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09/09/10

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Crítica da Ambivalência
O Manual para a (im)popularidade do crítico de áudio

©Ricardo Labuto Gondim
 

Nada é mais perigoso que a Verdade, que pode abrir os olhos de um Homem ou cegá-lo. Quem pensa deter seu monopólio não quer entender as razões do outro, mas impor-se por uma simulação de dialética – ou por sua arbitrária supressão.

Assim como a paixão pelo futebol transforma cada torcedor num técnico, todo audiófilo é um crítico. Um mau crítico, infelizmente, pois em geral não temos opiniões, apenas verdades.

Considerando nossa capacidade ilimitada de abdicar da Razão, empreendi um manual prático para a crítica dos equipamentos de áudio. Não importa se você exerce a suposta “arte” diante do teclado ou da mesa do bar, os processos mentais são os mesmos – ao menos deveriam ser.

Pleiteando o escândalo, a polêmica e também a crítica, entabulei regras contrárias à lógica e aos bons costumes. Fica ao seu exclusivo critério negá-las ou segui-las ao pé da letra: o erro, a ilusão ou a mentira são bens de consumo tão desejados quanto qualquer outro.

O Manual não poupa audiófilos, puro-audiófilos e profissionais: esquivei-me do corporativismo, mas não de minhas próprias fraquezas.

Antes de prosseguir, defino as três categorias de críticos, ignorando as subcategorias possíveis em nome da simplicidade, da inépcia e do ócio:

Crítico Audiófilo: alguém que ama a música e deseja ouvi-la do modo (X) mais fiel possível ou (Y) mais belo possível. Nesta categoria me afirmo como audiófilo de cromossomo X.

Crítico Puro-Audiófilo: um infeliz que ama sons e equipamentos no lugar da música, tornando-se escravo dos seus brinquedos. Um estado trágico, patético, do qual escapei por obra do acaso ou da Providência – embora, por força da condição humana, nele possa incorrer num momento ou outro de insensatez ou pura euforia.

Crítico Profissional: um sujeito com ego suficientemente grande para achar que sua opinião é tão especial que merece ser divulgada. Dessa triste condição não pude escapar por diversas razões, entre elas o pecado da vaidade.

Leia o Manual e escolha o seu caminho. Você vai perceber que cada um de nós – crítico voluntário ou profissional – inevitavelmente incorre em algum tipo de erro, ilusão ou fantasia:

Enquanto o equipamento amacia, estude o manual e acesse o site do fabricante. Tenha a decência de acreditar em tudo o que lê, especialmente quando as justificativas para um suposto desempenho abusarem do quântico ou do mágico. Dados exóticos como ligas metálicas secretas, galvanizações obscuras e banhos alquímicos impõem um charme todo especial ao texto.
 
Por mais absurdos que sejam os dados, trate-os com naturalidade: estabeleça uma reputação de inteligência, profundidade e atualização. O crítico só consegue fazer amigos, influenciar pessoas e burlar objeções embaraçosas quando leva o leitor a acreditar que suas faculdades intelectuais estão numa esfera muito acima da mais vertiginosa egolatria.
 
Nunca, sob nenhuma hipótese desconsidere a marca do produto. Áudio é religião e equipamentos não têm usuários, têm devotos. Exemplificando: para uma fatia substancial de leitores, todo e qualquer modelo de caixa B&W é necessariamente uma Revelação. Se os agudos de um dado espécime forem incômodos – pois enquanto algumas B&W são transparentes outras tendem a um brilho compacto – use um eufemismo qualquer e transforme o pecado em virtude. Diga algo no gênero “os agudos têm aquela frontalidade que irá agradar aos amantes da marca”.
 
O espírito é este. Não provoque o leitor, não estimule opiniões pessoais: um dos pilares de sustentação da indústria do Hi-End é a irracionalidade.
 
Se o produto tiver sido avaliado por alguma publicação estrangeira, leia a matéria de cabo a rabo. Não cometa a ousadia de discordar dos medalhões da imprensa internacional, especialmente se o camarada for europeu. Para alguns leitores, a geografia do nascimento é determinante na evolução do raciocínio e da capacidade auditiva. Segundo a eugenia audiófila, críticos tropicais tendem a ouvir menos.
 
No momento da audição desligue os telefones, tire a sogra de casa, as crianças da sala, e degole todos os poodles da vizinhança num raio de 500 metros. 
 
Selecione o supra-sumo das gravações. Nada de registros convencionais. Nada de gravações chapadas, metabolicamente frias, fora de fase ou com balanço deficiente. Considere um mundo ideal, de agudos perfeitos, graves profundos e articulados. Lembre-se: o puro-audiófilo – especialmente o “estribado”, com “bala na agulha” - acredita que a música é serva dos equipamentos, não o contrário.
 
