áudio: audiofilia

09/09/10

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Para quem é o sistema, afinal?


 ©Ricardo Labuto Gondim
 

Dezenas de revistas e milhares de sites na web – incluindo o logos eletrônico – demonstram de modo irrefutável que a chamada “audiofilia” é uma coisa complicada.

Eis a pergunta inevitável: será que é mesmo?

Em nossa época, em matéria de áudio existem dezenas de opções de alto nível para todos os gostos e bolsos. E acredite, considerando os equipamentos isoladamente - e adotando a terminologia popular -, a distância entre um equipamento ouro e um equipamento diamante é cada vez menor.

O ponto é que para ouvidos sensíveis, treinados e exigentes as sutilezas que estabelecem a curta distância entre as duas categorias são altamente desejáveis - e a indústria cobra caro por elas.

Isso é importante pra você? Você está disposto a pagar muito por pequenas nuances? Você é capaz de ouvi-las ou só é capaz de ler sobre elas?

Para alguns, a questão é coerente e natural: a música também é feita de sutilezas. Pense em quantas versões diferentes existem da Quinta Sinfonia. Entre as que poderíamos qualificar como péssimas e ótimas a distância é enorme. Na esfera das ótimas as diferenças podem ser sutis – mas são justamente as sutilezas que nos fazem eleger uma versão em detrimento da outra.

Considerando que nenhum equipamento de áudio funciona isoladamente - mas numa composição de elementos diversos e interdependentes -, surge um problema: as diferenças sutis se somam para o bem e para o mal. É preciso, por exemplo, contrabalançar o tocador de CD com o cabo e o pré, equilibrar os três com o cabo do power e o power e combinar tudo isso com os cabos de caixas e as próprias caixas – sem falar em sala, filtragem elétrica, pressão barométrica, etc. Em linguagem feijão com arroz, é necessário por todos os ovos na mesma cesta sem quebrar nenhum - o que exige devoção, paciência, insatisfação permanente e ligeiramente obsessiva.

Você sente tais impulsos? O cenário te atrai ou repele?

Desse labirinto muito pouca gente escapou incólume, pois não existe fio de Ariadne para nos tirar dele: cada sistema e cada sala exigem uma abordagem única. Se houvesse uma “lei geral” ou pelo menos uma “epistemologia geral do áudio” não existiriam tantas revistas e sites, e a indústria seria dominada por um punhado de marcas - algo como Intel e AMD no campo dos processadores.

Assim, respondendo a pergunta, essa tal de audiofilia é mesmo uma coisa complicada. Muito complicada.

Ora, a pergunta não nos levou a parte alguma. Não revelou uma nova perspectiva. Temos que abordar o tema por outro ângulo:

A audiofilia precisa ser complicada?

Ah, isso já é alguma coisa, e eu diria que "não necessariamente": muitas das complicações teoricamente interpostas entre você e uma audição prazerosa foram detectadas, descobertas ou "inventadas" por outros - e não dizem respeito a você. Para a maioria de nós, são coisas que fazem muito mais barulho no papel do que nos auto-falantes. Em outras palavras, facilite a sua vida: o "problema" que você não ouve, não existe.

Mas vamos resistir à simplificação e avançar um pouco mais. Para responder a pergunta com firmeza (a audiofilia precisa ser complicada?), teremos de fazer muitas outras. Por razões de inépcia, fadiga e ócio, vou ficar com uma só:

O que é audiofilia?

Existem centenas de definições possíveis para a audiofilia. Mas só uma é legítima: a sua. Por quê? Porque somos afetados não pelas coisas, mas pela idéia que temos das coisas.

Se você não formular sua própria definição – intrinsecamente associada ao seu gênero musical favorito – vai acabar comprando a definição do outro e passar o resto da vida buscando a audiofilia dele, não a sua (leia aqui sobre os “princípios de satisfação” do Dr. Sigmund Gondim). Considere que nós os audiófilos somos modelos de insegurança e hesitação (leia Guia para os inseguros). Os que escapam, estão cheios de “verdades” contundentes. Por isso, volta e meia aqui no logos seu Tio Ricardo escreve que “a verdade está lá fora, não no logos eletrônico” (a idéia é abrir mão da verdade e ficar só com a contundência).

Vamos explorar algumas definições possíveis – e questioná-las:

a. Minha audiofilia é a tentativa de reproduzir o som mais fiel possível em relação aos instrumentos.

Já considerou que o CD não contém instrumentos, mas centenas de milhões de bits? O contra-baixo é de madeira nobre: e quanto ao cone do woofer? A trompa toca para trás, o tweeter para frente: vai dar para ficar igual? Se você ouve rock, como estabelecer o timbre referencial da guitarra: ele não depende – entre outras coisas – de onde e como o músico plugou o instrumento?

b. Minha audiofilia é a tentativa de recriar em casa o ambiente das grandes salas de concerto.

Mas qual das grandes salas? A Phillarmonie tem uma sonoridade, o Musikverein, outra, a Sala São Paulo uma terceira e o Concertgebouw uma quarta (leia mais aqui). Você quer uma das quatro ou as quatro juntas? Em qualquer das hipóteses, como se dará o milagre? Já considerou que muitos dos seus discos favoritos foram gravados em estúdio?

c. Minha audiofilia é um som de qualidade.

O que é “qualidade”? Seu jeans tem qualidade porque é bonito? Defina bonito? Porque tem “caimento”? Porque é durável? “Caimento” e durabilidade não são quesitos definidos? Então por que insistir em abstrações como “beleza” e “qualidade”? Não é mais seguro ser específico?

d. Minha audiofilia é um som o mais analítico possível.

Sistemas analíticos costumam ser frios e fatigantes. De que modo você pretende equilibrar isso? Pelo tocador de CD? Pelo pré? Ou a última coisa que você pretende é equilibrar isso?

e. Minha audiofilia toma por base a autoridade dos grandes audiófilos.

Autoridade em quê, meu filho? Na audiofilia dele? Acredite, existem muitos audiófilos com sistemas da pesada diametralmente opostos ao seu gosto pessoal. Você já ouviu o sistema do camarada que você julga “grande”? O gosto dele harmoniza com o seu? Ou você caiu na armadilha dos “sistemas de referência”, o mais frágil sustentáculo da profissão de reviewer? Referência como, cara-pálida? Quem elegeu? Alguém te consultou? A mim não consultaram. E não vou aceitar passivamente algo que jamais ouvi como "referencial".

f. Minha audiofilia é um som que me agrada.

Essa é da boa. A questão agora é definir o que te agrada e uma forma possível de obtê-lo e realizá-lo “sem quebrar a firma”. Não existe estrada Real para a audiofilia. Não adianta estar “estribado” e rivalizando em saldo bancário com o Silvio Santos: nesse campo somos todos plebeus. Torrar 7 mil dólares num pré de phono não vai garantir um som “melhor”, só a boa vida de quem vende. Confie em seus ouvidos, homem, o valor das coisas não está no preço, mas no seu gosto pessoal. Pode ser que aquele pré baratinho e feio de R$ 400,00 se encaixe em seu sistema como deve ser - ou seja, como você quer.

Resumindo, todas as definições são válidas, todas têm fraquezas e todas são potencialmente inatingíveis. A medida em que você se aproximar do seu ideal será a medida do seu contentamento. Como disse Oscar Wilde, “ser bom é estar em harmonia consigo mesmo. Não o ser, é estar em harmonia com os outros”.


 

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Este site foi atualizado em 25/08/10