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Dois contos e uma
fábula
©Ricardo Labuto Gondim
A Queda do Rei
Era uma vez um reino de montanhas verdes, de vales sulcados por rios
cristalinos, de planícies cobertas de trigo. Uma terra próspera, de belezas
infinitas. Tudo estava bem e em paz – o que segundo leis universais não
pressagia nada de bom.
O rei e seus
súditos adoravam música “em conserva”. E quando um sol vermelho despedia as
labutas do arado, do plantio e da colheita, por trás de cada janela a luz
acolhedora de um bom fogo escapava ao som de orquestras, quartetos, órgãos,
cravos e o mais que um dilatado anacronismo pode nos permitir.
Eis que num dia como qualquer outro, surgiu uma carruagem tão repleta de
ostentações que nela já não cabia o bom-gosto. Era puxada por seis cavalos
estupendos, refreados diante da estalagem. Dois austeros cavalheiros
ricamente trajados desceram escoltados pelo cocheiro e por um criado de
libré. Instalados em quartos contíguos, empilharam lustrosos e pesados baús
de viagem.
No dia seguinte, suas roupas e maneiras lhes fraquearam a presença do Rei,
que não os fez esperar mais que dois movimentos de Haydn. Diante de Sua
Majestade a circunspecção e a arrogância se inclinaram, e os cortesãos se
apresentaram como embaixadores de nobres marcas de equipamentos de áudio.
Sua Majestade explicou que não precisava de nada, estava feliz com o sistema
que ganhara quando ainda era um príncipe – e que teve a generosidade de
exibir. 
Os gentis-homens elogiaram os equipamentos, mas com uma delicada reticência
aqui e ali, acumulando omissões que formaram um grande hiato. A atmosfera
envenenada com açúcar contaminou o Rei, que se mostrou curioso em ouvir as
pequenas grandezas nos baús que a recatada lascívia dos embaixadores soubera
exaltar.
Jamais saberemos se o sistema – apresentado numa liturgia pomposa, celebrada
com estudados maneirismos de perito – era melhor ou apenas diferente do
outro. Mas os contrastes foram justificados das lentes do laser ao cone dos
falantes - com explicações que não pouparam as galáxias nem os neutrinos.
Naquele dia, quando o sol recolheu os arados, os cofres reais foram
aliviados do peso de muitas arrobas de ouro e de prata, abrindo espaço para
novos impostos.

Foi assim que Sua Majestade rebaixou-se de melômano-audiófilo a audiófilo em
estado puro. E nunca mais ouviu uma só nota de música, só as virtudes
imponderáveis de um sistema que jamais o saciou.
Conta-se que o reino ainda existe, que os gentis-homens não mudaram, e que
são convocados pelo rei uma ou duas vezes por ano. Viajam na mesma
carruagem, mais opulenta que nunca.
A Fábula do Cão e
da Raposa audiófilos
Era uma vez um cão
capaz de escutar os pássaros em secretos ninhos, os arroios por detrás dos
vales e o vento que custava a chegar. Em sua casa ele tinha um sistema de
som excelente, mas roía-se de inveja quando a raposa descrevia com
requintadas minúcias as diáfanas nuances que ouvia em seu próprio
equipamento. Um dia, o cão não resistiu e disse à raposa:
- Amiga raposa, porque não me vende o teu sistema? Pelo que te ouço contar,
talvez eu saiba apreciá-lo melhor.
- Ai, ai! O que seria de mim? Não posso passar sem boa música!
- Eu te daria o meu sistema...
- Mas o meu deve ter mais valor.
- ...e ainda tudo o que tenho: minha casa, meu osso de elefante, minha
coleira, minhas tigelas, os fardos de Eukanuba e meu patinho de borracha.
E a raposa concordou.
O cão teve de mudar-se para uma casinha menor. Nos primeiros dias,
maravilhou-se da sua aquisição descobrindo muitas belezas. Mas com o tempo,
acostumou-se a elas. A beleza virou rotina, e mais tarde, mera diferença.
