|
áudio: sistemas digitais |
||
12/01/12 |
|
|
0 e 1 ©Ricardo Labuto Gondim
Não adianta, rapaz, a curva senoidal dos seus sonhos você só vai encontrar na Juliana Paes, na Viviane Araújo ou nos sulcos de um LP. No meio digital não existem curvas, mas simulações construídas com zeros e uns. Falando grosso modo, tracinho pro lado (0), tracinho pra cima (1), tracinho pro lado (0), tracinho pra cima (1) e por aí vai: na prática a coisa é diferente, mas vamos admitir que o resultado seja uma escadinha que sobe e desce, o grotesco rascunho de uma senóide. Ao conversor digital-analógico cabe a indócil tarefa de "desbastar" os degraus da escada, transformando o esboço no desenho de uma montanha russa arriscada e imprecisa. Antes que você possa pensar que este artigo foi escrito para lançar lenha à fogueira de vaidades que permeia a discussão CD x LP, me apresso em dizer que guardei para o final um outro tipo de escândalo. Acho o som de um bom LP superlativamente mais bonito que o som do CD – mas isso é juízo de valor. O CD opera numa faixa dinâmica muito mais ampla, é capaz de conter muito mais informação e exibir nuances e detalhes que você só vai ouvir num LP se estiver “estribado” - ou se hipotecar a casa, vender a sogra para a fábrica de sabão, e torrar a grana da faculdade das crianças num super-toca-discos com pré-de-phono de platina e agulha de tungstênio. O fato é que – com digitalite e tudo – uma das primeiras coisas que o CD revelou foi que nossa capacidade de gravar sons era muito maior que a capacidade de reproduzi-los. A versão em CD de uma boa gravação dos anos de 1950 ou 60 exibe matizes impossíveis de serem mostrados num toca-discos pequeno-burguês. Tentando uma síntese grosseira, o LP é musical enquanto o CD é analítico. Tenho até hoje o meu toca-discos projetado para DJs, uma solução lúcida e barata para quem só tem LPs frígidos, que lutam contra a penetração da agulha no sulco. Se eu ganhasse um caminhão da Brinks teria o melhor dos dois mundos. Como o caminhão enguiçou, optei pelo CD. Uma decisão estritamente pessoal, sem nenhum critério além do meu próprio gosto: entre a beleza e a clareza, prefiro a clareza. Embora o reinado do CD conte mais de 20 anos e a digitalite tenha sido consideravelmente atenuada, o rei está morto. Comprimido num formato chamado Ape e passando pelo torno do Winrar, um CD de áudio cai para menos da metade do tamanho, podendo ser “compartilhado” em programas do tipo peer to peer (ponto a ponto) e baixado em poucas horas através de uma vulgar conexão de banda larga. Descompactado, volta a ser WAV. As perdas de dados - virtualmente inaudíveis - são estimadas em 4%. Quem não tem escrúpulos quanto a qualidade de áudio encontra opções ilimitadas em MP3, a palavra mais procurada na Internet depois de “sexo”. Até o corsário da esquina vende CDs com múltiplos arquivos compactados no lugar do WAV. Numa viagem a Porto Seguro me deparei com CDs de axé contendo centenas de gravações – o horror multiplicado pela ambição e elevado ao apogeu. O MP3 é o vilão. O jornal O Globo (19/10/2006) assinala que em 2005 o Brasil registrou mais de um bilhão de downloads ilegais. Como a lei dos direitos autorais de 1998 não se debruça sobre a questão com clareza meridiana, o aprendiz de Barba Negra deriva entre a impunidade e a ameaça de até dois anos de ancoragem numa cela. Concebido como solução de qualidade para as rádios web, o MP3 tornou-se um dos paradoxos do nosso tempo. Saldo negativo de quase 130 anos de história das gravações, ao mesmo tempo em que sua “compressão perceptual” é baseada em avançados conceitos de psicoacústica e codecs de última geração, sua utilização doméstica é um retrocesso que troca qualidade por quantidade. Para nossa vergonha, quando a sociedade de consumo de 1931 enfrentou o mesmo dilema optou pela qualidade. Naquele ano a RCA lançou o disco de vinil de 33 1/3 rpm, um estupendo e retumbante desastre: o consumidor não abriu