áudio: cabo aw 500s

28/08/10

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ύπεροχή
Interconnect Absolute Acoustics Audio Wave 500 Silver

©Ricardo Labuto Gondim
 

Na voragem da Grande Explosão que arrojou o Tempo e o Espaço; no intervalo entre a Eternidade e o Primeiro Segundo; na mínima fração do Tempo Primordial, divisível ao infinito e multiplicada ao infinito pela vertigem simultânea dos seus efeitos, surgiram as partículas fundamentais do Universo. Para forjar-se um elemento de 47 prótons e 47 elétrons numa estrutura cristalina cúbica de face centrada, foi necessário um bilhão de anos. E eu não quero assombrá-lo com o tempo transcorrido até que olhos dotados de inteligência exumassem o elemento das entranhas da terra para descobrir – sob o sol ou sob a lua – que nenhum outro metal é mais sensível à luz.

Desejando refletir seu brilho branco e intenso num vocábulo, os gregos o chamaram de argyros. Sob a pressão do gládio romano, argyros fundiu-se em argentum - a palavra que definiu a prata na linguagem universal da ciência.

Cinco mil anos antes de Cristo o Homem já conhecia o metal da cor da lua, e também o ouro e o cobre. Mas nas tépidas forjas da aurora da civilização, somente a prata com seu ponto de fusão mais baixo podia ser purificada pelo fogo. Sedimentadas palavras semitas da Mesopotâmia falam dessa “copelação”, a primeira operação metalúrgica desenvolvida pela humanidade.

Num mundo assombrado pela Natureza, o brilho sensual da prata foi consagrado à deusa Lua. Sua elevação posterior à liturgia do Deus Único está registrada em múltiplas referências no Antigo Testamento. Em Gênesis, Abraão compra um campo para sepultar Sara por 400 ciclos de prata. Num dos 7 Salmos em que menciona o metal, o salmista canta que “as palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada numa fornalha de barro purificada sete vezes (Salmo 12)”.

Hoje, por mais brilhante que seja, não há objeto de prata que não esteja embaçado por sete mil anos de história, ciência e mito. O cabo Absolute Acoustics Audio Wave 500 Silver não é exceção. A pureza dos seus 2,5% de prata chega ao mercado contaminada de atavismos, misticismo audiófilo e pela imprecisão da linguagem circular dos reviewers.

DESEMPENHO

Não são poucos os críticos que se esqueceram de aprender que a prata em um cabo não pode intensificar agudos nem matar lobisomens. É impossível. Se interpretarmos um cabo como um filtro, teremos de considerá-lo necessariamente como um filtro passivo. Logo, se por um lado um cabo pode atenuar freqüências altas e médias (pois mui raramente terá efeito audível sobre as baixas), por outro está fisicamente impedido de intensificar o que quer que seja. Daí que, ao se instalar um cabo de prata - ou com prata - no sistema de áudio, a primeira coisa que você vai ouvir é... o cabo anterior.

Em certo sentido, a dócil transparência de médios e agudos que se impôs imediatamente após a instalação do interlink Audio Wave 500 Silver eram a revelação das freqüências que o cabo substituído atenuava. A riqueza tímbrica eivada de harmônicos que se projetou majestosamente em minha sala não admite refutações. Por quê? Porque como dito em Crítica da Ambivalência (que norteia as avaliações subjetivas do logos eletrônico) “o limite máximo de um sistema está na gravação”. As delícias que ouvi eram pré-existentes, eu é que não sabia que elas estavam lá, como prata sepultada nos alicerces da terra.

Como o cabo anterior era equilibrado, o AW 500S não fez os agudos saltarem das trevas para a luz, nem meus ouvidos foram açoitados por freqüências dolorosas. Não, não, o que me comoveu neste cabo já no primeiro momento foi a sua coerência: parafraseando a linguagem da física, o modo como timbres agudos e médios se ordenaram em simetria com desvendados e fantasmagóricos harmônicos, revelando a estrutura vertical de intrincados quartetos de cordas, acordes colossais de órgão e massas orquestrais pós-românticas.

Os graves? Bem, não é preciso um produto excepcional para conduzi-los, até mesmo o famigerado Pirelli pode cuidar deles. No mundo da interconexão, baixas freqüências não têm mistérios nem segredos. Mas isso não significa que os graves não tenham mudado: num Universo onde todas as coisas admitem o seu contrário, tudo o que existe, existe por contraste. Quer um exemplo? Se você já teve a infelicidade de testemunhar a súbita aniquilação de um tweeter, deve ter reparado como os graves se tornaram instantaneamente amorfos e velados. Por isso, no requintado ambiente dos agudos e médios cristalinos do AW 500S, a articulação pré-existente dos graves ganhou mais "visibilidade", estabelecendo uma desejável ilusão de firmeza, controle, e é claro, presença.

Mas será que tudo isso se dá pela virtude do material Silver Plated Long Grain OFHC 6N (6 dígitos de pureza) com prata numa proporção de 2,5%?

