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O que é um audiófilo?
©Ricardo
Labuto Gondim
Publicado em VídeoSom&Tecnologia,
maio de 2005
Com o gramofone
seu bisavô viveu um dos milagres da tecnologia: levou Caruso pra cantar em
casa. Bem, não exatamente o Caruso. As gravações eram péssimas e a
reprodução de áudio ainda pior. Mas a sombra de Caruso estava lá, sob a
superfície dos chiados e estalidos.
Hoje, quer você
admita ou não, nos saímos melhor com a capacidade de informação da gravação
digital. Mas a parafernália técnica não é garantia de um som ideal. Existem
registros antigos extraordinários e gravações modernas decepcionantes. O
resultado depende de muitas variáveis, como a acústica da sala, o seu modo
de ouvir, o entendimento que você tem daquilo que ouve, o equipamento, a
energia que o alimenta, a pressão barométrica, seu estado de espírito... Os
menores detalhes são decisivos. E a busca permanente pela qualidade na
reprodução das gravações caracteriza um grupo de comportamento singular: os
chamados “audiófilos”.
UM
ESTADO PATOLÓGICO
"Audiófilo" é o
sujeito que estabelece uma quantia limite para gastar com o equipamento de
áudio e gasta... um pouquinho mais. De acordo com seus recursos, desejos e
preferências pessoais, ele só faz a escolha do equipamento depois de seis
meses de pesquisa. E passa os seis meses seguintes tentando convencer a si
mesmo de que fez a escolha certa. No fundo, no fundo, ele duvidará dessa
escolha enquanto não trocar o sistema outra vez.
Essa insegurança
é tão íntima que ele não a confessará a ninguém. Nem ao padre, nem a si
mesmo: o audiófilo é incapaz de aceitar a idéia de que seu equipamento tão
exaustivamente pesquisado e caro não seja perfeito. Por isso, às vezes ele
tem uma necessidade patológica de criticar o som do vizinho. Mas saiba, essa
crítica não é exatamente maldosa, é a afirmação indireta da escolha dele.
Tanto é que, mesmo insatisfeito com o som que tem, o audiófilo irá
recomendá-lo a você. Por quê? Freud explica: somente se você desejar um
sistema igual, ele irá acreditar um pouco mais em si mesmo – quem sabe
aprovando as próprias escolhas.
Como o audiófilo
tem sempre alguma coisa a dizer sobre a audição de gravações, existem
diversos tipos, catalogados e previstos pela Convenção Audiófila de Breslau,
de 1 de março de 1966. Vou citar os tipos mais comuns:
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ROMÂNTICO: é o
que não abre mão do som gostoso dos LPs. Ele é meticuloso e limpa a agulha
do toca-discos com vodka: isso mesmo, não há coisa melhor pra limpar a
preciosa agulha de uma boa cápsula (e a garganta também). Para limpar as
bolachas ele usa a receita do australiano que montou o estúdio do Bob
Dylan: vinte gotas de álcool isopropílico para cada 100 ml de água
filtrada. Só isso. Nada de produtos mais caros que um vidro de Armani.
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CLASSICISTA: é
o apaixonado pela simetria. Ele mede a distância entre as caixas de som,
traça um triângulo imaginário e senta-se exatamente no vértice. Nada pode
ultrapassar a fronteira desse triângulo imaginário. Nem o vento. Nem o
cachorro. Muito menos a esposa.
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JURISTA: para
este, equalização é crime hediondo. E ele não se refere somente à fraude
dos controles de graves e agudos, mas principalmente contra a falsidade
ideológica do equalizador gráfico. O jurista é obcecado por cabos na
tentativa de obter a reprodução mais neutra possível.
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ECONOMISTA: é o
que, desconhecendo as leis ardilosas do marketing confunde preço com
qualidade, confiando mais na etiqueta do equipamento do que em seus
próprios ouvidos. É ele quem vai comprar o produto para limpeza de discos
mais caro que o frasco de Armani. Para o economista, só o que é caro é
bom.
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PSEUDO-COSMOPOLITA: é o camarada
que pensa que todo e qualquer produto importado tem necessariamente
desempenho superior ao produto nacional. Assim, além de financiar a
indústria chinesa, deixa de comprar mais barato produtos espetaculares,
que o resto do mundo importa. |
Agora a grande
questão: em maior ou menor grau, todos os audiófilos incorporam
características uns dos outros, sem exceção. Quando as características
assimiladas assumem o mesmo peso, surge o puro-audiófilo, o infeliz que já
não ouve música, somente equipamentos.