mão da superioridade de som dos discos de 78 rpm, mesmo com sua capacidade de tempo de reprodução inferior. A chamada “Guerra das Velocidades” (78 x 45 x 33 1/3) só começou 17 anos mais tarde, em 1948. Hoje, vivemos a “Guerra dos Clones” entre o iPod da Apple e outras caixinhas de Pandora. MP3 e peer to peer destruíram o modelo tradicional da indústria do disco, que gravava, reproduzia e comercializava música em suportes invioláveis. De um ponto de vista industrial e comercial, o CD não interessa mais. De um ponto de vista estrutural e conceitual, ele só existe porque nenhuma de suas alternativas emplacou num cenário dominado pelo sonho da liberdade de escolha – pois é isso que o consumidor deseja quando compra o iPod: a liberdade de ouvir o que quiser quando quiser. O mérito da fidelidade de reprodução não entra em pauta, o consumidor médio acha aquele som muito bom e é feliz com ele. Convenhamos, dependendo do gênero de música as perdas audíveis do formato são desprezíveis: as gravações originais – especialmente as de música pop – são ruins de fábrica. O DVD Audio não decolou. O SACD ascendeu um pouco mais, mas enfrenta turbulências. O formato tem derrapado justamente numa das razões do sucesso do CD. Quando o Compact Disc surgiu os grandes selos cavaram seus vastos e empoeirados acervos, exumando gravações que só existiam na lembrança ou na lenda. Hoje, estes mesmos selos claudicam na hora de transformar gravações analógicas em SACD. Agora vem o pior: a castidade da proteção anticópia do SACD foi violada por um hacker. Como o sucesso do MP3 demonstra que o consumidor não está interessado em timbres, dinâmica e o mais que aperfeiçoa a nossa vida, será que vale a pena a indústria investir numa mídia que já pode ser copiada, compactada e espalhada pela Internet? E agora, o que vai ser? Se eu soubesse estaria em Monte Carlo jogando 21 na companhia de duas morenas bem senoidais. Com as possibilidades ilimitadas de reprodução e compartilhamento de arquivos no meio digital, a indústria terá de oferecer condições muito vantajosas ao consumidor para conseguir sobreviver. O SACD e o DVDA foram uma estratégia nessa direção. A súbita abdicação do VHS em favor do DVD estimulou a abordagem, tudo parecia indicar que o consumidor médio – que sustenta a indústria - sofisticara-se a ponto de querer abraçar as virtudes do SACD ou do DVDA com a mesma paixão. Não funcionou. Quem gosta de alta fidelidade enfrenta um agravante. A renovação dos consumidores audiófilos ainda não é suficiente para embargar sua diluição progressiva, o que torna esse nicho pouco atraente a despeito dos milhões de dólares que o mercado movimenta. Antes de desaguar cifras vultosas no frio remanso das estatísticas, esse caudaloso rio de dinheiro se divide em milhares de afluentes: de modestos fabricantes de spikes, cabos e acessórios aos incontáveis pesos pesados do negócio – os únicos que podem sobreviver em longo prazo. Com as novas tecnologias – as de leitura óptica, por exemplo, já permitem multiplicar a capacidade de informação de um DVD - temos pela frente um destino potencialmente glorioso, mas dependente de muitos e muitos atos. Logo, incerto. O consumidor médio será mais feliz. As gravadoras devem se transformar gradualmente em canais de assinatura. Com um microcomputador dedicado, blindado e ligado ao sistema de áudio e vídeo – tendência irreversível do segmento – o consumidor vai acessar os arquivos de som e imagem dos grandes selos e escolher o que ouvir ou assistir como o programador de uma rádio ou TV exclusiva. Mediante uma assinatura barata (porque se não for barato não vai funcionar) – e diante de uma variedade obscena de títulos - o próprio consumidor vai afundar os piratas, transformando um purificado iPod no virtuoso suporte de músicas capturadas legalmente. Quem não quer liberdade de escolha? Para isso bastaria uma banda um pouco mais dilatada – ou métodos de descompressão velozes que