça. Essas relações se estabelecem por uma paciente observação dos fenômenos que acontecem na natureza e pela observação de outros que são causados por experiências - em laboratório ou não – propositais. Destas observações vão sendo construídas hipóteses que são novamente confirmadas por outras observações ou experimentos que, por sua parte, dão origem a modificações destas hipóteses ou a criação de outras, e assim ad-infinitum. Hipóteses suficientemente amplas são conhecidas como teorias científicas.

Uma observação importante é a de que todo experimento, inclusive aquele realizado com sofisticadíssimos instrumentos, não deixa de ser observação. Esses aparelhos são nada mais que poderosos amplificadores da sensibilidade e estabilidade de nossos sentidos. Para muitas experiências científicas, especialmente no campo social e humano em geral, seguem sendo usados testes onde o observador é o próprio ser humano, e os dados suas respostas, em geral filtradas por um sistema de correção dos erros conhecidos para cada tipo de experimento, e suas conclusões analisadas estatisticamente. Devemos lembrar que todo experimento tem um objetivo e uma limitação, que todo experimento somente fala de fenômenos iguais e com populações iguais ao objeto de análise. Qualquer extrapolação é perigosa e deve ser conferida com novos experimentos mais específicos. Também devemos citar que a escolha dos métodos, das populações, do padrão estatístico, dos observadores, e toda outra condição na realização do experimento pode invalidar o mesmo para outras situações.  Infinitas vezes a comunidade científica teve que voltar atrás após tirar falsas e apressadas conclusões extrapoladas de testes não aplicáveis a outras situações.

O que interessa destacar de tudo isso? O método científico nunca pode garantir que chegou a verdade nenhuma – se é que alguma tal verdade existe – mas que sucessivas etapas de experimentação e compreensão das relações de causa-efeito nos aproximariam dessa tal verdade. Isto deixa, logo de cara, um conceito fundamental claramente definido: a ciência somente poderá saber sobre fenômenos que tenham sido estudados. Nada poderia dizer de fenômenos não estudados. E sobre os que são fruto de estudo – geralmente aqueles que têm imediata influência no uso industrial, comercial ou político da natureza ou da sociedade, incluindo a guerra. Nada garante à ciência sua aplicação em termos de ética ou utilidade fora desses campos.

Por sua natureza, a ciência realiza avanços constantes e em forma progressivamente acelerada, já que qualquer novo conhecimento facilita o descobrimento de outros. Por isso é que em cada momento da história, o conhecimento científico é provisório, pois será superado, modificado ou anulado pela próxima série de experimentos.

Ou seja, a ciência somente opina sobre aquilo que é –ou foi – objeto de interesse e estudo, e o faz sempre em forma provisória, em espera da próxima série de avanços da pesquisa.

Um dos pré-requisitos aceitos para validar qualquer hipótese é a de ser baseada em experimentos reproduzíveis em circunstâncias idênticas. Isto é, automaticamente, uma limitação da pesquisa em muitos campos do conhecimento, já que muitos estão fora da possibilidade de oferecer a viabilidade de experimentos que se repetem em idênticas circunstâncias. Entre eles, todos aqueles nos quais o todo ou a parte do resultado da experiência esteja dentro do campo da experiência interna do ser humano ou de sociedades, ou seja, os que incluem tudo ou parte do âmbito psicológico, sensorial, social, histórico etc.

A ciência, aplicada em forma de tecnologia (a aplicação de métodos de mudança da natureza padronizados para obter determinados resultados) tem produzido importantes e rápidos avanços em muitas áreas da indústria e o comércio. Lamentavelmente, muito pouco progresso em termos de resposta às necessidades humanas básicas.

Como vemos, a ciência se baseia na observação minuciosa da realidade, para somente depois tentar estabelecer relações entre os diversos aspectos dessa realidade, usando, entre outras ferramentas, as matemáticas.

