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Graves e Agudos
©Ricardo Labuto Gondim
Uma namorada de muitos atributos tenta me impressionar (sem necessidade,
juro):
— Ai, Vida, que música linda. Como se chama?
— Não tem nome.
— E quem compôs?
— O acaso.
— Como assim?
— A música ainda não começou, meu amor. A orquestra está afinando.
— Ah, tá. Sabe o que é? Eu não entendo muito de música clássica.
— Sério? Até agora você tinha conseguido me enganar.
— Mas orquestra afinando é bonito, né?
— Lindo. Estou todo arrepiado, olha...
A mesma namorada passeando pela Internet numa manhã de domingo:
— Vida, o homem que escreveu aquele livro sobre maestros que você detesta
está esquiando em Aspen.
— Então que o Senhor o proteja.
— Por quê?
— Se ele quebrar uma perna terá que ser sacrificado.
O maestro medíocre extrai uma
performance estupenda da orquestra. Um amigo me cobra:
— Gondim, você não vive dizendo que esse cara é um marcador de compasso?
— Digo e repito. Você tem que ouvir é quando ele sabe o que está fazendo.
O jovem audiófilo:
— Gondim, a caixa tá com problema?
— Claro que não.
— Mas que som estranho é esse?
— É um trombone em si bemol tocando num registro muito grave.
— E o maestro deixou passar?
— Se ele sabe ler música, não teve escolha.
— Mas é feio.
— Não é pra ser bonito: é música.
Há alguns anos tive o prazer de almoçar com o maestro Yeruham Scharovsky,
então titular da OSB na companhia de uma jornalista e membros da Orquestra.
Conversando sobre as sinfonias de Brahms, mencionei que Charles Mackerras
havia estudado os manuscritos originais e identificado – era o que eu
lembrava na época e expliquei que não tinha certeza – uns 80 erros na edição
mais difundida das partituras. (Ao lado você pode notar as armadilhas que a
escrita aparentemente clara de Brahms criava para os copistas.) Perguntei o que o maestro achava. Ele
minimizou a questão com um gesto, sorriu e fulminou:
— São 80 erros lindos.
Depois dessa é claro que comprei o álbum de Mackerras gravado pela Telarc,
com partituras coligidas e a excelente Orquestra de Câmara Escocesa. Sir
Charles tentou reproduzir a prática do período das sinfonias, trabalhando
com vibratos isolados, tempos bem marcados, etc. E incluiu a alternativa da
primeira versão do andante da Sinfonia n. 1, revisado por
Brahms depois da estréia e muito mais ousado que a versão definitiva. A
gravação da Telarc é surpreendentemente seca, não tem aquela “dimensão”
habitual que faz com que um quarteto de cordas soe como a Filarmônica de
Viena. No conjunto, uma das melhores versões desde a invenção da gravação
digital. Mas nada é decisivo. Sejam quantas forem, as correções de Mackerras se diluem entre as
milhares de notas e andamentos das quatro partituras. Ouvindo a Terceira com
Bernstein, entendi o que Scharovsky quis dizer: são mesmo 80 erros lindos.
Uma amiga “culturete” (caçadora de eventos culturais que se resigna a ver ou
ouvir qualquer coisa só pra não ficar em casa) me leva a um recital
injustificável. Pareço impaciente, ela se irrita:
— Você tem algum compromisso depois?
— Não.
— Então pára de olhar as horas.
— Desculpa, mas é compulsivo. Quando o músico olha muito para o metrônomo,
eu olho para o meu relógio.

O audiófilo:
— Prefiro Beethoven com Abbado.
O outro:
— Prefiro Beethoven com Rattle.
O Gondim:
— Prefiro só o Beethoven, sem esse tipo de ajuda.
Pegadinha:
— Gondim, faz de conta que você está num avião com o Abbado, o Rattle e o
George Bush. O que você diria?
— O Abbado é um grande intérprete de música moderna e contemporânea. Acho
Rattle um mal regente, mas não me permito duvidar de suas qualidades
pessoais. Eles parecem homens corteses, acessíveis, e deve ser incrível
conversar com eles.
— Mas e o Bush?
— Não estamos num avião? Eu diria: “George, seja um bom menino e vá brincar
lá fora”.
No teatro, o concerto vai mal. Um amigo reage:
— O que você acha desse cara regendo?
— E ele está?

