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Chuva
©Ricardo Labuto Gondim
Para Eduardo
de Lima
Nunca tive um só relógio em minha vida, a coisa cruel e prateada no meu
pulso é que me tem há anos, já nem lembro quantos. E foi com naturalidade
que busquei os ponteiros antes de abrigar-me da chuva pesada que estalava no
mostrador.
Eram sete horas e quarenta e dois minutos da noite de 21 de dezembro de
2006. Refugiei-me sob a marquise que coroava uma porta de ferro pichada e
suja de graxa. O vento uivou impetuoso e dilatou a chuva, corri esmagando a
luz de um poste solitário multiplicada por dezenas de poças. Dobrei a
esquina da Rua Santa Fé com Lucídio Lago e me vi entre uma banca de jornais
e o botequim que me acolheu.
Um casal de meia-idade com um filho pequeno me seguiu. O DVD de um show
qualquer num televisor de 20 polegadas brilhante como uma tocha fazia
barulho. A chuva
avançava porta adentro, dois rapazes no balcão recolheram a cerveja e se
mudaram para uma mesa estreita. Recuei alguns passos e me protegi por trás
de uma coluna. Uma garota bonita e altiva passou sorrindo, orgulhosa dos
peitos sólidos que esticavam a camiseta molhada. O sorriso se transferiu
para um velhinho baixo e gordo que olhou em volta para passá-lo adiante e me
encontrou. Uma senhora opulenta carregando duas grandes sacolas de plástico
seguiu apressada dizendo “que merda!” numa voz de contralto. Alguém atrás de
mim riu e completou “mas que merda mesmo”, e a chuva continuou cuspindo o
seu desdém.
Olhei para trás, o bar era amplo e estava relativamente vazio. Numa mesa do
fundo um homem de 60 e tantos anos se debruçava fascinado e ávido sobre uma
loirinha magra e sem-graça de short jeans apertado, que não devia ter mais
de 20. Quando deu por mim ele me olhou em franco desafio, baixei
respeitosamente os olhos e me voltei para a calçada.
Para um andarilho minha casa não ficava longe, mas a chuva encharcara e
estendera o percurso. De onde estava vi a mancha prateada do trem expresso
varando a estação do Méier há cinco postes de distância. De vez em quando um
ônibus solitário provocava maremotos, mas os táxis deviam ter afundado.
Olhei de novo para o feitor em meu pulso, dez minutos haviam passado. O
vento impeliu duas inexplicáveis escadas de alumínio abertas diante da banca
de jornal. O jornaleiro deixou seu abrigo e recolheu as escadas com gestos
pensados e lentos. Era baixo, calvo, com vastos tufos de cabelo negros nos
lados do crânio e uma barba cerrada, que chegava ao peito largo devassado
pela camisa aberta. Um homem maciço sustentado por pernas muito curtas e
finas.
Em frações de segundo o reconheci.
Crescendo naquele bairro suburbano, em incontáveis dias da minha infância e
adolescência tinha ido àquela banca para comprar quadrinhos, revistas de
eletrônica, áudio e fotografia. Mas exceto pelos gestos lentos e estudados
ele não parecia ter mudado. Não havia um único fio de cabelo branco na barba
ou no peito - enquanto eu, aos 40 anos já estou consideravelmente grisalho.
A banca era outra, a esquina era a mesma e era outra, e me dei conta de que
o bar que me protegia do mau tempo havia sido uma lanchonete de imensos
salgados estufados de massa e queijo derretido.
Procurei o passado
no bar e percebi que o show em DVD era dos Bee Gees, uma das trilhas sonoras
da minha adolescência. Me senti no limiar de uma fenda no tempo e no espaço:
à minha frente, personificado no jornaleiro, o passado; atrás de mim, a
mudança e o presente; e no ar, a nostalgia atemporal da música dos Brothers
Gibb.
Não foi preciso um esforço da imaginação para me ver de calças curtas na
velha banca de jornais que a memória reconstruiu ao redor de uma barba. Quis
me aproximar, me chamar pelo nome, me dar conselhos prudentes e alguns
avisos alarmantes, mas o garoto irrecuperável que eu fui se dissolveu na
chuva como um fantasma.
Alguma coisa me incomodava. Sem muito esforço percebi que eram os agudos
miseráveis das caixas de plástico quadrado que infestavam o bar gritando
entre os azulejos. Minha lucidez me apontou um dedo agudo, olha, Ricardo,
como você é patético: está testemunhando eventos banais tornando-se
extraordinários por força de uma mera ocorrência simultânea; você sabe que
deveria viver esse momento que o relógio não pode roubar... mas se sente
incomodado com um som ruim?
Apertei a alça da mochila contra o peito e me fundi à noite e à chuva
inseparáveis. Cheguei em casa encharcado por dentro e por fora.
O despertador impiedoso me acordou às sete da manhã. O alarme era como um
lamento e interrompeu um sono sem sonhos. O dia transcorreu sem surpresas,
senti-me feliz por um nada: a rotina pode ser uma benção.