Seu papel foi importante para começar a eliminar do mecanismo mental humano as crenças mágicas, que atribuíam causas mágicas e sobrenaturais aos fenômenos observáveis. Essa é uma tarefa ainda inconclusa, pois a mente humana foi conformada durante centenas de milhares de anos de acordo ao pensamento irracional e mágico. O pensamento racional e científico é uma coisa muito recente e luta com aspectos básicos da psicologia e as angústias elementares humanas, que influenciam grandemente a própria formulação e escolha das prioridades científicas. Uma das maiores dificuldades encontradas é, precisamente, a luta contra o pensamento mágico em suas variantes modernas, entre as quais uma: a crença mágica e religiosa de que a ciência é infalível, e que tudo o que ela não explica ou estuda não existe...

Digamos que eu meço um carro “A” e digo: medida dos pneus: X x Y, compliância da suspensão: T, torque máximo: nnKgm @ xxxx rpm, bancos de couro, CD Player, trio elétrico etc. E verifico que as tais medições parecem as “melhores” em carros da categoria. Aí, vem um amigo e diz: “Gostei do carro “B” que, mesmo sendo mais caro que o “A”, tem um conforto insuperável”. Creio que é porque usa couro especial de Vacalândia, processado para equilibrar a temperatura. Minha resposta seria, então, uma de duas: isso é impossível, é um roubo, não há demonstração científica de que o carro “B” seja melhor ou comparável com o “A”. Isso é vigarice!

É isto ciência, magia ou crença? Três coisas a considerar. Primeiro, entre as especificações somente figuram algumas das milhões de especificações que seriam possíveis determinar para um carro, tanto as do estado atual da técnica como as impossíveis hoje. Segundo, nenhuma delas é específica para o couro dos bancos. Terceiro, nenhuma delas mostra a relação entre “conforto” – no sentido empregado pelo meu amigo – e qualquer das especificações publicadas. Conclusão: a tal de ciência nada disse - nem nada tem a dizer - sobre o item conforto, simplesmente porque é um tema não suficientemente abordado (para as fábricas não é relevante para o comum dos seus compradores-alvo como elemento de venda) em termos de poder o conforto ser medido e especificado. Mesmo que o fosse, “conforto” tem tantas variáveis que seria caríssimo e fora de foco comercial. Mais barato seria fazer um carro muito caro e muito sofisticado onde o conjunto seria suficientemente confortável e caro como para dirimir a questão. Já pensou em fazer um teste duplo cego para checar o gradiente térmico do couro de Vacalândia?

Suponhamos que o fazemos. E que dá negativo. É suficiente? O teste duplo cego somente nos diria que: “para as condições específicas deste teste duplo cego realizado em forma “tal e tal”, não foram registradas diferenças estatisticamente significativas entre o couro nacional e o couro de Vacalândia”. Ponto. Agora pergunto, quando você usa o carro, o faz em condições “tal e tal”? Ou há outras variáveis? Os resultados estatísticos sempre consideram “curvas de Gauss” (variações esperáveis de variação de resultados). Será que você estaria num dos cantos dessa curva, com sensibilidade particular para o couro de Vacalândia? A ciência não nega isso. A ciência somente diz, repito, que, para as condições do teste realizado (isto inclui o tipo de amostra populacional escolhida para o teste, naturalmente), não foram observadas (reparem, nem sequer diz “não existem”) variações estatisticamente significativas entre ambos os couros. Nada garante para outras condições. É razoável pensar que, para condições genéricas, o mesmo resultado seria obtido por uma fábrica que decidisse usar o couro comum para minimizar os custos e melhorar os preços para clientes comuns, como os que participaram no teste. Haverá muitos compradores de carros que seguirão preferindo o couro de Vacalândia. Alguns por mero exibicionismo. Outros por irem atrás de outras opiniões. E, finalmente, outros comprarão o tal do carro porque realmente sentem uma diferença com o X que querem usufruir e, eventualmente, podem pagar.  Talvez eles conheçam mais de carros com banco de couro, talvez tenham uma sensibilidade maior, talvez se iludam com a cor e a textura. Vai saber porquê. O certo é que a ciência não se propõe nem tem nada a ver com isso. Não é terreno dela e, ignorar isso, é pensamento mágico e é não conhecer as propostas e limites dela.