Momentos depois quem estranha sou eu:
— Mas afinal, quem é o regente?
— O cara de pé com a varinha na mão.
— E a orquestra foi avisada?
Fim do concerto. Não tenho ânimo para aplaudir sequer por educação. Meu
amigo cruza os braços ostensivamente. Uma velhinha:
— Por que o senhor não aplaude?
— Porque eu entendo um pouquinho de música.
— E o seu amigo?
— Entende muito mais do que eu.
— Gondim velho de guerra, gastei 50 mil dólares no meu sistema novo!
— Uau! Caraca! E você consegue ouvir tudo isso?
— Pelo que eu vi por aí, até 50 mil eu consigo escutar.
— E acima disso?
— Acho tudo igual.
— Mas que sorte a sua, hein? É bom a gente ter limites. "Caveat comptor".
— Isso é latim?
— Vantagens de uma educação clássica. Significa "acautele-se o comprador".
— Ricardo, quê isso?
— Condicionador de energia.
— Mas não comprime o sinal?
— Sim, na verdade afeta um pouquinho a dinâmica, mas protege o sistema
inteiro.
— Será que vale a pena?
— Tanto quanto usar camisinha.

— Gondim, você ouve “cabos”?
— Com certeza.
— E qual o melhor?
— O que eu não consigo ouvir.
O regente autocrata dá uma bronca na orquestra:
— O que vocês pensam que estão fazendo? Não é assim que se toca Brahms!
— Mas maestro... Isso é Schumann.
— Não é mais!
— Se você pudesse viajar ao passado, que regente gostaria de conhecer?
— Toscanini. Pierre Monteux. Mravinsky. Golovanov... Essa viagem
pode demorar, sabe?
— E hoje, quem você gostaria?
— Daniel Barenboim e Valery Gergiev.
— E se pudesse viajar pro futuro?
— Acho melhor a gente ficar em casa.
Uma amiga:
— Pô, Ri, não acredito que você não gosta de Händel.
— Também não gosto de jiló e óleo de fígado de bacalhau.
— Mas você não enxerga nenhum mérito nele?
— Claro que sim. O mérito histórico. Händel inventou a música de elevador.

Ouvindo a Sinfonia Alpina com Mravinsky, um amigo se volta pra mim:
— Cara, você não vê os Alpes, não vê os abismos e essa coisa toda?
— Não.
— Pô, Ricardo! Que falta de imaginação! Você devia relaxar mais quando ouve
música.
— Gostaria, mas não consigo: tenho medo dessa neve toda nos alto-falantes.
O aniversário de uma amiga num restaurante com música ao vivo. Não sei que
diabos estão tocando:
— Pat, isso é música moderna?
— Não, meu lindo. O garçom derrubou a bandeja.
— Que sistema você teria se fosse rico?
— Eu não teria um som “milionário”, mas uma sala maravilhosa e um sistema
que tocasse bem, muito bem. Pertenço à minoria que não acredita na relação
entre preço estratosférico e performance. Um número numa etiqueta não pode
legitimar o que é bom.
— Então qual é o critério?
— O ouvido é o critério.
— Mas se o ouvido te enganar?
— Não existe problema em ser enganado pelos próprios ouvidos. O sistema é
para ouvir música, não para impressionar visitas. Ainda que estivesse
enganado, estaria feliz.

No bar, de madrugada:
— Você não acha que o Brasil tem ótimos regentes?
— Certamente: Henrique Morelenbaum, Ligia Amadio, Roberto de Regina, Roberto
Ricardo Duarte...
— Mas a gente não ouve muito falar neles.
— Aqui. Lá fora seu valor é reconhecido. As gravações que Ligia Amadio fez
na Europa dos concertos de Rachmaninov com Moura Castro são uma aula de
regência; na terra de Karl Richter, Roberto de Regina é considerado um dos
maiores intérpretes de Bach. Mas como as nossas elites não estão à altura do
país - são de segunda e terceira classes - a grandeza no Brasil é quase
anônima.
De novo o jovem audiófilo:
— Qual é marca desse amplificador que está tocando?
— É X. Mas isso não tem importância.
— E das caixas?
— É Y. Mas isso não tem importância.
— E o que tem importância?
— O som. O som é tudo que importa.
— E este som é bom?
— Depende. O que você acha?
— Uns caras dizem que é ruim, outros dizem que é bom...
— Ouça com atenção e julgue por si mesmo.
Momentos depois o rapaz diz:
— Não gostei do teu som, Gondim.
— É ruim?
— Não sei dizer se é bom ou ruim. Mas sei que não gosto.
— E isso é tudo que vale a pena saber.

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