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18/02/10

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Chuva

©Ricardo Labuto Gondim
Para Eduardo de Lima
 

Nunca tive um só relógio em minha vida, a coisa cruel e prateada no meu pulso é que me tem há anos, já nem lembro quantos. E foi com naturalidade que busquei os ponteiros antes de abrigar-me da chuva pesada que estalava no mostrador.

Eram sete horas e quarenta e dois minutos da noite de 21 de dezembro de 2006. Refugiei-me sob a marquise que coroava uma porta de ferro pichada e suja de graxa. O vento uivou impetuoso e dilatou a chuva, corri esmagando a luz de um poste solitário multiplicada por dezenas de poças. Dobrei a esquina da Rua Santa Fé com Lucídio Lago e me vi entre uma banca de jornais e o botequim que me acolheu.

Um casal de meia-idade com um filho pequeno me seguiu. O DVD de um show qualquer num televisor de 20 polegadas brilhante como uma tocha fazia barulho. A chuva avançava porta adentro, dois rapazes no balcão recolheram a cerveja e se mudaram para uma mesa estreita. Recuei alguns passos e me protegi por trás de uma coluna. Uma garota bonita e altiva passou sorrindo, orgulhosa dos peitos sólidos que esticavam a camiseta molhada. O sorriso se transferiu para um velhinho baixo e gordo que olhou em volta para passá-lo adiante e me encontrou. Uma senhora opulenta carregando duas grandes sacolas de plástico seguiu apressada dizendo “que merda!” numa voz de contralto. Alguém atrás de mim riu e completou “mas que merda mesmo”, e a chuva continuou cuspindo o seu desdém.

Olhei para trás, o bar era amplo e estava relativamente vazio. Numa mesa do fundo um homem de 60 e tantos anos se debruçava fascinado e ávido sobre uma loirinha magra e sem-graça de short jeans apertado, que não devia ter mais de 20. Quando deu por mim ele me olhou em franco desafio, baixei respeitosamente os olhos e me voltei para a calçada.

Para um andarilho minha casa não ficava longe, mas a chuva encharcara e estendera o percurso. De onde estava vi a mancha prateada do trem expresso varando a estação do Méier há cinco postes de distância. De vez em quando um ônibus solitário provocava maremotos, mas os táxis deviam ter afundado.

Olhei de novo para o feitor em meu pulso, dez minutos haviam passado. O vento impeliu duas inexplicáveis escadas de alumínio abertas diante da banca de jornal. O jornaleiro deixou seu abrigo e recolheu as escadas com gestos pensados e lentos. Era baixo, calvo, com vastos tufos de cabelo negros nos lados do crânio e uma barba cerrada, que chegava ao peito largo devassado pela camisa aberta. Um homem maciço sustentado por pernas muito curtas e finas.

Em frações de segundo o reconheci.

Crescendo naquele bairro suburbano, em incontáveis dias da minha infância e adolescência tinha ido àquela banca para comprar quadrinhos, revistas de eletrônica, áudio e fotografia. Mas exceto pelos gestos lentos e estudados ele não parecia ter mudado. Não havia um único fio de cabelo branco na barba ou no peito - enquanto eu, aos 40 anos já estou consideravelmente grisalho. A banca era outra, a esquina era a mesma e era outra, e me dei conta de que o bar que me protegia do mau tempo havia sido uma lanchonete de imensos salgados estufados de massa e queijo derretido.

Procurei o passado no bar e percebi que o show em DVD era dos Bee Gees, uma das trilhas sonoras da minha adolescência. Me senti no limiar de uma fenda no tempo e no espaço: à minha frente, personificado no jornaleiro, o passado; atrás de mim, a mudança e o presente; e no ar, a nostalgia atemporal da música dos Brothers Gibb.

Não foi preciso um esforço da imaginação para me ver de calças curtas na velha banca de jornais que a memória reconstruiu ao redor de uma barba. Quis me aproximar, me chamar pelo nome, me dar conselhos prudentes e alguns avisos alarmantes, mas o garoto irrecuperável que eu fui se dissolveu na chuva como um fantasma.

Alguma coisa me incomodava. Sem muito esforço percebi que eram os agudos miseráveis das caixas de plástico quadrado que infestavam o bar gritando entre os azulejos. Minha lucidez me apontou um dedo agudo, olha, Ricardo, como você é patético: está testemunhando eventos banais tornando-se extraordinários por força de uma mera ocorrência simultânea; você sabe que deveria viver esse momento que o relógio não pode roubar... mas se sente incomodado com um som ruim?

Apertei a alça da mochila contra o peito e me fundi à noite e à chuva inseparáveis. Cheguei em casa encharcado por dentro e por fora.

O despertador impiedoso me acordou às sete da manhã. O alarme era como um lamento e interrompeu um sono sem sonhos. O dia transcorreu sem surpresas, senti-me feliz por um nada: a rotina pode ser uma benção.