Considere também que o limite máximo de um sistema está na gravação. Se você não utilizar registros de alto nível, pode nivelar um equipamento caríssimo com outro infinitamente mais barato. Isso não é bom negócio para profissionais: convém agradar mais à indústria do que aos leitores.
 
Gravações mono com Toscanini e Furtwängler são sinais inequívocos de um nostálgico embotamento. No fundo, gravações históricas não são um ato de amor à música, mas a consumação de uma vaidade patológica. Mostre-se moderno e exigente, não utilize nenhuma.
 
Trate o leitor como um tolo que deseja comprar um produto para ser escravizado por ele - passando o resto dos seus dias em busca de gravações capazes de saciar as vaidades imperativas e irrevogáveis do sistema.
 
Por outro lado, trate o leitor como um igual. Um ser tão exigente e requintado quanto você. Alguém disposto a jogar fora toda e qualquer gravação que afete seus ouvidos preciosos e delicados.
 
Ao diabo com Bhöm, Karajan, Giulini, Jochum e outros luminares da constelação que a DG formou na década de 1970. Vamos estimular os leitores a consumir música a partir das gravadoras, não a partir dos intérpretes. Viva Erich Kunzel, viva a orquestra de Cincinnati, viva a impostura e a mediocridade. 
 
Não importa quanto custe o equipamento a ser testado, ligue-o ao que você tiver de melhor. E daí que o cabo de caixa custa o dobro do amplificador avaliado, que o cabo de força custa um terço, e o interlink, a metade? Você tem que extrair a suprema performance do produto em qualquer circunstância, sem considerar sua esfera de consumo. Não é culpa sua se o leitor não tem um arsenal sonoro em casa, nem um caminhão de dinheiro para comprar acessórios. Seja profissional: as mazelas sociais do mundo não lhe dizem respeito.
 
Revogue as leis fundamentais do Universo, como reciprocidade e interdependência. Despreze conceitos antiquados como relações de causa e efeito, ação e reação.
 
Ao apontar uma deficiência qualquer no equipamento, não esqueça de justapor uma virtude. Se for preciso – por mais que você odeie comparações – socorra-se com elas. Quando um dado produto derrapar, diga que você já ouviu produtos seis vezes mais caros capotando na mesma curva.
 
Jamais desafie um fabricante. Seja monarquista, enalteça a dinastia das marcas.
 
Revogue a realidade. Faça de conta que a sua sala de testes é um modelo de virtudes a serem imitadas, o palco da perfeição. Se a sala não for grande coisa – caso da maioria dos leitores - seja evasivo. Conduza o texto numa outra direção e alimente um status prudente e desejável.
 
Aliás, é conveniente testar os produtos em salas miraculosamente virtuosas. Alguns leitores preferem ler sobre produtos testados em ambientes sublimes, a despeito de viverem uma realidade mais modesta. É mais fácil lidar com o ideal do que com o concreto.
 
Suicide o ego. Seja escrupulosamente neutro. Não tome posição alguma. Faça de conta que você NÃO É um ser humano com opiniões pessoais claras e definidas. Opiniões destroem a ilusão de que toda avaliação subjetiva é – justamente - subjetiva; um evento anedótico, episódico, jamais “universal”.
 
Leis universais criam uma ilusão de ciência, escamoteando o caráter subjetivo da crítica e estabelecendo reputações. Faça afirmações categóricas. Diga que a caixa X se comporta melhor a 56,348484801 cm da parede de fundo. Esqueça o pé direito, esqueça as almofadas, o revestimento, a espessura do tapete e os demais fenômenos que tornam toda e qualquer sala de audição um espaço único em qualquer lugar do planeta.
 
Quando for conveniente, esqueça as memórias acumuladas ao longo da vida. Mostre-se um juiz tão imparcial e atemporal quanto o Rei Salomão.
 
Ou, quando for conveniente, faça exatamente o contrário.
 
Jamais cometa a imprudência de valorizar demais o que é barato em detrimento do mais caro. Se o CD player é Burmester, tem que ser necessariamente mais puro que o Rega, não importa o modelo.
 
Quando a sua credibilidade começar a ser questionada ou sedimentar-se; quanto seus artigos tornarem-se mera repetição; quando as estruturas do seu pensamento se mostrarem tão evidentes quanto frágeis, crie uma polêmica qualquer ferindo impetuosamente uma das regras anteriores.
 
A mentira – essa prostituta tão barata e tão disponível - é uma opção voluntária, um ato da vontade. Se para alguns é aceitável na sociedade humana, é imperdoável no mundo da crítica. Felizmente, considerando-se os recursos deste manual, ela é totalmente desnecessária.

 

 

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Este site foi atualizado em 12/08/09