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09/09/10

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O que é um audiófilo?


 ©Ricardo Labuto Gondim
Publicado em VídeoSom&Tecnologia,
maio de 2005
 

Com o gramofone seu bisavô viveu um dos milagres da tecnologia: levou Caruso pra cantar em casa. Bem, não exatamente o Caruso. As gravações eram péssimas e a reprodução de áudio ainda pior. Mas a sombra de Caruso estava lá, sob a superfície dos chiados e estalidos.

Hoje, quer você admita ou não, nos saímos melhor com a capacidade de informação da gravação digital. Mas a parafernália técnica não é garantia de um som ideal. Existem registros antigos extraordinários e gravações modernas decepcionantes. O resultado depende de muitas variáveis, como a acústica da sala, o seu modo de ouvir, o entendimento que você tem daquilo que ouve, o equipamento, a energia que o alimenta, a pressão barométrica, seu estado de espírito... Os menores detalhes são decisivos. E a busca permanente pela qualidade na reprodução das gravações caracteriza um grupo de comportamento singular: os chamados “audiófilos”.

UM ESTADO PATOLÓGICO

"Audiófilo" é o sujeito que estabelece uma quantia limite para gastar com o equipamento de áudio e gasta... um pouquinho mais. De acordo com seus recursos, desejos e preferências pessoais, ele só faz a escolha do equipamento depois de seis meses de pesquisa. E passa os seis meses seguintes tentando convencer a si mesmo de que fez a escolha certa. No fundo, no fundo, ele duvidará dessa escolha enquanto não trocar o sistema outra vez.

Essa insegurança é tão íntima que ele não a confessará a ninguém. Nem ao padre, nem a si mesmo: o audiófilo é incapaz de aceitar a idéia de que seu equipamento tão exaustivamente pesquisado e caro não seja perfeito. Por isso, às vezes ele tem uma necessidade patológica de criticar o som do vizinho. Mas saiba, essa crítica não é exatamente maldosa, é a afirmação indireta da escolha dele. Tanto é que, mesmo insatisfeito com o som que tem, o audiófilo irá recomendá-lo a você. Por quê? Freud explica: somente se você desejar um sistema igual, ele irá acreditar um pouco mais em si mesmo – quem sabe aprovando as próprias escolhas.

Como o audiófilo tem sempre alguma coisa a dizer sobre a audição de gravações, existem diversos tipos, catalogados e previstos pela Convenção Audiófila de Breslau, de 1 de março de 1966. Vou citar os tipos mais comuns:
 

ROMÂNTICO: é o que não abre mão do som gostoso dos LPs. Ele é meticuloso e limpa a agulha do toca-discos com vodka: isso mesmo, não há coisa melhor pra limpar a preciosa agulha de uma boa cápsula (e a garganta também). Para limpar as bolachas ele usa a receita do australiano que montou o estúdio do Bob Dylan: vinte gotas de álcool isopropílico para cada 100 ml de água filtrada. Só isso. Nada de produtos mais caros que um vidro de Armani.
 

CLASSICISTA: é o apaixonado pela simetria. Ele mede a distância entre as caixas de som, traça um triângulo imaginário e senta-se exatamente no vértice. Nada pode ultrapassar a fronteira desse triângulo imaginário. Nem o vento. Nem o cachorro. Muito menos a esposa.
 

JURISTA: para este, equalização é crime hediondo. E ele não se refere somente à fraude dos controles de graves e agudos, mas principalmente contra a falsidade ideológica do equalizador gráfico. O jurista é obcecado por cabos na tentativa de obter a reprodução mais neutra possível.
 

ECONOMISTA: é o que, desconhecendo as leis ardilosas do marketing confunde preço com qualidade, confiando mais na etiqueta do equipamento do que em seus próprios ouvidos. É ele quem vai comprar o produto para limpeza de discos mais caro que o frasco de Armani. Para o economista, só o que é caro é bom.
 

PSEUDO-COSMOPOLITA: é o camarada que pensa que todo e qualquer produto importado tem necessariamente desempenho superior ao produto nacional. Assim, além de financiar a indústria chinesa, deixa de comprar mais barato produtos espetaculares, que o resto do mundo importa.