COMPORTAMENTO
O audiófilo
guarda outros traços desconcertantes, como a obsessão em estado permanente.
Se você ligar para ele às quatro da manhã dizendo que o Aristóbulo comprou
um power dinamarquês... PLAFT! Não insista, ele já desligou. Sem sequer
olhar o relógio está correndo para a casa do Aristóbulo. Com sorte, talvez
perceba que ainda está de pijamas antes de tocar a campainha. Isso se, com
sorte, ele usar pijamas.
O audiófilo pode
ignorar as convenções da etiqueta, como ligar para você avisando que que irá
visitá-lo... Agora! Não saia! Já estou na esquina! E trazendo um monte de
coisas para a gente testar o seu sistema! E não me agradeça, viu?
As
inconveniências são largamente compensadas por uma grande generosidade.
Ligue outra vez paro seu amigo audiófilo:
- Pedrinho,
desculpe a hora mas você não sabe o que aconteceu: o Scooby... Ele mesmo, o
labrador de 60Kg com síndrome de Peter Pan... Ele comeu o cabo da caixa
esquerda! Sim, o Absolute Silver Baron! Como descobri a essa hora? Por
acaso: liguei o microondas pra esquentar a pizza, o safado se mijou todo e
caiu com as quatro patas pro ar fazendo ruídos estranhos. Acho que ele está
pegando a HBO!
Se o Pedrinho
tiver um cabo sobressalente, na mesma hora irá oferecê-lo a você. E com
prazer legítimo.
Não existe
ninguém mais apaixonado que um audiófilo, e conversas entre eles podem
acabar mal. Pelo menos até a próxima novidade que voltará a reuni-los na
mesma sala. A paixão do audiófilo é tão forte, mas tão forte, que muitos
casamentos foram desfeitos, já que diante de marcas como Audiopax e
Burmester qualquer mulher está em desvantagem. Até a Juliana Paes.
Deixando os
conflitos de lado, quando o audiófilo calca o “power” do amplificador;
quando a agulha do toca-discos desce sobre a superfície negra e brilhante do
LP; quando uma bandeja recolhe o CD ou outra mídia prateada para a dimensão
invisível da conversão digital; quando alto-falantes vibram e encantam o ar
com o timbre preciso e inimitável de cada instrumento, ocorre um dos fatos
capitais da experiência humana: nos momentos seguintes, sejam minutos ou
horas, o audiófilo é alguém na posse de si mesmo, desfrutando de uma
felicidade rara neste mundo.
MISTÉRIOS
Esse fenômeno é
tão poderoso que levantou questões nos mais diversos ramos do conhecimento.
A maioria sem resposta:
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CIÊNCIAS DA
RELIGIÃO: como pode um audiófilo sem preparo espiritual atingir o Nirvana?
Por que a mística em tomo do alto-falante eletrostático? Para onde nos
leva a devoção ao vinil?
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CIÊNCIAS
SOCIAIS: é justa a discriminação de um circuito classe AB diante de um
circuito classe A? Devemos lutar pela inclusão dos prés de toca-discos em
amplificadores integrados?
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PSICOLOGIA
ANALÍTICA: que conteúdos se escondem por trás de arquétipos como Quad e
Thorens? Como interpretar à luz da psicomotricidade o comportamento de um
homem de 40 anos que acabou de comprar uma Wilson Audio?
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MACROECONOMIA:
como o casal irá pagar o par de monoblocos valvulados que o cachorro do
seu marido comprou sem te consultar?
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ECONOMIA
DOMÉSTICA: como ajudar o cachorro obsessivo do seu marido a descobrir
novas qualidades em seu sistema, desistir de trocá-lo por um novo e manter
a hipoteca em dia? |
Se você é
audiófilo não vai concordar com muitos pontos deste artigo. Talvez esteja
bufando de raiva. Mas é só ligar o equipamento e pôr aquela música pra tocar
que as coisas vão parecer melhores. É para isso que serve a parafernália:
promover o encontro de pessoas com elas mesmas e com os outros – no passado,
no presente e no futuro. Se como disse Beethoven a música é uma revelação
mais alta que qualquer filosofia – e se os equipamentos servem à música –
então a audiofilia também é uma expressão de humanidade: as válvulas e os
transistores existem para que Caruso seja eterno.

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