Para marcar a diferença – e a validade – entre testar algum objeto e ensinar a observá-lo, costumo usar um exemplo muito familiar aos médicos (e, por analogia, aos outros profissionais de qualquer área)[5]. Um aluno (ou um leigo) que contemple uma radiografia nem sabe que está observando uma imagem na qual poderiam ser observadas e reconhecidas milhares de características visuais das quais extrair informação. Ele somente irá se aperceber disso quando o professor que o inicia nessa arte (medicina é uma arte baseada na ciência, e não um desdobramento automático da ciência, como também são as outras profissões) comece a mostrar miríade de pequenos detalhes que passariam desapercebidos a qualquer um dos presentes. No fim do curso de radiologia, esse estudante conseguirá ver numa radiografia centenas de padrões indicadores de doença. Coisa que seria inimaginável a qualquer observador leigo. O que aconteceu? Alguém o ensinou a observar os detalhes corretos. É isso ciência? Não amigos, isso é simplesmente treinamento do sistema visual para reconhecer detalhes ínfimos num padrão geral, para dar-lhes nome e a classificá-los.  Mesmo assim, diferentes professores dariam opiniões não exatamente iguais sobre uma mesma radiografia. Mesmo assim, nenhum médico experiente faria um diagnóstico sem corroborar antes o que viu na radiografia com as condições reais do paciente, examinando-o em carne e osso, tocando-o, ouvindo-o (eventualmente usando o estetoscópio) e ouvindo suas queixas diretamente, nas suas palavras e expressões. Parece isso tarefa de algum laboratório? Vêem vocês algum processo sofisticado de “medições” nesse processo? Há aqui algum teste duplo cego? Definitivamente não. Aqui há a aplicação de uma técnica de observação, que poderá depois ser confirmada, melhorada ou dirimir alguma dúvida com outros exames, que consiste, porém, na aplicação da arte do diagnóstico, embasada na ciência, porém não confundível com a ciência.

O desconhecimento disso leva a uma pressão por confundir medicina com medições, e por isso tantos parelhos com nomes “sonoros”: “ressonância magnética”, “tomografia helicoidal” e outros. No entanto, crianças seguem morrendo por falta de comida, ou de leitos, ou de simples medicina preventiva (por favor, não vá alguém sair por aí dizendo que eu acho desnecessária a aplicação desses aparelhos, please...). O que quero dizer é que a ciência é aquilo que os homens fazem dela, e não uma explicação mágica e obrigatória para todo o que existe.

Gostariam de um exemplo mais? Vejamos o caso do Eng. Eduardo de Lima, fabricante nacional dos componentes “AUDIOPAX”. Vocês podem ler sobre seus amplificadores na Revista (número 69) e, também, na STEREOPHILE última (Vol 26 #5, Maio 2003). Eduardo, provindo da área de telecomunicações e amante da música e o áudio, observou que os triodos conectados em single-end soavam muito musicais e verídicos. Revisando os textos clássicos, reparou que todos afirmavam que “não poderiam soar tão bem”, desde que – todo o mundo sabe e as medições mostram – essa configuração implica em alta distorção harmônica.  Porém, Eduardo admitiu para si mesmo, soavam...e como! E tomou uma atitude científica: partiu para pesquisar a coisa. Verificou que todos os fabricantes procuram projetar componentes com “distorção zero”, ou seja, o mais baixa possível. O preço era distorção baixa, porém com componentes harmônicos de alta ordem presentes. Os componentes eram projetados assim para serem compatíveis entre si com a menor distorção possível cada um deles, assim como com alta impedância de entrada e baixa de saída.. O problema era que os alto-falantes, não interessansdo quão perfeitos, distorciam um mínimo muitas vezes superior a qualquer outro componente da cadeia. Distorção de segunda harmônica. Depois de pensar, partiu para um novo enfoque. Admitiu que os falantes deveriam seguir distorcendo, e que essa distorção era audível, porém relativamente benigna. Os amplificadores, fortemente realimentados para evitar a alta distorção de segunda harmônica, distorciam com harmônicos mais altos, e essa distorção sim era prejudicial – e audível. Aventou uma hipótese: se permitisse que o amplificador mantivesse distorção de segunda harmônica alta e baixa a distorção de ordem superior, poderia desenha-lo de maneira a contrapor essa distorção à aquela do falante e, provavelmente, conseguiria que elas se anulassem mutuamente. O resto é história e quem ouve um amplificador AUDIOPAX sabe que seguir o método científico e desconfiar que alguns axiomas estavam errados foi o caminho certo. O cientista rigoroso desconfia prudentemente de todo o que não se ajusta à realidade que os sentidos mostram ou o sentido comum, às vezes, insinua. A ciência é, assim, um caminho cheio de idas e voltas, de verdades provisórias e de descobertas permanentes...Desde que se mantenha a mente aberta sempre.