No sábado, dia 23, me vi inesperadamente sem compromissos. Tinha uma noite
inteira de desejada solidão para dividir com Beethoven - que me acenava do
Opus 127 na refinada versão do Quarteto Italiano. Uma gravação DG dos
anos de 1980 que conhecia muito bem, mas que se projetou na minha sala com
uma beleza de timbre totalmente inesperada. Tudo parecia diferente em meu
sistema, mas não perdi tempo buscando explicações. “Que beleza de som, meu
Deus, como o sistema está afinado. Que privilégio ouvir música com essa
qualidade”.
Foi quando o apito
de um Titanic, gerado pelo naufrágio de algum componente ao redor das
válvulas abalou os falantes - que teriam ido a pique se eu não ouvisse
música em volume baixo.
Saltei para frente como um raio, desliguei o amplificador e chequei os
fusíveis. O do B+ fora rompido. Troquei-o, e ao quarteto somou-se uma
distorção intolerável e profundamente inquietante: algo no coração do meu
instrumento, o amplificador, sofrera uma síncope. Permaneci na poltrona
imobilizado pela frustração - e pela angústia quanto ao destino do circuito.
Pela segunda vez em minha vida, logo depois de achar o sistema esplendido
algo queimava subitamente. Como não sou supersticioso formulei uma teoria:
em sua corrupção, o componente queimado deveria ter mudado de valor,
elevando o amplificador a uma sublimidade insustentável antes do colapso.
Claro, além de pouco convincente o postulado não serviu de consolo, nem me
abstraiu da idéia de que poderia haver algum sentido naquele desastre.
Lembrei-me de uma história maravilhosa de Madre Teresa de Calcutá. Ainda no
tempo em que usava o hábito da Congregação de Loreto, Madre Teresa tropeçou
numa barrenta rua indiana, arrojando-se numa poça de lama espessa e pegajosa. Ainda no chão, olhou para o céu e disse: “É por isso que Você tem
tão poucos amigos”.
Olhei para o teto e repeti a mesma frase.
Alguém já escreveu que deixar-se abater é ceder ao infortúnio. Minha atitude
não foi um gesto de blasfema ironia, mas a primeira reação contra uma
circunstância deprimente:
― Pu-ta-que-pa-riu! Ficar sem som na véspera do Natal! Que sacanagem!
Quero dizer em
minha defesa que não sou desses cavalheiros que tratam seus brinquedos
melhor que aos próprios filhos. Para mim, aquilo é só um monte de ferro,
latão, vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico. Não me apego às coisas
em si, mas à sua utilidade – no caso, paz, meditação e beleza. Imagine estar
feliz pela expectativa e pelo privilégio de ouvir uma das obras mais
arrojadas do repertório camerístico – num sistema que me agrada inteiramente
-, experimentá-la de um modo novo e ter a performance abalroada por um
transatlântico? Não é a isso que chamam “coitus interruptus”?
Dizem que “há males que vem para bem”, mas é mentira, não existe virtude no
mal, nós é que temos a grandeza de superá-lo cavando aqui e ali uma lição.
Pensei furiosamente enquanto tentava dormir, mas não encontrei sabedoria nem
remédio para o meu abatimento.
Então decidi voluntariamente inventar uma moral para esta história.
Houve um tempo em
que meu sistema de áudio era uma radio vitrola de plástico azul chamada Bell
Air. Você removia a tampa e se deparava com um prato ligeiramente menor que
um disco de vinil compacto, um braço muito frágil e, sob ambos, um pequeno
falante embutido que soprava distorções no prato e no braço.
Naquela vitrolinha azul ouvi discos com histórias da Disney e dilapidei os
sulcos de alguns dos sagrados LPs de Alta-Fidelidade do meu pai. Na
esperança de promover o gosto musical do guri, o velho franqueava a
discoteca - Deus sabe a que preço. Aliás, aos seis anos eu tinha permissão
para pilotar um toca-discos Elac e um amplificador McIntosh – desde que
mantivesse os disquinhos de histórias bem longe da agulha. Para o velho isso
significava educação - um bem mais precioso do que um monte de ferro, latão,
vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico, comprados com suor e certa
dose invejável de irresponsabilidade. Tudo isso já se dissolveu, tudo isso é
pó e cinza, mas a educação - com a humanidade de um “puta-que-pariu”
eventual e outras riquezas vocabulares expressivas – já estou passando
adiante.
Mas repare, então eu tinha seis anos e preferia a intimidade da Bell Air à
majestade iridescente do McIntosh.
Na medida em que
alguém pode ter uma infância feliz, hoje eu o sei, fui feliz. Naquela
vitrolinha azul ouvi pela primeira vez o tema aventureiro do Peter Pan num
instrumento que, vim a saber mais tarde, chamava-se “trompa em fá” – e que
vim a estudar ainda mais tarde.
Mas quanto é “mais tarde”?
Tudo é tão nítido, tudo é tão breve, e que valor têm as coisas palpáveis
como um monte de ferro, latão, vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico
se comparados às lembranças felizes? Ter lembranças felizes não é ser feliz
outra vez?
Na noite de Ano Novo a chuva voltou. Lembrei-me de um tempo em que chuva era
aventura e diversão, lembrei-me do bar e do jornaleiro. E debrucei-me à
janela para que 2007 lavasse o meu rosto.
A moral da história é esta: vou manter o relógio no pulso sob protesto,
cedendo às exigências e compromissos dos meus 40 anos.
Mas joguei fora o guarda-chuva.
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