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Crítica da Ambivalência
O Manual para a (im)popularidade do crítico de
áudio
©Ricardo Labuto Gondim
Nada é mais perigoso que a Verdade, que
pode abrir os olhos de um Homem ou cegá-lo. Quem pensa deter seu monopólio
não quer entender as razões do outro, mas impor-se por uma simulação de
dialética – ou por sua arbitrária supressão.
Assim como a paixão pelo futebol
transforma cada torcedor num técnico, todo audiófilo é um crítico. Um mau
crítico, infelizmente, pois em geral não temos opiniões, apenas verdades.
Considerando nossa capacidade ilimitada
de abdicar da Razão, empreendi um manual prático para a crítica dos
equipamentos de áudio. Não importa se você exerce a suposta “arte” diante do
teclado ou da mesa do bar, os processos mentais são os mesmos – ao menos
deveriam ser.
Pleiteando o escândalo, a polêmica e
também a crítica, entabulei regras contrárias à lógica e aos bons costumes.
Fica ao seu exclusivo critério negá-las ou segui-las ao pé da letra: o erro,
a ilusão ou a mentira são bens de consumo tão desejados quanto qualquer
outro.
O Manual não poupa audiófilos,
puro-audiófilos e profissionais: esquivei-me do corporativismo, mas não de
minhas próprias fraquezas.
Antes de prosseguir, defino as três
categorias de críticos, ignorando as subcategorias possíveis em nome da
simplicidade, da inépcia e do ócio:
Crítico Audiófilo: alguém que ama
a música e deseja ouvi-la do modo (X) mais fiel possível ou (Y) mais belo
possível. Nesta categoria me afirmo como audiófilo de cromossomo X.

Crítico Puro-Audiófilo: um
infeliz que ama sons e equipamentos no lugar da música, tornando-se escravo
dos seus brinquedos. Um estado trágico, patético, do qual escapei por obra
do acaso ou da Providência – embora, por força da condição humana, nele possa
incorrer num momento ou outro de insensatez ou pura euforia.
Crítico Profissional: um sujeito
com ego suficientemente grande para achar que sua opinião é tão especial que
merece ser divulgada. Dessa triste condição não pude escapar por diversas
razões, entre elas o pecado da vaidade.
Leia o Manual e escolha o seu caminho.
Você vai perceber que cada um de nós – crítico voluntário ou profissional –
inevitavelmente incorre em algum tipo de erro, ilusão ou fantasia:
 | Enquanto o equipamento amacia, estude
o manual e acesse o site do fabricante. Tenha a decência de acreditar em
tudo o que lê, especialmente quando as justificativas para um suposto
desempenho abusarem do quântico ou do mágico. Dados exóticos como ligas
metálicas secretas, galvanizações obscuras e banhos alquímicos impõem um
charme todo especial ao texto.
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 | Por mais absurdos que sejam os dados,
trate-os com naturalidade: estabeleça uma reputação de inteligência,
profundidade e atualização. O crítico só consegue fazer amigos,
influenciar pessoas e burlar objeções embaraçosas quando leva o leitor a
acreditar que suas faculdades intelectuais estão numa esfera muito acima
da mais vertiginosa egolatria.
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 | Nunca, sob nenhuma hipótese
desconsidere a marca do produto. Áudio é religião e equipamentos não têm
usuários, têm devotos. Exemplificando: para uma fatia substancial de
leitores, todo e qualquer modelo de caixa B&W é necessariamente uma
Revelação. Se os agudos de um dado espécime forem incômodos – pois
enquanto algumas B&W são transparentes outras tendem a um brilho compacto
– use um eufemismo qualquer e transforme o pecado em virtude. Diga algo no
gênero “os agudos têm aquela frontalidade que irá agradar aos amantes da
marca”.
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 | O espírito é este. Não provoque o
leitor, não estimule opiniões pessoais: um dos pilares de sustentação da
indústria do Hi-End é a irracionalidade.
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 | Se o produto tiver sido avaliado por
alguma publicação estrangeira, leia a matéria de cabo a rabo. Não cometa a
ousadia de discordar dos medalhões da imprensa internacional,
especialmente se o camarada for europeu. Para alguns leitores, a geografia
do nascimento é determinante na evolução do raciocínio e da capacidade
auditiva. Segundo a eugenia audiófila, críticos tropicais tendem a ouvir
menos.
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 | No momento da audição desligue os
telefones, tire a sogra de casa, as crianças da sala, e degole todos os
poodles da vizinhança num raio de 500 metros.
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 | Selecione o supra-sumo das gravações.
Nada de registros convencionais. Nada de gravações chapadas,
metabolicamente frias, fora de fase ou com balanço deficiente. Considere
um mundo ideal, de agudos perfeitos, graves profundos e articulados.
Lembre-se: o puro-audiófilo – especialmente o “estribado”, com “bala na
agulha” - acredita que a música é serva dos equipamentos, não o contrário.