Um outro tema que, às vezes, é discutido em forma confusa – por apaixonada - é o preço dos componentes. As coisas boas, como regra geral, custam. Bem sei disso. Eu não tenho o equipamento nem a sala de audição que sei que poderia desfrutar. Isso me incomoda? Até certo ponto. Também não disponho de outras coisas tão importantes quanto.  O que não posso é pensar que é ilícito alguém que pode usar – por qualquer motivo – componentes caros, bons ou não. Eu tenho certeza que, se pudesse comprar equipamentos sem importar o preço, minha sensibilidade chegaria a um limite muito antes de alcançar o limite do melhor e mais caro equipamento. Ou seja, ninguém está, na revista, pensando que o mais caro ou melhor é necessariamente um objetivo. Cada um sabe aonde quer chegar. Isso não impede que, se ouvimos um equipamento muito caro e o achamos bom, manifestemos nossa opinião. Eu tenho revisado equipamentos de muito alta qualidade sonora que não sei se compraria se pudesse. Tenho meus próprios pontos de vista, como todos nós. Mas, como não conheço os pontos de vista dos meus leitores, tenho que expor as qualidades encontradas em todo aparelho que reviso. E as más qualidades também.

Existe uma outra parte de toda esta questão que merece ser abordada. O leitor, que não tem ao seu dispor mais que aqueles componentes que consegue comprar, às vezes com muito esforço, não tem como testar e avaliar outros componentes nos quais possa estar interessado. Tal vez não existe representante na sua cidade, ou tal vez ele não consinta em facilitar testes, ou o teste necessário envolva mais de um componente. Por outra parte, nós mesmos o advertimos de não comprar ou tomar decisões de compra sem ouvir antes por si mesmo. Nesse momento esta criado o impasse para nosso leitor, e isso gera muita angústia para quem, como audiófilo, sabe que o sistema pode ser melhorado com a compra certa. E é nesse ponto que entendemos perfeitamente por que o leitor preferiria que os testes conseguissem descrever toda a sonoridade e qualidade de um componente. Por que, desse modo, a audição não sendo necessária, a simples leitura das especificações e testes resolveria o problema. A realidade, porém, mostra que não é assim e que não existe até o momento nenhuma especificação – ou conjunto deles – que possa substituir uma audição adequada.

De passagem, há algumas coisas que gostaria remarcar, enfaticamente, mais uma vez, sobre a REVISTA DE ÁUDIO & VÍDEO:

Não temos compromisso com fabricantes, nacionais ou não. A influência dos reviews nos anúncios – numa revista do tipo da nossa - é menos significativa, no contexto geral, do que pode parecer.

Não temos nenhuma pretensão de sermos infalíveis. Não somos os melhores. Simplesmente somos os que estamos aqui neste momento e tratamos de fazer nosso papel da melhor e mais isenta forma possível. Melhor ainda que o que poderia ser possível no nosso mercado no momento atual (e mais ainda, no mercado de quando começamos).

Não acreditamos que existam “golden ears” (ouvidos de ouro). Simplesmente opinamos que o treinamento é a base da discriminação e aperfeiçoamento de qualquer sentido ou capacidade humana.

Simplesmente queremos mostrar o que ouvimos, e, ainda, além disso, mostrar as ferramentas com que trabalhamos. Entre outras coisas, publicamos nossos métodos, e realizamos reuniões periódicas para mostrar como ouvimos.

