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áudio: aviação |
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09/09/10 |
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Sistemas Celestes ©Ricardo Labuto Gondim
Ainda que saturado de inveja, calúnias, ciúmes, e daquelas insinuações maldosas de que só um irmão mais novo é capaz, o texto é delicioso. Rynaldo é redator da agência AlmapBBDO e um excelente contador de histórias. Mas o artigo foi redigido para outros pilotos, omitindo questões elementares que fascinaram um sujeito como eu, que nem tem carteira de motorista. Descobri incontáveis similaridades entre pilotos e audiófilos. O ultraleve em questão é o pequeno, garboso e aerodinâmico monomotor da foto, o Golf 100. Ele tem dois lugares acanhados sob uma bolha de plástico ampla (o canopi), que torna a nacele – o espaço destinado ao piloto e co-piloto – o lugar mais gostoso do mundo para se bronzear. Muito antes de afivelar-se ao assento, o comandante celebra os rigores da solene liturgia de preparação do vôo. A checagem que fazemos quando algo não soa bem em nossos sistemas de áudio, os pilotos fazem por antecipação no sistema deles. A etapa inicial você cumpre em dez minutos: preencher o relatório do Plano de Vôo ou, dependendo do destino, fazer apenas uma Notificação. Para que isso se processasse rapidamente – e seja realmente eficaz – você tem que se esmerar na lição de casa. Nós passamos uma noite inteira na companhia de mapas, laptop, GPS, compasso, réguas de navegação, transferidores, calculadora, manuais e guias com as freqüências de rádio dos aeródromos em nossa rota. Por razões de autonomia e segurança, a viagem não se processa em linha reta, mas corteja cada pista e cada aeroporto do caminho, mesmo que isso represente alguns desvios. Nem o avião nem o piloto estão livres de uma pane, como a súbita e impostergável vontade de fazer xixi que quase vitimou meu comandante. Não entendendo nada de navegação, minha participação nesta fase restringiu-se a alguns comentários edificantes sobre a anatomia da garota na capa da revista U.M., dizer “hã-hã” gravemente a intervalos regulares, e procurar “a porra do mapa que estava aqui em cima agora mesmo”.
Assumindo seu lugar na nacele você ajusta o cinto criteriosamente, garantindo os movimentos estritamente necessários e nem um centímetro a mais. Imagine o avião precipitando-se num “vácuo” ou numa turbulência: se o cinto estiver frouxo você pode deslocar-se aleatoriamente no acento e arrastar irrefletidamente o manche; ou arremessar a cabeça contra o canopi, produzindo o colapso da consciência ou de uma vértebra. Aliás, na viagem de volta, numa área de céu cristalino murada por uma cordilheira de nuvens altas, o flanco esquerdo do P96 Golf 100 foi bruscamente flagelado pela irracionalidade brutal de uma golfada de vento, que estalou poderosamente na fuselagem e arremessou a asa esquerda para baixo. Rynaldo nivelou instantaneamente e o vôo prosseguiu com naturalidade, sem nenhum comentário além de um “porra” dito mecanicamente a meia voz: bem ajustado ao assento, você “sente” o avião. Atado ao berço protetor relativamente desconfortável do banco, o piloto se apropria de duas listas de checagem, verifica os itens iniciais, ajusta a blindagem estufada e macia dos interfones aeronáuticos de David Clark, aciona o motor – que impede a audição de qualquer fenômeno no universo que não passe pelos microfones - e começa a taxiar. As rodas não têm tração, é a hélice que desloca a fuselagem, os dois tripulantes, a bagagem zelosamente disposta no espaço atrás dos bancos e em um nicho sob a parte coberta do canopi. Mesmo que a pista não tenha radiofonia você emite a mensagem padrão como se ela o tivesse, de modo a ser captado por qualquer aeronave nos limites daquele espaço aéreo. Em posição na cabeceira da pista o piloto freia a aeronave, retorna à segunda lista de checagem dos instrumentos, ajusta os flaps, testa os magnetos a 4 mil giros, emite outra mensagem padrão, repete o bordão dos pilotos [“pista, dinheiro e mulher nunca é (sic) demais], empurra a manete do combustível até o fim, e deixa o ultraleve cumprir seu destino de voar. *