poderiam operar por hardware em placas tão modestas quanto as de rede. A Naxos já engatinha nessa direção por 15 dólares ao mês. Herr Klaus Heymann inclusive não leva CDs em suas viagens, mas um disco rígido externo abarrotado de alegrias. Agora chegamos ao ponto: se por um lado a digitalização nos leva a um impasse, por outro nos traz a promessa de sistemas fantásticos por preços acessíveis aos sem-cobre. Enquanto discutimos se o transistor é melhor que a válvula, a eletrônica digital avança de modo irreversível para suplantar os dois. Qualquer dia desses você vai abrir o jornal e ler sobre o lançamento de um amplificador miraculoso e barato, capaz de simular – ainda que sem alarde - a assinatura sônica das marcas mitológicas do Hi-End. Exemplificando: quero ouvir a IX de Schubert, e posso escolher entre as versões de Argenta, Bhöm, Szell e Solti. Quando o amplificador digital que postulei estiver disponível, depois de eleita a gravação entrarei numa segunda etapa: em que amplificador desejo ouvir? No Krell, no Quad ou no MacIntosh? Como se dará o milagre? É simples: cada marca digna de nome tem uma assinatura sônica peculiar, resultado da engenharia, do acaso determinado pela física e do gosto pessoal do projetista, que atenua ou reforça esta ou aquela faixa do espectro para atingir o som diferenciado que paga o champanhe e o caviar. Um circuito digital poderia emular amplificadores virtuais com surpreendente fidelidade. Na dimensão impalpável dos bits, o problema é muito mais uma questão de software do que de hardware; um desafio matemático; uma questão de equações e senóides; de zeros e uns. Não posso prever o que você vai plugar na entrada do circuito. Mas o sinal que você vai obter na saída dependerá exclusivamente do número de opções pré-configuradas no amplificador. Mas Ricardo, essa simulação não é “falsificação de documento”? Não vai alterar as características da gravação? Em áudio, tudo é simulacro. Uma gravação tocada por um sistema não é uma exatamente uma “reprodução”, mas uma “simulação” que meu cérebro reconhece segundo uma série intrincada de convenções (a discussão está em “Manuscrito encontrado numa garrafa”). Falando grosso modo, violoncelos não têm auto-falantes e auto-falantes não têm violoncelos. Nem com todo o ouro de Fort Knox você vai obter a reprodução perfeita do celo, um dos instrumentos mais difíceis de serem gravados. Nem mesmo nos submarinos americanos – cujos sonares estão ligados aos sistemas de áudio mais avançados do mundo – você ouvirá a reprodução irrepreensivelmente fiel de um arco crispando a corda dó. Meu circuito imaginário não vai fraudar o “equilíbrio tonal” da gravação, mas simular circuitos que inevitavelmente sublinham e escamoteiam isto e aquilo para produzir beleza, clareza, conforto e diferenciação. Será que os amplificadores digitais de hoje – a maioria operando em Classe D – permitem antever tal promessa? Os híbridos tocam maravilhosamente bem, obrigado. E mostram-se cada vez mais refinados. Inclusive alguns equipamentos cotados a peso de ouro utilizam processadores baratos em prudente sigilo, pois a palavra “digital” ainda é má publicidade. O problema é que numa época em que o MP3 é sonho de consumo, a indústria não vai aplicar tempo e dinheiro na pesquisa e desenvolvimento de um produto que é a ambição de um grupo seleto, mas restrito. Meu postulado se baseia em algo mais íntimo, a certeza de que existem engenheiros e projetistas tão apaixonados por áudio quanto você e eu. Já ouviu os cones de madeira da JVC? Ainda na infância, prometem crescer robustos e apolíneos. Mas antes de se tornarem um projeto da empresa, são o sonho do engenheiro Satoshi Imamura, que perseguiu a “visão” e sua lógica poética durante 20 anos. Neste exato momento, em algum dos milhares de laboratórios do planeta um cientista sonha em sintonia conosco. Não sei como ele se chama, mas sei que ele existe.
|
Este site foi atualizado em 13/08/09