Os cursos de percepção não têm como objetivo testar este ou aquele componente. Não são testes. São demonstrações. Não é a nossa proposta que deles sejam tiradas quaisquer conclusões, salvo que o ouvido deve ser treinado e que para isso existem caminhos para reconhecer as variáveis envolvidas. Como qualquer outro curso, seja de engenharia ou de Medicina ou de vendas. Não são testes, são work-shops. As conclusões devem ser tiradas pelos assistentes, e os métodos devem ser avaliados pelos assistentes, agora em poder de algumas ferramentas. Se não são perfeitos é porque também não somos perfeitos.

Sempre dizemos, incansavelmente, que nossas conclusões são simplesmente isso: nossas conclusões. Ninguém deve partir para decisões ou compras baseado somente nelas. Para isso mostramos as ferramentas.

Não temos absolutamente nenhum interesse em criar polêmicas pessoais.

Estamos, sim, interessados em propor métodos de avaliação. Existem outros possíveis. Apenas não podemos usar todos eles ao mesmo tempo.

Não temos nenhum tipo de postura contra a ciência. Absolutamente, pelo contrário. Temos no staff editorial médicos, engenheiros, administradores, músicos, que vêm de áreas onde a ciência é a base do aprendizado e do trabalho profissional. Nenhum deles faz desta publicação um modo de vida financeiro. Muito pelo contrário, desse ponto de vista, é um péssimo negócio. É, ao contrário, uma paixão. Alguns de nós, temos três ou quatro décadas de trabalho e observação, tanto no desenho, quanto na experimentação, na audição, na construção e na avaliação de componentes. Todos com muito tempo dedicado à música como objetivo e fim e com muitas audições ou prática de instrumentos reais ao longo da vida.

Temos também realizado contatos com entidades de ensino universitário que foram muito proveitosas para todos e perante as quais temos demonstrado nossos métodos aberta e claramente com resultados aceitos. Não temos ouvido críticas metodológicas das instituições onde isso aconteceu.

Devemos fazer testes objetivos? Decididamente sim, porém sem cair na simplicidade de pensar que eles irão explicar tudo na área de áudio. Muitos testes irão ainda ser descobertos se forem aplicados o dinheiro e o esforço necessários. Senão, iremos avaliar áudio com os nossos ouvidos por muitos séculos ainda. Pelo menos enquanto o ser humano possa se emocionar com a música.

Muitos estudiosos realizam testes, cegos ou duplo-cegos, e até agora sem desfazer a dicotomia que existe entre o testado e o que se ouve. Não fazemos ainda testes objetivos por dois motivos. Para serem bem feitos, são necessárias instalações, equipamentos, tempo e dinheiro. Para fazê-los mal, como para dizer “nós fazemos”, não estamos dispostos. Serão inseridos na revista em breve. Progressivamente e bem feitos.  Em segundo lugar, porque, cientificamente considerado, poucos testes – dos existentes hoje – têm uma correlação direta e consistente com os resultados auditivos. Eles são uma boa ferramenta na etapa de desenho de equipamentos, mas não substituem a audição direta, por pessoal com experiência em música e em ouvir muitos tipos de equipamentos como para tirar conclusões válidas. Já na avaliação, os testes (medições) pouco ajudam.

Os testes objetivos, por outra parte, precisam estar orientados a pesquisar o campo comum com as avaliações observacionais auditivas. De outra maneira só serviriam para encher páginas com figuras “científicas”.

Suponhamos que temos claro que ouvimos diferenças entre dois ou três cabos que usamos em casa habitualmente, com nosso equipamento de boa qualidade, montado ao longo de anos de paciente observação e comparação com o que ouvimos na sala de concertos. Um dia, um amigo cientista nos diz para verificar o tema num teste que realizará em seu laboratório. Realizado o teste, sai publicada a conclusão: “Realizado o teste N-8978876-03 em tal lugar, com tais métodos, com tais e tais avaliadores, chegou-se à conclusão de que uma maioria estatisticamente significativa não conseguiu identificar diferentes marcas e tipos de cabos (enumerados na descrição)”. Então, seu amigo tira a conclusão arrasadora, que irá mudar sua vida de audiófilo: “Você não ouve diferenças entre os cabos, é pura ilusão”. Correto e científico, não e?