Os aviões não podem surpreender, mas o seu sistema pode. * Depois de levar o Golf 100 do Rio para São Paulo, às 6:30h da manhã de quarta feira, 13 de setembro, decolamos do Campo de Marte. O destino final do primeiro dia de jornada era a cidade baiana de Caravelas, onde deveríamos abastecer, pernoitar e – se o céu permitisse – seguir viagem. Acontece que meu irmão viveu um chuvoso “Dia da Marmota” durante quase uma semana na cidade de São Mateus. A única coisa que ele tinha para fazer era sonhar em sair de lá. O povo era francamente acolhedor, mas o solitário bar da cidade estava impiedosamente desguarnecido. Em Caravelas, já sabíamos, só havia a base militar da força aérea e uma pousada distante e acanhada. Por precaução decidimos descer numa outra cidade qualquer – com pista, naturalmente – deixando o abastecimento em Caravelas para o segundo dia. Em Governador Valadares – uma cidade impressionante, erguida entre as duas margens de um rio de peito largo ao pé de uma montanha rochosa, majestosa e abrupta – abordamos um piloto da polícia, um homem cortês e atencioso. Aliás, a mesma cortesia e solicitude que os audiófilos veteranos costumam dispensar aos iniciantes é oferecida aos pilotos privados pelos verdadeiros profissionais do céu. Ao longo da viagem conversamos com todos os tipos de pilotos da aviação comercial e militar. Sempre encontramos a mesma simplicidade e disposição para ajudar no que fosse possível – e isso vale para o pessoal do suporte em terra também, do homem da bomba de combustível aos meteorologistas e controladores de vôo. A única exceção foi o piloto de um político de Brasília, contaminado pela arrogância insustentável de sua excelência, o passageiro.
Tive uma das visões mais impressionantes de minha vida. Durante duas horas atravessamos um mar alienígena de montanhas verdes e ocres, escoltados por um comboio prodigioso de esfinges brancas. Não estávamos mais num avião, mas numa nave que desvendava uma terra que só se pode conceber do céu. Vista do alto Nanuque era uma bela cidade cortada pela serpente ligeira, vasta e barrenta do Mucuri, que naquele ponto é salpicado de pequenas ilhas rochosas coroadas de vegetação selvagem. Em terra, Nanuque confirmou a primeira impressão. É agradável, ordenada e, a seu modo, cosmopolita. O povo é maravilhoso. Depois da noite de sono abissal cobrada pelas seis horas e meia de vôo do dia anterior, entramos numa loja para comprar camisas limpas – as nossas estavam amassadas no fundo de mochilas que não arriscávamos abrir sem aventais de chumbo. Recebemos um tratamento pessoal e sincero como nunca vi. Tomando cerveja numa barraquinha de cachorro-quente, fizemos amizade com um senhor que tinha sido caixeiro-viajante por mais de 30 anos, cheio de histórias para contar e que ao fim do encontro nos apresentou a toda sua família – nos convidando para um almoço que a timidez nos impediu de aceitar. Fiquei impressionado com a beleza dos jovens. Certa noite houve um desfile num shopping a céu aberto que começou com um solo magnético de dança do ventre. A dançarina, uma menina de 15 anos, tinha uma beleza hollywodiana e os modelos – rapazes e moças da cidade – pertenciam à mesma faixa etária e eram todos lindos. Conversei de passagem com os pais de uma modelo, que me explicaram que apesar de Nanuque abrigar um centro universitário, os jovens preferiam estudar nas grandes cidades – o que explica em parte o sensível hiato entre a garotada e coroas como eu. Depois de algumas aventuras que o Rynaldo descreve com seu senso de humor abjeto (incluindo o deplorável episódio do Motel Tentação, que deveria ter sido omitido em nome do decoro e da prudência) - e depois de conhecer o amparo e a solidariedade de dois cavalheiros notáveis, comandantes Geo e Tadeu, que conquistaram nossa gratidão para sempre - uma frente fria estacionária nos fez desistir do Norte e descer para Guarapari, no Espírito Santo. Lá, afogamos nossa frustração em caipirinhas, camarões, moquecas, lagostas, e numa atividade que todos deveríamos nos obrigar a praticar com mais freqüência: não fazer nada. Como sentar-se numa espreguiçadeira e promover um anônimo concurso de “Bunda da Praia 2006”, estudando criteriosamente cada anatomia para eleger a musa do seu verão particular. Nos quesitos “corpo harmônico” e “equilíbrio tonal” minha campeã levou nota 11. Infelizmente, não pude avaliar “textura” e “transientes”.