Além disso, descobriu que seus ouvidos apurados percebiam uma limitação
qualquer, muito abstrata, que ele era incapaz de verbalizar. Resolveu
meditar no passeio tantas vezes adiado por seguidas audições. Foi quando
encontrou a raposa na bela casa que um dia fora sua:
- Como vai, amiga raposa?
- Muito bem, meu caro amigo, e muito feliz com teu antigo sistema.
- Mas se o meu agora é melhor que o teu...

A raposa riu-se:
- Mas que cãozinho cheio de cobiça! Trocou uma miragem por outra, dando em
troca tudo o que tinha, inclusive a Razão. Não soube entender o que poucos
bichos sabem - e menos ainda querem admitir: as maiores limitações de um
sistema de áudio estão nas gravações que ele reproduz. A gravação é
imutável, definitiva, e os seus limites, nem o mais apurado sistema do mundo
é capaz de ultrapassar.
E o cão – que adorava madeiras – voltou pra casa com saudades do antigo
sistema, que adocicava os fagotes.
Moral da história: ouve melhor quem ouve a razão.
Mare Internum
“Em algum lugar nas
águas do Mare Nostrum, deveis saber que existe uma estreita faixa onde o
furacão, o nostromo e a intempérie se irradiam do cetro traiçoeiro de
Netuno. Eu, general Caio Márcio Túlio Meridianu vi o lugar entre as
centelhas dos relâmpagos, por trás de muralhas de água que rasgavam o chumbo
do céu. A vontade de Roma prevalece quando é a vontade de Júpiter, de modo
que o nosso barco castigado não cedeu, e minha espada ávida de triunfo
desembainhou-se em Cartago. Mas naquela noite, como que se erguendo do
centro famigerado de um vórtice, vi um rochedo agudo e escarpado, de onde
uma sereia me seduzia de mãos estendidas. Nem antes nem depois vi beleza
igual, e não é possível que exista outra voz como aquela. Não fosse a
lealdade que a inclemência do chicote e a sombra do Império inspiravam em
meus legionários, de alma e coração teria me lançado ao mar. Sou romano, o
mar não é um túmulo indigno para quem saciou os cofres de Roma e a sede de
Marte com a mesma lâmina.’
‘Se sobrevivi não
foi para contar-vos, mas para morrer uma outra morte. Depois de temperar o
aço no sangue rebelde dos cartagineses, em vão esgotei os meus dias
perseguindo meios possíveis e impossíveis para reproduzir o canto da sereia.
Estive entre sábios e entre canibais. Estive entre filósofos, oráculos e
pitonisas. Nada no Império que aniquilou os deuses dos inimigos vencidos
pode recriar os sons que outrora me encantaram.’
‘Saibam, ó nobres e egrégios senadores, que não me gabo dos meus feitos.
Servi à Roma como deve fazer um soldado. Mas o céu curvado sobre os meus
ombros já não é o mesmo. Marte esqueceu-se de mim, Saturno é quem me
governa. Rogando por vossa compreensão e vossas bênçãos, deponho minhas
armas perante vós.’
‘Disse-me Saturno
em um sonho: ‘se queres ouvir a sereia, deveis buscar a sereia e não um
simulacro’. Amadureci, perdi minhas ilusões, já não sonho com miragens.
Armei um portentoso barco para me lançar à tempestade, e agora – peço-vos –
deixai-me partir. Minha jornada não será um gesto de coragem, de desespero
ou senilidade: sou romano, sou sensato, sou estóico.’
‘Vós que sois a essência de Roma podeis entender quando digo: o mar está
chamando”.
[Registros históricos encontrados numa escavação de 1934 em Turim citam
brevemente o general Caio Márcio Túlio Meridianu. Ao que consta, caiu de seu
barco durante uma tempestade na costa africana.]
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