Não, meu amigo. Totalmente anticientífico. Primeiro, a única conclusão possível desse teste é: realizado o teste N-8978876-03 em tal lugar, com tais métodos, com tais e tais avaliadores, chegou-se à conclusão de que uma maioria estatisticamente significativa não conseguiu identificar diferentes marcas e tipos de cabos (enumerados na descrição). Nada mais. Segundo, se você ouve ainda diferenças, algo está errado com o teste. O mais provável, neste caso, é que muitas diferenças sejam sutis e aplicáveis a condições específicas de audição, por entrar no que se chama percepção periférica (em oposição à focal, requerida no teste). Terceiro, que se você ouve algo, ouve algo e pronto. Pouco importa se a maioria das outras pessoas em outras condições, com outra música, com outro stress, em outro lugar, com outro objetivo em mente, ouçam ou não. O mais importante, caro leitor, é não tentar ouvir seu Mozart ou sua terceira de Beethoven naquele laboratório cheio de gente. Prefira sempre ouvi-lo em casa...Ou na sala de concertos. Ah! E, por via das dúvidas, ainda não jogue fora seus cabos!... O laboratório, afinal, não comprará outros para você quando descobrirem o teste adequado!!

Entendemos que se ouvimos algo que não nos é evidente nas medições, o mais honesto, cientificamente, seria concluir que estamos medindo os parâmetros errados...

Por isso, estamos elaborando um projeto algo mais ambicioso, que visa mostrar um banco de dados para tentar correlacionar ambos os campos. Poderíamos fazê-lo nós mesmos, com nosso pessoal. Mas é um projeto que, por complicado e consumidor de tempo e recursos, deve ser iniciado para que possamos dar contribuições visíveis. Sabemos que não é fácil correlacionar testes existentes com todos os fenômenos que ouvimos. Sabemos que não é fácil “inventar” novos testes. Contamos, então, com a colaboração de profissionais para idealizar mais consistentemente e com menor margem de erro testes que combinem observação com medições, talvez começando por quantificar o próprio método observacional. Esperem mais um tempo...

Onde entra então a arte neste arrazoado de considerações? Melhor é dar exemplos. A medicina é uma arte, a construção de instrumentos musicais é uma arte, a fabricação de bons vinhos e a culinária são artes. O projeto e fabricação de equipamentos de High-End é uma arte, e avaliar estes equipamentos também é. Viver é uma arte. Ora, e onde está agora a ciência? Se vocês derem uma olhada na lista perceberão que todas esas artes citadas se apóiam na ciência e na tecnologia. Falei se apóiam. Não disse são ciência. A arte está conectada com a alma humana, e, como tal, paira por cima de qualquer tecnologia. Decide e toma caminhos por si mesma, mesmo que, quando possível, usa a ciência como apoio. Para maior deleite, naturalmente, e não para maior – e desnecessária - repressão.

Gente, sentido comum e aplicação correta das idéias que deram origem ao método cientifico é o que falta.

Em próximos números da Revista daremos mais detalhes sobre o tema dos testes para uso em áudio.

Ah!! Ia me esquecendo! Talvez seja melhor, no título, trocar filosofia por arte. Ficaria, então, "O Áudio, entre a Ciência, a Filosofia e a Arte”... A ciência, como ferramenta que é, fica sempre no início e não como fim.

Referência:

http://www.bostonaudiosociety.org/bas_speaker/abx_testing.htm

The Wood Effect, R.C.Johsen, Boston 1988.

[1] “The history of audio is a story of each generation understanding the power of the human ear and the standards of quality it demands”, Peter Fellgett, Prof. da “Cybernetics University of Reading”-Reino Unido.

[2] “Live can only be understood backwards. But it can only be lived forwards”, Kierkegaard

[3] Muisic has done more to elevate the spirit of man than anything else since the birth of Christ”, Thomas Edison.

[4] “Scientists now work as stonemasons once did on cathedrals. They put stones next to one another with great attention to detail and the work of the fellow next to them, but they have no sense of the architectonics of the whole. And sometimnes they do not evem comprehend the purpose of a cathedral.”, Werner Heisenberg.

[5] Robert Harley cita um exemplo similar no seu trabalho sobre o ouvinte (ver referências de Internet)

 

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Este site foi atualizado em 08/06/11