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 | Considere também que o limite máximo
de um sistema está na gravação. Se você não utilizar registros de alto
nível, pode nivelar um equipamento caríssimo com outro infinitamente mais
barato. Isso não é bom negócio para profissionais: convém agradar mais à
indústria do que aos leitores.
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 | Gravações mono com Toscanini e
Furtwängler são sinais inequívocos de um nostálgico embotamento. No
fundo, gravações históricas não são um ato de amor à música, mas a
consumação de uma vaidade patológica. Mostre-se moderno e exigente, não
utilize nenhuma.
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 | Trate o leitor como um tolo que
deseja comprar um produto para ser escravizado por ele - passando o resto
dos seus dias em busca de gravações capazes de saciar as vaidades
imperativas e irrevogáveis do sistema.
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 | Por outro lado, trate o leitor como
um igual. Um ser tão exigente e requintado quanto você. Alguém
disposto a jogar fora toda e qualquer gravação que afete seus ouvidos
preciosos e delicados.
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 | Ao diabo com Bhöm, Karajan, Giulini,
Jochum e outros luminares da constelação que a DG formou na década de
1970. Vamos estimular os leitores a consumir música a partir das
gravadoras, não a partir dos intérpretes. Viva Erich Kunzel, viva a
orquestra de Cincinnati, viva a impostura e a mediocridade.
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 | Não importa quanto custe o
equipamento a ser testado, ligue-o ao que você tiver de melhor. E daí que
o cabo de caixa custa o dobro do amplificador avaliado, que o cabo de
força custa um terço, e o interlink, a metade? Você tem que extrair a
suprema performance do produto em qualquer circunstância, sem considerar
sua esfera de consumo. Não é culpa sua se o leitor não tem um arsenal
sonoro em casa, nem um caminhão de dinheiro para comprar acessórios. Seja
profissional: as mazelas sociais do mundo não lhe dizem respeito.
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 | Revogue as leis fundamentais do
Universo, como reciprocidade e interdependência. Despreze conceitos
antiquados como relações de causa e efeito, ação e reação.
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 | Ao apontar uma deficiência qualquer
no equipamento, não esqueça de justapor uma virtude. Se for preciso – por
mais que você odeie comparações – socorra-se com elas. Quando um dado
produto derrapar, diga que você já ouviu produtos seis vezes mais caros
capotando na mesma curva.
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 | Jamais desafie um fabricante. Seja
monarquista, enalteça a dinastia das marcas.
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 | Revogue a realidade. Faça de conta
que a sua sala de testes é um modelo de virtudes a serem imitadas, o palco
da perfeição. Se a sala não for grande coisa – caso da maioria dos
leitores - seja evasivo. Conduza o texto numa outra direção e alimente um
status prudente e desejável.
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 | Aliás, é conveniente testar os
produtos em salas miraculosamente virtuosas. Alguns leitores preferem ler
sobre produtos testados em ambientes sublimes, a despeito de viverem uma
realidade mais modesta. É mais fácil lidar com o ideal do que com o
concreto.
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 | Suicide o ego. Seja escrupulosamente
neutro. Não tome posição alguma. Faça de conta que você NÃO É um ser
humano com opiniões pessoais claras e definidas. Opiniões destroem a
ilusão de que toda avaliação subjetiva é – justamente - subjetiva; um
evento anedótico, episódico, jamais “universal”.
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 | Leis universais criam uma ilusão de
ciência, escamoteando o caráter subjetivo da crítica e estabelecendo
reputações. Faça afirmações categóricas. Diga que a caixa X se comporta
melhor a 56,348484801 cm da parede de fundo. Esqueça o pé direito, esqueça
as almofadas, o revestimento, a espessura do tapete e os demais fenômenos
que tornam toda e qualquer sala de audição um espaço único em qualquer
lugar do planeta.
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 | Quando for conveniente, esqueça as
memórias acumuladas ao longo da vida. Mostre-se um juiz tão imparcial e
atemporal quanto o Rei Salomão.
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 | Ou, quando for conveniente, faça
exatamente o contrário.
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 | Jamais cometa a imprudência de
valorizar demais o que é barato em detrimento do mais caro. Se o CD player
é Burmester, tem que ser necessariamente mais puro que o Rega, não importa
o modelo.
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 | Quando a sua credibilidade começar a
ser questionada ou sedimentar-se; quanto seus artigos tornarem-se mera
repetição; quando as estruturas do seu pensamento se mostrarem tão
evidentes quanto frágeis, crie uma polêmica qualquer ferindo impetuosamente uma das regras anteriores.
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 | A mentira – essa prostituta tão
barata e tão disponível - é uma opção voluntária, um ato da vontade. Se
para alguns é aceitável na sociedade humana, é imperdoável no mundo da
crítica. Felizmente, considerando-se os recursos deste manual, ela é
totalmente desnecessária.
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