Somos gente simpática, conversadora, e sempre que eu passava pela D. Francisca, a camareira do nosso setor, ela perguntava: “O Rynaldo já tá melhor?”. Muito solene, colocava as duas mãos nos ombros dela: “D. Francisca, ele está um pouco melhor agora que o padre chegou”. Dito isto, saía a passear com meu discman, enquanto meu pobre irmão agonizava lendo um volume imenso sobre a queda de Berlim – leitura apropriada para férias passadas num quarto de hotel a beira da praia. Porto Seguro é bacana, mas perdoe o bairrismo, a paisagem que se estende do Rio a Angra dos Reis é muito mais bonita, e ainda inclui dezenas de praias desertas. Em três dias, quando a diluição do Benzetacil que colocou meu comandante de pé permitiu que ele se sentasse, alugamos um bugre e fomos para longe. Minha impressão não mudou. O melhor da cidade é o clima de férias permanentes, o carinho mitológico do povo, a beleza cabocla da mulher baiana e o charme das mulheres do sul do país, que lotavam os hotéis. Uma coisa espantosa que descobri é que o baiano gosta de axé. Eu achava que eles tinham exportado os cantores para se livrarem deles, mas não, eles gostam mesmo. Onde quer que você vá tem show de axé, com uma bailarina colossal balançando todas as advertências dos compêndios de ortopedia. O traje costuma ser um shortinho alarmante, ou uma minissaia projetada para flutuar acima das tiras de lycra que simulam um biquíni remoto. Uma noite, sozinho num bar ao ar livre – aliviado em saber que o filme que meu irmão ia assistir na TV era muito bom - sentei num ângulo que me permitia apreciar a dança e escapar quase incólume da música, tocada num volume aceitável para não brigar com o show do bar ao lado. Assim, com um variado CD no discman, pude escolher eu mesmo a trilha sonora do balé. Rapaz, acredite em mim: Stravinsky definitivamente é um selvagem. Numa manhã de sol voltamos à rotina: lagostas, camarões, uma bebida a base de canela e urânio 238 chamada “capeta”, novas amizades, conversas despreocupadas sobre nanotecnologia e filatelia com loiras e morenas espetaculares a beira da piscina, caminhadas solitárias com Brahms em sua misteriosa afinidade com o mar, ócio e vento no rosto. O sonho foi virando abóbora gradualmente, pois na volta fizemos escalas em Vila Velha e Guarapari. As férias terminaram oficialmente numa churrascaria da Barra da Tijuca, no Rio, ao som do choque vitrificado de imensas canecas de chope escuro. E assim, amigão, era uma vez as nossas férias.
Bem, esqueci de te contar uma coisa. Talvez a mais importante. O ultraleve é feito para voar. Em terra qualquer vento mais forte o desloca erraticamente, e ele precisa ser amarrado como um barco. A operação é simples. Existem faixas marcadas no chão do aeródromo como numa vaga de garagem. Empurrando o avião com as mãos, erguendo a calda com os braços para manobrá-lo, você o estaciona em posição. A vaga tem argolas de ferro chumbadas no solo, enquanto a aeronave tem argolas sob as asas. Você estende uma corda, amarra firmemente o conjunto, calça o trem dianteiro e protege o canopi com uma capa de napa semi-esférica atada a três pontos da fuselagem. Tudo é feito com diligência. A rotina de uma aterrissagem é crítica, procedida com irrestrita atenção e cuidado. Numa hora dessas ninguém quer se deparar com um balão de napa desprendido e inflado pelo vento porque alguém negligenciou um simples laço. Tudo é feito com carinho também, pois embora construído para sorver e enfrentar a pressão dos ventos, o avião é um sistema delicado. Quando está tudo pronto, antes de deixar o aeródromo o piloto olha para o conjunto com uma expressão de afeto, gratidão e despedida. É o mesmo olhar que surge no rosto do piloto de um sistema audiófilo quando ele gira suas manetes para a posição “off”. A moral da história é que não importa se pilotamos aeronaves ou sistemas de áudio: nós conhecemos o céu. * Obrigado, comandantes Geo e Tadeu por sua generosidade. Obrigado, D. Francisca, pelo carinho com quem estava só de passagem. E obrigado, Comandante Rynaldo, pelo céu de brigadeiro: mano, você é a minha proa. * Se você é fofoqueiro ou aviador, leia agora os detalhes sórdidos: A Comédia de Dante, por Rynaldo Gondim.
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Este site foi atualizado em 27/08/10