Agora a grande questão: em maior ou menor grau, todos os audiófilos incorporam características uns dos outros, sem exceção. Quando as características assimiladas assumem o mesmo peso, surge o puro-audiófilo, o infeliz que já não ouve música, somente equipamentos.

COMPORTAMENTO

O audiófilo guarda outros traços desconcertantes, como a obsessão em estado permanente. Se você ligar para ele às quatro da manhã dizendo que o Aristóbulo comprou um power dinamarquês... PLAFT! Não insista, ele já desligou. Sem sequer olhar o relógio está correndo para a casa do Aristóbulo. Com sorte, talvez perceba que ainda está de pijamas antes de tocar a campainha. Isso se, com sorte, ele usar pijamas.

O audiófilo pode ignorar as convenções da etiqueta, como ligar para você avisando que que irá visitá-lo... Agora! Não saia! Já estou na esquina! E trazendo um monte de coisas para a gente testar o seu sistema! E não me agradeça, viu?

As inconveniências são largamente compensadas por uma grande generosidade. Ligue outra vez paro seu amigo audiófilo:

- Pedrinho, desculpe a hora mas você não sabe o que aconteceu: o Scooby... Ele mesmo, o labrador de 60Kg com síndrome de Peter Pan... Ele comeu o cabo da caixa esquerda! Sim, o Absolute Silver Baron! Como descobri a essa hora? Por acaso: liguei o microondas pra esquentar a pizza, o safado se mijou todo e caiu com as quatro patas pro ar fazendo ruídos estranhos. Acho que ele está pegando a HBO!

Se o Pedrinho tiver um cabo sobressalente, na mesma hora irá oferecê-lo a você. E com prazer legítimo.

Não existe ninguém mais apaixonado que um audiófilo, e conversas entre eles podem acabar mal. Pelo menos até a próxima novidade que voltará a reuni-los na mesma sala. A paixão do audiófilo é tão forte, mas tão forte, que muitos casamentos foram desfeitos, já que diante de marcas como Audiopax e Burmester qualquer mulher está em desvantagem. Até a Juliana Paes.

Deixando os conflitos de lado, quando o audiófilo calca o “power” do amplificador; quando a agulha do toca-discos desce sobre a superfície negra e brilhante do LP; quando uma bandeja recolhe o CD ou outra mídia prateada para a dimensão invisível da conversão digital; quando alto-falantes vibram e encantam o ar com o timbre preciso e inimitável de cada instrumento, ocorre um dos fatos capitais da experiência humana: nos momentos seguintes, sejam minutos ou horas, o audiófilo é alguém na posse de si mesmo, desfrutando de uma felicidade rara neste mundo.

MISTÉRIOS

Esse fenômeno é tão poderoso que levantou questões nos mais diversos ramos do conhecimento. A maioria sem resposta:

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: como pode um audiófilo sem preparo espiritual atingir o Nirvana? Por que a mística em tomo do alto-falante eletrostático? Para onde nos leva a devoção ao vinil?
 

CIÊNCIAS SOCIAIS: é justa a discriminação de um circuito classe AB diante de um circuito classe A? Devemos lutar pela inclusão dos prés de toca-discos em amplificadores integrados?
 

PSICOLOGIA ANALÍTICA: que conteúdos se escondem por trás de arquétipos como Quad e Thorens? Como interpretar à luz da psicomotricidade o comportamento de um homem de 40 anos que acabou de comprar uma Wilson Audio?
 

MACROECONOMIA: como o casal irá pagar o par de monoblocos valvulados que o cachorro do seu marido comprou sem te consultar?
 

ECONOMIA DOMÉSTICA: como ajudar o cachorro obsessivo do seu marido a descobrir novas qualidades em seu sistema, desistir de trocá-lo por um novo e manter a hipoteca em dia?

Se você é audiófilo não vai concordar com muitos pontos deste artigo. Talvez esteja bufando de raiva. Mas é só ligar o equipamento e pôr aquela música pra tocar que as coisas vão parecer melhores. É para isso que serve a parafernália: promover o encontro de pessoas com elas mesmas e com os outros – no passado, no presente e no futuro. Se como disse Beethoven a música é uma revelação mais alta que qualquer filosofia – e se os equipamentos servem à música – então a audiofilia também é uma expressão de humanidade: as válvulas e os transistores existem para que Caruso seja eterno.


 

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Este site foi atualizado em 26/08/10