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18/02/10

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Dois contos e uma fábula

©Ricardo Labuto Gondim
 

A Queda do Rei

Era uma vez um reino de montanhas verdes, de vales sulcados por rios cristalinos, de planícies cobertas de trigo. Uma terra próspera, de belezas infinitas. Tudo estava bem e em paz – o que segundo leis universais não pressagia nada de bom.

O rei e seus súditos adoravam música “em conserva”. E quando um sol vermelho despedia as labutas do arado, do plantio e da colheita, por trás de cada janela a luz acolhedora de um bom fogo escapava ao som de orquestras, quartetos, órgãos, cravos e o mais que um dilatado anacronismo pode nos permitir.

Eis que num dia como qualquer outro, surgiu uma carruagem tão repleta de ostentações que nela já não cabia o bom-gosto. Era puxada por seis cavalos estupendos, refreados diante da estalagem. Dois austeros cavalheiros ricamente trajados desceram escoltados pelo cocheiro e por um criado de libré. Instalados em quartos contíguos, empilharam lustrosos e pesados baús de viagem.

No dia seguinte, suas roupas e maneiras lhes fraquearam a presença do Rei, que não os fez esperar mais que dois movimentos de Haydn. Diante de Sua Majestade a circunspecção e a arrogância se inclinaram, e os cortesãos se apresentaram como embaixadores de nobres marcas de equipamentos de áudio. Sua Majestade explicou que não precisava de nada, estava feliz com o sistema que ganhara quando ainda era um príncipe – e que teve a generosidade de exibir.

Os gentis-homens elogiaram os equipamentos, mas com uma delicada reticência aqui e ali, acumulando omissões que formaram um grande hiato. A atmosfera envenenada com açúcar contaminou o Rei, que se mostrou curioso em ouvir as pequenas grandezas nos baús que a recatada lascívia dos embaixadores soubera exaltar.

Jamais saberemos se o sistema – apresentado numa liturgia pomposa, celebrada com estudados maneirismos de perito – era melhor ou apenas diferente do outro. Mas os contrastes foram justificados das lentes do laser ao cone dos falantes - com explicações que não pouparam as galáxias nem os neutrinos. Naquele dia, quando o sol recolheu os arados, os cofres reais foram aliviados do peso de muitas arrobas de ouro e de prata, abrindo espaço para novos impostos.

Foi assim que Sua Majestade rebaixou-se de melômano-audiófilo a audiófilo em estado puro. E nunca mais ouviu uma só nota de música, só as virtudes imponderáveis de um sistema que jamais o saciou.

Conta-se que o reino ainda existe, que os gentis-homens não mudaram, e que são convocados pelo rei uma ou duas vezes por ano. Viajam na mesma carruagem, mais opulenta que nunca.


A Fábula do Cão e da Raposa audiófilos

Era uma vez um cão capaz de escutar os pássaros em secretos ninhos, os arroios por detrás dos vales e o vento que custava a chegar. Em sua casa ele tinha um sistema de som excelente, mas roía-se de inveja quando a raposa descrevia com requintadas minúcias as diáfanas nuances que ouvia em seu próprio equipamento. Um dia, o cão não resistiu e disse à raposa:
- Amiga raposa, porque não me vende o teu sistema? Pelo que te ouço contar, talvez eu saiba apreciá-lo melhor.
- Ai, ai! O que seria de mim? Não posso passar sem boa música!
- Eu te daria o meu sistema...
- Mas o meu deve ter mais valor.
- ...e ainda tudo o que tenho: minha casa, meu osso de elefante, minha coleira, minhas tigelas, os fardos de Eukanuba e meu patinho de borracha.

E a raposa concordou.

O cão teve de mudar-se para uma casinha menor. Nos primeiros dias, maravilhou-se da sua aquisição descobrindo muitas belezas. Mas com o tempo, acostumou-se a elas. A beleza virou rotina, e mais tarde, mera diferença. Além disso, descobriu que seus ouvidos apurados percebiam uma limitação qualquer, muito abstrata, que ele era incapaz de verbalizar. Resolveu meditar no passeio tantas vezes adiado por seguidas audições. Foi quando encontrou a raposa na bela casa que um dia fora sua:
- Como vai, amiga raposa?
- Muito bem, meu caro amigo, e muito feliz com teu antigo sistema.
- Mas se o meu agora é melhor que o teu...

A raposa riu-se:
- Mas que cãozinho cheio de cobiça! Trocou uma miragem por outra, dando em troca tudo o que tinha, inclusive a Razão. Não soube entender o que poucos bichos sabem - e menos ainda querem admitir: as maiores limitações de um sistema de áudio estão nas gravações que ele reproduz. A gravação é imutável, definitiva, e os seus limites, nem o mais apurado sistema do mundo é capaz de ultrapassar.

E o cão – que adorava madeiras – voltou pra casa com saudades do antigo sistema, que adocicava os fagotes.

Moral da história: ouve melhor quem ouve a razão.


Mare Internum

“Em algum lugar nas águas do Mare Nostrum, deveis saber que existe uma estreita faixa onde o furacão, o nostromo e a intempérie se irradiam do cetro traiçoeiro de Netuno. Eu, general Caio Márcio Túlio Meridianu vi o lugar entre as centelhas dos relâmpagos, por trás de muralhas de água que rasgavam o chumbo do céu. A vontade de Roma prevalece quando é a vontade de Júpiter, de modo que o nosso barco castigado não cedeu, e minha espada ávida de triunfo desembainhou-se em Cartago. Mas naquela noite, como que se erguendo do centro famigerado de um vórtice, vi um rochedo agudo e escarpado, de onde uma sereia me seduzia de mãos estendidas. Nem antes nem depois vi beleza igual, e não é possível que exista outra voz como aquela. Não fosse a lealdade que a inclemência do chicote e a sombra do Império inspiravam em meus legionários, de alma e coração teria me lançado ao mar. Sou romano, o mar não é um túmulo indigno para quem saciou os cofres de Roma e a sede de Marte com a mesma lâmina.’

‘Se sobrevivi não foi para contar-vos, mas para morrer uma outra morte. Depois de temperar o aço no sangue rebelde dos cartagineses, em vão esgotei os meus dias perseguindo meios possíveis e impossíveis para reproduzir o canto da sereia. Estive entre sábios e entre canibais. Estive entre filósofos, oráculos e pitonisas. Nada no Império que aniquilou os deuses dos inimigos vencidos pode recriar os sons que outrora me encantaram.’

‘Saibam, ó nobres e egrégios senadores, que não me gabo dos meus feitos. Servi à Roma como deve fazer um soldado. Mas o céu curvado sobre os meus ombros já não é o mesmo. Marte esqueceu-se de mim, Saturno é quem me governa. Rogando por vossa compreensão e vossas bênçãos, deponho minhas armas perante vós.’

‘Disse-me Saturno em um sonho: ‘se queres ouvir a sereia, deveis buscar a sereia e não um simulacro’. Amadureci, perdi minhas ilusões, já não sonho com miragens. Armei um portentoso barco para me lançar à tempestade, e agora – peço-vos – deixai-me partir. Minha jornada não será um gesto de coragem, de desespero ou senilidade: sou romano, sou sensato, sou estóico.’

‘Vós que sois a essência de Roma podeis entender quando digo: o mar está chamando”.

[Registros históricos encontrados numa escavação de 1934 em Turim citam brevemente o general Caio Márcio Túlio Meridianu. Ao que consta, caiu de seu barco durante uma tempestade na costa africana.]
 

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Este site foi atualizado em 12/08/09