A literatura nascida nos laboratórios afirma que a sonoridade de um cabo é o resultado de uma intrincada corrente de causas e efeitos que devem muito mais à arquitetura e construção do que à metalurgia. Contudo, materiais como prata e carbono comprovadamente só atenuam freqüências altas e médias em condições críticas, que dizem respeito à fabricação de mísseis teleguiados, não à audição de “música em conserva”.

Quando o assunto são cabos nem mesmo a ciência é unânime, e a mim interessam meramente os resultados. Não tendo credenciais para discutir tecnicamente as virtudes do produto, não me deixei seduzir pela burlesca tentação de tentar decifrá-lo – ou fingir decifrá-lo. O logos eletrônico recusa cartesianismos ingênuos, elaborados para escamotear a subjetividade irrevogável das avaliações que prescindem do osciloscópio. Para definir os atributos sensuais do AW 500S, não me permito ir além de uma opinião estritamente pessoal.

Ao entabular a análise do AW 500S, o projeto inicial era inaugurar uma nova forma de análise: o test drive. A idéia era apresentar uma lista de CDs espetaculares, atrozes e banais, identificando os trechos onde as virtudes ou pecados do produto teriam se revelado com maior intensidade. Eis um exemplo concreto:

Ottelo de Verdi. Túlio Serafin, regente. Orquestra e coro da Ópera de Roma. The RCA Victor Opera Series. 1960. 2 CDs ADD.
Esta é uma das gravações mais críticas que conheço. Serafin foi um grande regente da escola italiana, mas aqui, ao menos na primeira cena, pesou demais a mão: o furacão emulado pelos pratos e metais afundaram o navio de Otelo e toda a escrita contrapontística de Verdi. A conversão digital também naufragou contra agudos duros, estridentes e incômodos.

Trecho selecionado: CD 1, Faixa 1 [00:00 -- 04:10]

Audição com o cabo Monster 400 MK II (1 m):

O Monster conseguiu separar relativamente bem os timbres, mas não pôde controlar o indesejável festival de cintilações.

Audição com o Audio Wave 500 Silver (1 m):

Um cabo não pode revogar o caos, mas pode clarificá-lo. O AW 500S individualizou os timbres e suavizou as estridências, permitindo a identificação dos variados metais da massa cintilante. A clareza obtida deu "visibilidade" às articulações das cordas graves, que ganharam maior peso.

Eu teria tido muito prazer em escrever um artigo inteiro assim. Citando gravações mais populares e descrevendo o comportamento do cabo em trechos mais curtos, em sua casa você poderia tirar conclusões aproximadas, tecer comparações e avaliar até mesmo as orelhas do crítico. Aliás, me apresso em dizer que esta proposta não está revogada, e brevemente pretendo inaugurá-la com outro produto. Mas com o AW 500S foi impossível: na medida em que amaciava, o 500S revelou-se o cabo mais musical que já ouvi.

Quando você se propõe a avaliar um dado produto com respeito e distinção, se após alguns minutos se distrai da missão para se deixar arrebatar pela música, você está diante de algo muito, muito musical. Foi por isso que abdiquei de um formato de teste que poderia conquistar cinco minutos de glória literária em prol da audição contínua de boa música por semanas a fio. Ouvi gravações terríveis; ouvi registros monumentais; em tudo, a transparência suave e cristalina do AW 500S me fez esquecer que eu estava trabalhando (um trabalho pesado, é verdade, mas como disse Dexter Milgate,  “quando a tarefa é dura, os duros desempenham a tarefa”).

O PRODUTO

Do ponto de vista material o Absolute Acoustics Audio Wave 500 Silver é um modelo de construção. O acabamento é irrepreensível. O conector RCA585 tem a virtude de encaixar-se nos bornes do amplificador com precisão, sem que seja preciso recorrer à tração animal ou pedir ajuda ao seu primo halterofilista. Sem esforço você obtém o acoplamento perfeito. O corpo é robusto, o pino central também é Silver Plated, mas você pode optar por conectores XLR. Na configuração RCA, o cabo custa cerca de R$300,00 por metro. Sim, meu anjo, moeda nacional: se a maré estiver baixa, suas finanças não irão ao encontro do navio de Otelo.

SÍNTESE

A sabedoria popular afirma que o cabo de prata é contra-indicado para sistemas com tendências “agudas”. Isso é relativo. A presença da prata na construção de um cabo não é garantia de fidelidade. Existem cabos de prata que soam como cactos no assento porque foram mal projetados ou construídos, enquanto o AW 500S é referencial. Se o seu sistema tem inclinações para o desequilíbrio - mas os agudos são cristalinos – experimente um cabo mais contido. Se os agudos não são puros, talvez valesse a pena testar o AW 500S. Sua coerência pode favorecer o contraste das freqüências negligenciadas, gerando “visibilidade”.

Se o seu sistema é equilibrado, o cabo Absolute Acoustics Audio Wave 500 Silver pode causar uma revolução. Ele é musical, cristalino, doce e coerente como a mulher dos seus sonhos. A exemplo dos gregos, para refletir sua transparência, beleza e docilidade num vocábulo, recorro sem ressalvas à ύπεροχή, que significa proeminência, superioridade, excelência.

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Este site foi atualizado em 12/08/09