No sábado, dia 23, me vi inesperadamente sem compromissos. Tinha uma noite inteira de desejada solidão para dividir com Beethoven - que me acenava do Opus 127 na refinada versão do Quarteto Italiano. Uma gravação DG dos anos de 1980 que conhecia muito bem, mas que se projetou na minha sala com uma beleza de timbre totalmente inesperada. Tudo parecia diferente em meu sistema, mas não perdi tempo buscando explicações. “Que beleza de som, meu Deus, como o sistema está afinado. Que privilégio ouvir música com essa qualidade”.

Foi quando o apito de um Titanic, gerado pelo naufrágio de algum componente ao redor das válvulas abalou os falantes - que teriam ido a pique se eu não ouvisse música em volume baixo.

Saltei para frente como um raio, desliguei o amplificador e chequei os fusíveis. O do B+ fora rompido. Troquei-o, e ao quarteto somou-se uma distorção intolerável e profundamente inquietante: algo no coração do meu instrumento, o amplificador, sofrera uma síncope. Permaneci na poltrona imobilizado pela frustração - e pela angústia quanto ao destino do circuito.

Pela segunda vez em minha vida, logo depois de achar o sistema esplendido algo queimava subitamente. Como não sou supersticioso formulei uma teoria: em sua corrupção, o componente queimado deveria ter mudado de valor, elevando o amplificador a uma sublimidade insustentável antes do colapso. Claro, além de pouco convincente o postulado não serviu de consolo, nem me abstraiu da idéia de que poderia haver algum sentido naquele desastre.

Lembrei-me de uma história maravilhosa de Madre Teresa de Calcutá. Ainda no tempo em que usava o hábito da Congregação de Loreto, Madre Teresa tropeçou numa barrenta rua indiana, arrojando-se numa poça de lama espessa e pegajosa. Ainda no chão, olhou para o céu e disse: “É por isso que Você tem tão poucos amigos”.

Olhei para o teto e repeti a mesma frase.

Alguém já escreveu que deixar-se abater é ceder ao infortúnio. Minha atitude não foi um gesto de blasfema ironia, mas a primeira reação contra uma circunstância deprimente:

― Pu-ta-que-pa-riu! Ficar sem som na véspera do Natal! Que sacanagem!

Quero dizer em minha defesa que não sou desses cavalheiros que tratam seus brinquedos melhor que aos próprios filhos. Para mim, aquilo é só um monte de ferro, latão, vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico. Não me apego às coisas em si, mas à sua utilidade – no caso, paz, meditação e beleza. Imagine estar feliz pela expectativa e pelo privilégio de ouvir uma das obras mais arrojadas do repertório camerístico – num sistema que me agrada inteiramente -, experimentá-la de um modo novo e ter a performance abalroada por um transatlântico? Não é a isso que chamam “coitus interruptus”?   

Dizem que “há males que vem para bem”, mas é mentira, não existe virtude no mal, nós é que temos a grandeza de superá-lo cavando aqui e ali uma lição. Pensei furiosamente enquanto tentava dormir, mas não encontrei sabedoria nem remédio para o meu abatimento.

Então decidi voluntariamente inventar uma moral para esta história.

Houve um tempo em que meu sistema de áudio era uma radio vitrola de plástico azul chamada Bell Air. Você removia a tampa e se deparava com um prato ligeiramente menor que um disco de vinil compacto, um braço muito frágil e, sob ambos, um pequeno falante embutido que soprava distorções no prato e no braço.

Naquela vitrolinha azul ouvi discos com histórias da Disney e dilapidei os sulcos de alguns dos sagrados LPs de Alta-Fidelidade do meu pai. Na esperança de promover o gosto musical do guri, o velho franqueava a discoteca - Deus sabe a que preço. Aliás, aos seis anos eu tinha permissão para pilotar um toca-discos Elac e um amplificador McIntosh – desde que mantivesse os disquinhos de histórias bem longe da agulha. Para o velho isso significava educação - um bem mais precioso do que um monte de ferro, latão, vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico, comprados com suor e certa dose invejável de irresponsabilidade. Tudo isso já se dissolveu, tudo isso é pó e cinza, mas a educação - com a humanidade de um “puta-que-pariu” eventual e outras riquezas vocabulares expressivas – já estou passando adiante.

Mas repare, então eu tinha seis anos e preferia a intimidade da Bell Air à majestade iridescente do McIntosh.

Na medida em que alguém pode ter uma infância feliz, hoje eu o sei, fui feliz. Naquela vitrolinha azul ouvi pela primeira vez o tema aventureiro do Peter Pan num instrumento que, vim a saber mais tarde, chamava-se “trompa em fá” – e que vim a estudar ainda mais tarde.

Mas quanto é “mais tarde”?

Tudo é tão nítido, tudo é tão breve, e que valor têm as coisas palpáveis como um monte de ferro, latão, vidro, silícios, óxidos metálicos e plástico se comparados às lembranças felizes? Ter lembranças felizes não é ser feliz outra vez?

Na noite de Ano Novo a chuva voltou. Lembrei-me de um tempo em que chuva era aventura e diversão, lembrei-me do bar e do jornaleiro. E debrucei-me à janela para que 2007 lavasse o meu rosto.

A moral da história é esta: vou manter o relógio no pulso sob protesto, cedendo às exigências e compromissos dos meus 40 anos.

Mas joguei fora o guarda-chuva.  
 

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Este site foi atualizado em 12/08/09